Aula 19 – Arguedas

o suicidio vira escritura?
Arguedas: suicídio é escrita?

Hoje leremos manifestos de dois autores que recorrem a estratégias diferentes para abordar problemas semelhantes: o antropólogo marxista peruano José María Arguedas e o cronista brasileiro Nelson Rodrigues (ver Aula 19b).  Também leremos apresentações escritas pela Joyce e pela Tájila.

De Arguedas, leremos No soy un aculturado, discurso que ele proferiu há 40 anos ao receber o prêmio Inca Garcilaso de la Vega em Lima. Caso eu consiga encontrá-lo, também leremos um conto de Arguedas sobre um pião e um coronel que… depois eu conto. De qualquer forma, encontraremos o peruano novamente em algumas semanas, quando leremos os diários de El zorro de arriba y el zorro de abajo.

É um livro que dói. Segue dois enredos aparentemente desconexos. O primeiro descreve a decadência e marginalização de migrantes indígenas na cidade litorânea de Chimbote, Peru. O segundo fala de um escritor e antropólogo peruano chamado José Maria Arguedas que escreve um livro sobre a decadência e marginalização de migrantes indígenas e, depois, comete suicídio.

Em um gesto comparável ao que o exilado cubano Reinaldo Arenas faria anos depois, Arguedas terminou o livro no dia 29 de novembro de 1969. Em dia 2 de dezembro de 1969, encostou um revólver na cabeça e puxou o gatilho. Morreu pelo livro. Morreu com o livro. Morreu no livro. O que fazer com isso?

Ainda que seja optativa, também sugiro que vocês leiam um breve trecho de Contraponto cubano do açúcar e do tabaco, clássico do antropólogo cubano José Ortiz que você pode baixar aqui. Abaixo, segue a (ótima) apresentação de J. sobre os dois autores.

ARGUEDAS

Escritor, etnólogo e antropólogo, o peruano José Maria Arguedas (1911-1969) se destacou pelos estudos sobre o folclore de seu país e pelas traduções da literatura quéchua – idioma andino de origem Inca. Estudou na Universidade de San Marcos (Lima) e publicou sua primeira obra, Água, em 1935. Sua última obra, El zorro de arriba y el zorro de abajo, foi publicada em 1971.

É interessante notar que a vida de Arguedas vai diretamente ao encontro de suas obras. Não é mais um escritor que fala sobre o que nunca viu. Ele vivencia a história, convive com os personagens. Sua obra é autobiográfica.  Tinha apenas três anos quando perdeu a mãe. Passou, então, a acompanhar o pai nas viagens pelo interior peruano. Foi a partir do segundo casamento do pai que Arguedas teve contato com os índios. Sua madrasta o mandava comer e dormir na cozinha junto aos índios. O que era a princípio castigo acabou abrindo portas para os estudos de Arguedas. Como ele dizia:

“Yo soy hechura de mi madrastra […] Nunca poderei agradecer suficientemente à minha madrasta tal castigo, pois foi nessa cozinha que conheci os índios, onde comecei a amá-los”.

O resultado é que Arguedas aprende até os dez anos a expressar-se apenas em quéchua. A circunstância de ter sido educado em duas tradições culturais, a do Ocidente e a dos indígenas, permitiu que Arguedas compreendesse e descrevesse a realidade do índio. Em 1931, ele ingressou na Faculdade de Letras da Universidade Nacional Maior de San Marcos (Lima) para estudar literatura. Foi influenciado pelo marxista peruano José Carlos Mariátegui e por Lênin.  Um ano depois, trabalhou como assistente dos Correios peruanos, mas perdeu o emprego por ter sido preso por participar de uma manifestação em favor da República Espanhola. Mais tarde, foi nomeado para cargos públicos ligados à Educação, ao Folclore e à Antropologia.

A produção intelectual de Arguedas, pela qual ele recebeu diversos prêmios, é extensa. Além de obras de ficção, contos, ensaios e artigos sobre o idioma quéchua, ela inclui, a mitologia pré-hispânica, o folclore, a educação popular e outros elementos da cultura peruana.

Como escritor, Arguedas tentou registrar o mundo andino em que crescera, com sua língua, sua cultura e sua religiosidade. Suas obras retratam um país dividido em duas culturas: a quéchua dos Andes e a européia das cidades. Seu primeiro livro reúne contos que descrevem a vida numa vila peruana. Essas histórias exemplificam um problema de sua narrativa: como encontrar uma linguagem que permita que os personagens indígenas se expressem em espanhol sem soar falso? Arguedas resolve o problema usando uma “língua inventada” que é predominantemente espanhola, mas tem ritmo quéchua.

