Aula 07 – Angel Rama

Para terça-feira, leremos os primeiros três capítulos de A Cidade das Letras, de Ángel Rama. No total, são 53 páginas. Parece muito, mas vocês verão que o texto é tranqüilo. Precisei de menos de duas horas para reler.

Mas quem é o autor? Um dos intelectuais latino-americanos mais ecléticos do século XX, o escritor, acadêmico e crítico uruguaio Angel Rama colecionou desafetos e admiradores. Um debatedor feroz, nasceu em Montevidéu em 1926. Depois de estudar na Universidade de Paris, foi nos anos 60 diretor do Departamento de Literatura Hispano-Americana da Universidade de Montevidéu. Na época, também fundou a Editorial Arca, foi conselheiro da Biblioteca Ayacucho (em Caracas) e contribuiu com o semanário Marcha, uma revista literária de esquerda. Com o golpe uruguaio de 1974, acabou seguindo para os EUA, onde ensinou em Princeton na University of Maryland.

Intelectualmente, Rama sempre oscilou entre duas influências: Marx e Foucault. Mas seu projeto jamais foi dogmático. Diferentemente de muitos intelectuais de esquerda, foi um crítico ferrenho do regime cubano, era visto com suspeita pelo bloco soviético e manteve boas relações com liberais como o peruano Mario Vargas Llosa. Mesmo assim, teve seu visto permanente negado pelas autoridades norte-americanas. Em uma carta incluída em nossa edição de A cidade das letras, atribui sua expulsão a uma “campanha difamatória que organizaram os que dispunham de poderes para isso, acompanhados de um pequeno e lamentável grupinho de cubanos exilados (19-20)”. A informação é vaga, mas falarei mais sobre isso na terça.

Rama é conhecido por dois livros. O mais importante é A cidade das letras. Um lançamento póstumo, estava no prelo às 0h03 de 27 de novembro de 1983, quando Angel Rama morreu depois que o 747 da Avianca em que voava de Paris para Bogotá despedaçou-se ao fazer escala em Madri. Como é o livro que leremos no decorrer do próximo mês, não falarei muito sobre ele.

Falarei sobre Transculturación narrativa em América Latina, obra de 1982 influenciada pelo conceito de transculturação do antropólogo cubano Fernando Ortiz. Influenciado, por sua vez, pelo russo Malinowsky, Ortiz critica em seu Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar (1940) a concepção clássica da cultura cubana (e a latino-americana) como o resultado de um mero transplante marcado pela assimilação – por nativos e africanos – de valores e costumes europeus. Segundo Ortiz, o processo é bem mais complexo… por dois motivos.

O primeiro é que – historicamente – inúmeras culturas européias, africanas e nativas se encontram na América Latina. Ou seja, não há uma estrutura binária na qual uma única cultura influi sobre outras, mas uma constelação marcada por inúmeras ondas migratórias que, voluntárias ou não, reuniram negros da Guiné, do Congo, de Angola, do Senegal e de Moçambique com diferentes povos indígenas com judeus, com portugueses, com anglo-saxões, com franceses, com chineses.

Já o segundo motivo é que, nesse encontro, nenhum sistema cultural é hegemônico. E cada imigrante desterrado – mesmo o europeu – passa pelo processo traumático de perder sua cultura original e vê-la substituída por uma nova formação, essa híbrida. Ou, como diz Ortiz:

Entendemos que o vocábulo transculturação expressa melhor as diferentes fases do processo transitivo de uma cultura a outra, porque este não consiste somente em adquirir uma cultura distinta, que é o que a rigor indica a expressão inglesa aculturation, mas que o processo implica também e necessariamente a perda ou o desenraizamento de uma cultura precedente, o que se poderia denominar deculturação; e, além disso, significa a conseqüente criação de novos fenômenos culturais que se poderiam denominar de neoculturação.

Mas voltemos a Rama. No livro, ele investiga o surgimento – nos anos 1950 e 1960 – do que descreve como transculturadores. Esses seriam escritores que evitaram a apropriação (típica da geração regionalista anterior) das culturas locais latino-americanas como curiosidades exóticas. Mergulhando no local em busca de “valores resistentes, capaces de enfrentar a los deterioros” (39) impostos pela modernização, o transculturador identificaria assim elementos legítimos e autônomos. E descobriria que a cultura local resiste à pressão assimiladora das capitais e dos portos de entrada dos valores europeus. O que é mais importante, encontraria no próprio embate entre o interiorano e o metropolitano o germe de uma terceira cultura que, mesmo sendo frágil e tênue, teria características distintas tanto da realidade metropolitana quanto da local. Ou, como diz Rama:

Em cualquiera de los três niveles (lenguas, estructura literária, cosmovisión) se verá que los productos resultantes del contacto cultural de la modernización, no pueden asimilarse a las creaciones urbanas del área cosmopolita pero tampoco al regionalismo anterior. Y se percibirá que las invenciones de los transculturadores fueron ampliamente facilitadas por la existência de conformaciones culturales propias a que habia llegado el continente mediante largos acriollamientos de mensajes (55).

Ou seja, o choque causado pelos valores transpostos da metrópole levaria a cultura local a se reinventar e revigorar. E essa renovação seria manifesta pelo surgimento de autores que, como Guimarães Rosa e José María Arguedas, não apenas representam o embate entre o regional e o metropolitano (tema já recorrente no regionalismo), mas abordam tal embate sob o ponto de vista e nos termos da cultura regional.

Um exemplo seria Grande Sertão: Veredas – livro que Rama cita muito. Mesmo sendo uma invenção ficcional, o narrador Riobaldo – um jagunço letrado – seria o protótipo e a representação narrativa desse procedimento. Substituindo a estrutura regionalista onde um homem urbano apresenta a periferia a um ouvinte igualmente urbano (como em Os sertões), o transculturador faria a periferia falar. Deslocaria, em outras palavras, o lugar de fala sobre o regional para o regional. Quando Riobaldo fala a seu visitante urbano, é o local que fala à metrópole, o sertão que fala à cidade.

Mas nós não leremos Transculturación narrativa em América Latina. Leremos um livro posterior, de enfoque menos antropológico e literário e mais histórico. Trata-se da obra póstuma A cidade das letras. Não quero falar muito sobre o livro porque não quero direcionar a leitura de vocês. Direi apenas que ele reflete uma das grandes virtudes de Rama: sua capacidade de elaborar análises abrangentes e sintéticas de experiências históricas variadas – comparando países tão diversos quanto o Peru e o Brasil, a Venezuela e o México. De fato, Rama é uma preciosidade para o latino-americanismo pelo fato de ser um dos poucos que, mesmo reconhecendo as particularidades brasileiras, produziu um discurso que insere a história do Brasil na história latino-americana em geral.

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8 Respostas to “Aula 07 – Angel Rama”

  1. Kaio Says:

    “A Cidade das Letras”, ao meu ver, é algo como uma síntese, um micro-macro do que seria um estudo sobre “Escrita e Sociedade na América Latina”. Vários dos pontos principais que já foram discutidos e que ainda hão de ser trabalhados nessa disciplina são abordados pela obra de Angel Rama.
    Crítico literário que é, o autor desenvolve uma discussão recheada de referências, comparações e elucidações sobre a ‘saga’ dos intelectuais latino-americanos. Quase sempre atrelados ao poder – mesmo quando estão na oposição, na contestação ao modelo adotado -, desde os primórdios da colonização desenvolvem a ambição do planejamento completo da sociedade ibero-americana, mesmo que ela ainda nem tivesse se consolidado nos novos territórios.
    Em outras palavras, predominou um racionalismo extremo e metódico: o ideal precedendo o real, as palavras antes das coisas. Arquitetavam-se cidades muito antes mesmo que se iniciasse o empreendimento de construí-las. Nas palavras do autor, “A ordem deve ficar estabelecida antes de que a cidade exista, para impedir assim toda futura desordem, o que alude à peculiar virtude dos signos de permanecerem inalteráveis no tempo e seguir regendo a mutante vida das coisas dentro de rígidos marcos.” (pág. 29) Esta pretensão, que beira à planificação social, povoou toda a trajetória do continente, sempre demonstrando o caráter profundamente normativo dos grupos dominantes da América Latina.
    Outro ponto a se destacar é o papel desempenhado pelos intelectuais. A classe letrada autoproclamava-se responsável por “educar” a população local, adequá-la às suas ambições – que, inicialmente, eram de cunho mais religioso, para depois das independências o objetivo ser mais ‘cívico’. O requinte, o rebuscamento e as próprias universidades, tribunais e demais órgãos eram maneiras de enfatizar o distanciamento desta elite cultural em relação ao ‘resto’, à plebe.
    Por último, gostaria de tratar de outro aspecto levantado por Rama: a obsessão por “leis, classificações, distribuições hierárquicas.” (pág. 54) A retórica, a oratória e, é claro, o preciosismo linguístico eram tão valorizados por aquele grupo diminuto que controlava a região (não só chapetones, como também os criollos, utilizando a nomenclatura castelhana) que até profissões que prescindiam disso adquiriram tais características. O exemplo dos médicos que mais pareciam literatos, citado por Gilberto Freyre, é bem sintomático.