El zorro de arriba y el zorro de abajo, foi publicado postumamente. “A presença dos seres mitológicos (as raposas, ou “zorros“, do título) faz do livro uma continuação do manuscrito quechua Dioses y hombres de Huarochirí, narrativas orais registradas no século XVI e traduzidas ao espanhol, por Arguedas, em 1966” (Natali). O relato do escritor acaba sendo como o manuscrito de Huarochirí, “um texto inacabado e fragmentário, interrompido por uma tragédia”, que seria seu suicídio (Natali).

No discurso que Arguedas fez ao receber o prêmio Inca Garcilaso de La Vega, é interessante o trecho em que afirma que foi levado à universidade pela fortuna, esteve com estrangeiros e ao mesmo tempo foi contagiado pelos cantos e mitos quéchua. Tal mistura permitiu que ele expressasse em linguagem escrita a necessidade de uma união de iguais entre as duas nações. Diz que a nação vencida devia se juntar com a vencedora e não renunciar sua alma e assumir a dos vencedores, e não se aculturar. Arguedas:

Yo no soy un aculturado; yo soy un peruano que orgullosamente, como un demonio feliz habla en cristiano y en indio, en español y en quechua. Deseaba convertir esa realidad en lenguaje artístico y tal parece, según cierto consenso más o menos general, que lo he conseguido.

Arguedas vive uma contradição. Às vezes, orgulha-se de suas obras, diz acreditar no valor cultural delas e sugere ter ajudado a unir as duas nações. Em outras ocasiões, entretanto, oferece uma versão menos eufórica do encontro cultural. Ainda em 1950, por exemplo, perguntava-se em que língua devia escrever:

¿Después de haberlo aprendido, amado y vivido a través del dulce y palpitante quechua? Fue aquel un trance al parecer insoluble. Escribí el primer relato en el castellano más correcto y “literario” de que podía disponer. […] Pero yo detestaba cada vez más aquellas páginas. […] Bajo un falso lenguaje se mostraba un mundo como inventado, […] un mundo “literario”, en que la palabra ha consumido a la obra.

Segundo Natali, “o desconforto do autor é provocado pela literariedade daquilo que é escrito em espanhol.” O mediador cultural cai aos poucos. O encontro das duas culturas torna-se difícil de ser concretizado no processo produtivo. Com isso, desaparece a possibilidade de representar a diferença pela literatura – de fazer a transculturação narrativa (Natali). Talvez essa venha a ser a razão pela qual foi para ele preferível morrer.

Grande parte desta apresentação é baseada no artigo José Maria Arguedas aquém da literatura, de Marcos Piason Natali, além de outros artigos como José Maria Arguedas y La memória autobiográfica del indigenismo contemporâneo, de José Carlos Rovira; José Maria Arguedas, de Jennifer Zahn e a introdução do livro La experiência americana de José Maria Arguedas.

Bibliografia:

http://www.assirio.pt/autor.php?id=1446&i=Z#livros

http://www.mnsu.edu/emuseum/information/biography/abcde/arguedas_jose_maria.html

www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142005000300009

livro: La experiencia Americana de Jose Maria Arguedas

Fernando Ortiz

Etnólogo, antropólogo, advogado criminalista e ensaísta, o cubano Fernando Ortiz (1881-1969) nasceu em Havana e é uma figura de grande importância no meio científico da América Latina. Em 1907, se tornou membro da Sociedad Económica de Amigos del País. Sendo a mais antiga sociedade científica local, visava à contribuição para o desenvolvimento de Cuba pela aplicação de conhecimentos científicos. Durante dez anos fez parte da Câmara dos Deputados de Cuba, desenvolvendo o projeto do Código Penal Cubano. Com isso, representou o país em congressos internacionais, científicos e acadêmicos, como delegado oficial. Foi pioneiro no estudo de novas culturas africanas nas Américas, principalmente em Cuba.

Ao contrário de muitos autores que pregam apenas uma cultura para a formação de um povo, como Sarmiento, Ortiz reconhece a importância dos diversos povos que compõem aquele país, não só no que se diz respeito à cultura, como também na esfera econômica, social e linguística. “A verdadeira história de Cuba é a história de suas intrincadíssimas transculturações”.

Ao estudar criminosos negros em Havana, Ortiz passou também a pesquisar a subcultura urbana. Em 1906, escreveu seu primeiro livro sobre este assunto, Los negros brujos e em 1916, Los negros esclavos, um estudo sobre as origens africanas dos negros cubano. Em 1923, publicou Un catauro de cubanismos e o Glosario de Afronegrismos. O primeiro identifica as origens africanas em muitas palavras usadas em Cuba. O segundo é um estudo lingüístico mais aprofundado. Para isso, buscou mapear a influência africana nas artes cubanas, principalmente na música, dança e literatura. Em 1940, publicou seu livro mais famoso, Contrapunteo cubano del tabaco y del azúcar, que interpreta a cultura cubana a partir de seus dois produtos principais.