  2. Murilo Says:

    A dominação através das letras, que Rama enfocou nos seus estudos das cidades letradas, existe até os nossos dias. Embora a maioria da população saiba ler e escrever, ela não sabe dominar os recursos da retórica, e é a partir desta que a subjugação faz-se existir.
    Nossa esfera jurídica, por exemplo, é amplamente jargonizada. Uma parte dos serviços dos advogados poderia ser feita pelo prórpio cliente – se formos ser realistas e não burocratas -, só não é possível de acontecer porque é necessária uma linguagem rebuscada em sua defesa para gerar a possibilidade do juiz acreditar na sua versão da verdade, como se o linguajar simples não fosse digno da justiça e o jargonizado sempre o detentor da honestidade – e isso já cansamos de saber que não corresponde a realidade.
    A colonização da América possibilitou iniciar uma nova história europeizada. A América foi sendo construída através do sonho da baixa nobreza de criar uma nação hierarquizada, sendo que aquela deveria compor o topo dessa pirâmide social. Essa nobreza desejava mais que o poder limitado de nascimento que tinha na Europa. Ela desejava agora o poder de mando. Para isso, utilizou como legitimidade, durante esse meio milênio de história americana, os signos, representações, tanto na escrita como na arquitetura, no urbanismo e etc. Signos mistoriosos e onipotentes, pois instigam a nossa capacidade de raciocínio e sempre fingem esconder alguma interpretação, fazendo com que o indivíduo que os indaga coloque-se numa posição de inferioridade. Tal método, nos dias de hoje, ainda prevalece. É comum depararmos com intelectualóides que fingem deleitar-se em salas de museus e exposições de arte.
    A legitimidade de poder através da cultura e do saber ainda é inerente à sociedade, apenas mudou sua roupagem a fim de adaptar-se ante os gritos comunistas que a perseguem.

  3. Gabriella Says:

    A descoberta de um novo continente, cuja cultura foi facilmente ignorara pela “cegueira antropológica”, constituiu uma oportunidade de instaurar “modelos ideais” que pairavam na imaginação européia com o surgimento de novas correntes de pensamento. Uma terra sem o peso do passado, incapaz de refutar o idealismo efervescente. Um continente de “cidades ordenadas”; com ideologias precedentes. O poder legitimou-se na simbologia da escrita, sua distância da fugacidade do tempo e da mutabilidade da história possibilitou a instauração da ordem. Cidades regidas pelas letras, ou melhor, regidas pelos homens capazes de dominar a escrita. A forma abrangente de analisar a América Latina de Angel Ramas muito me agradou. Ele conseguiu encontrar uma unidade que não exclui a heterogeneidade. Uma visão geral da América Latina que não ignora suas particularidades.

  4. Marcelo Says:

    Após as leituras e discussões da primeira unidade do curso, não posso de deixar de notar os riscos de uma não leitura do argumento de Rama nesses 3 primeiros capítulos. Acredito que uma leitura horizontal do texto carrega em si o risco de servir como argumento repetido por muitos no pensamento social latino-americano: que nossos algozes estão alhures. Seja na forma do capitalismo mercantil de início de colonização, na importação de modelos burocráticos pouco adaptados à realidade colonial, no comércio desigual de matérias primas por produtos manufaturados, ou na organização de uma dinâmica poder/saber nos espaços urbanos, burocracias e elites, nossos problemas parecem sempre estar em outras mãos. No entanto, e talvez seja esse o trunfo de Rama (não exclusivo dele, vale dizer), embora devamos reconhecer que boa parte dos males hoje existentes na América Latina tem origem nessas práticas, há muito os algozes deixaram de estar fora de casa. Em grande medida, somos os próprios reprodutores dessas práticas. Esta leitura, contudo, não me parece (ao menos até o terceiro capítulo do livro) evidente. Ela se mostra de maneira indireta, por meio de uma matriz de análise inspirada em Foucault e uma concepção de poder mais ampla. Desta forma, acredito que Rama corre o risco de ser sugado por uma simplificação de seu discurso, fazendo com que novamente uma análise aprofundada da sociedade latino-americana seja enquadrada mais uma vez na oposição infindável – sobretudo no campo político – entre (neo)liberalismo e marxismo.

  5. Anônimo Says:

    Angel Rama fala da construção das cidades América Latina que foram construídas de forma planejada para servir a metrópole, ao contrário do que ocorreu na Europa onde as cidades surgiram de acordo com sua história e de acordo com sua cultura. Mostra a partir daí o impacto que isso tem na sociedade latino-americana que sempre foi muito hierarquizada. Fala da burocratização importada que governou todo o plano colonial do Novo Continente em que a realidade muitas vezes é ignorada em favor de um ideal perfeito e onde o que é escrito vale muito mais que os fatos em si, como se através dos signos se chegasse aos valores europeus e, então, à verdade.

  6. Pedro Vinícius Says:

    Angel Rama fala da construção das cidades América Latina que foram construídas de forma planejada para servir a metrópole, ao contrário do que ocorreu na Europa onde as cidades surgiram de acordo com sua história e de acordo com sua cultura. Mostra a partir daí o impacto que isso tem na sociedade latino-americana que sempre foi muito hierarquizada. Fala da burocratização importada que governou todo o plano colonial do Novo Continente em que a realidade muitas vezes é ignorada em favor de um ideal perfeito e onde o que é escrito vale muito mais que os fatos em si, como se através dos signos se chegasse aos valores europeus e, então, à verdade.

  7. Raimundo Falabelo Says:

    Li Rama, a cidade das letras, há alguns anos, apressadamente. Mas agora, deu-me vontade de voltar a relê-lo.

  8. Carmen Silvia Menna Barreto Says:

    Eu precisava dos capítulos 1 e 2 para o meu curso de Historia da América I da PUC RIO, alguém poderia me enviar em pdf ou ePub?
    carmen_silvia@uol.com.br

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