Ortiz foi figura carimbada na fundação de instituições e jornais dedicados ao estudo da cultura cubana. Em 1937 ele fundou a Sociedad de Estudios Afrocubanos. Em 1955, foi nomeado para o prêmio Nobel da Paz em reconhecimento ao “amor pela cultura e pela humanidade”. Vinte e seis anos após sua morte, foi criada em Havana a Fundação Fernando Ortiz, que visa a preservar seu legado e perpetuar seus estudos, principalmente sobre a cultura Afro-Cubana.

Qual é o legado de Ortiz? Principalmente, o questionamento do processo de “aculturação” na formação cultural cubana – e, por extensão, latino-americana. Como um conceito mais adequado, propôs em 1947 a “transculturação”. Vamos aos significados:

ACULTURAÇÃO

  • Interpenetração de culturas. 2. Conjunto de fenômenos provenientes do contato direto e contínuo de grupos de indivíduos representantes de culturas diferentes. – Dicionário Aurélio
  • Processo de trânsito de uma cultura para outra e todas suas repercussões sociais.  – Fernando Ortiz
  • Transmissão de traços culturais de uma sociedade para outra. É o resultado de fenômenos originados pelo contacto de indivíduos de culturas distintas. Nome que se dá ao grupo de fenômenos decorrentes do contato direto de integrantes de várias culturas, ou seja, o processo de aquisição através do contato dos elementos culturais de um grupo com uma cultura com elementos de um grupo de outra cultura. Processo pelo qual as pessoas aprendem os padrões de comportamento do seu grupo social. – Outros

TRANSCULTURAÇÃO

  • Processo de transformação cultural caracterizado pela influência de elementos de outra cultura com a perda ou a alteração dos já existentes. – Dicionário Aurélio
  • [Termo que] expressa os variados fenômenos que se originam em um determinado país, por meio das complexas transmutações de culturas que lá se verificam; sem conhecê-las é impossível entender a evolução do povo, tanto no aspecto econômico quanto no institucional, jurídico, ético, religioso, artístico, lingüístico, psicológico, sexual e nos demais aspectos da vida. Entendemos que o vocábulo transculturação expressa melhor as processo de transição de uma cultura para outra, porque este processo não consiste somente em adquirir uma cultura diferente, o que, a rigor, significa o vocábulo anglo-saxão acculturation , porém o processo implica também, necessariamente, na perda, no desenraizamento de uma cultura anterior – Fernando Ortiz
  • Processo que ocorre a um indivíduo quando adota uma outra cultura, podendo implicar em perda cultural, mas não necessariamente. Está mais ligada à transformação de padrões culturais locais a partir da adoção de novos padrões vindos através das fronteiras culturais em encontros interculturais. É a transformação de padrões a partir do elemento externo. É um termo inventado pelo antropólogo Fernando Ortiz em 1947 para descrever o fenômeno de fundir e de convergir as culturas. – Outros

OUTROS CONCEITOS IMPORTANTES DE ORTIZ

  • Transplantação cultural – transmissão bagagem cultural ao mudar de um lugar para outro.
  • Sincretismo Cultural – junção de elementos culturais diferentes, tendo perceptível alguns sinais originários.

Bibliografia básica:

www.fundacionfernandoortiz.org/fortiz.htm

www.britannica.com/EBchecked/topic/848801/Fernando-Ortiz

www.library.miami.edu/chc/sitting.html

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2 Respostas to “Aula 19 – Arguedas”

  1. ivette Says:

    No Soy Un Indio Aculturado
    Achei interessante as palavras de Arguedas ao receber o premio “Inca Garcilaso de la Vega”. O objetivo dele , como bem diz no seu discurso foi o de respeitar e divulgar a cultura Quechua. O autor analisa sua formação e se considera um herdeiro da cultura europeia, porque teve a chance de estudar numa universidade, sem entretanto perder os vinculos com a sua origem india, Quechua.
    “Pero los muros aislantes y opresores no apagan la luz de la razón humana y mucho menos si ella ha tenido siglos de ejercicio; ni apagan, por tanto, las fuentes del amor de donde brota el”. Assim ele se referia á sua herança india preservada apesar da tentativa do colonizador espanhlo de impor sua cultura.
    Assim nos sentimos nós cubanos com o bloqueio americano, que nos querem impor uma cultura que não nos pertence. Eu penso que o maior valor da revolução cubana esta na preservação da nossa cultura e no direito que temos de dirigir o nosso destino.
    A seguir o autor nos revela o que entende por não ser “um aculturado”
    “…que la nación vencida renuncie a su alma, aunque no sea sino en la apariencia, formalmente, y tome la de los vencedores, es decir que se aculture. Yo no soy un aculturado; yo soy un peruano que orgullosamente, como un demonio feliz habla en cristiano y en indio, en español y en quechua.”
    Mais adiante o autor vai falara de duas condições básicas que permitiram que ele chegase a esta condição de intelectual e escritor, superando as dificeis condições da colonização:
    “la teoría socialista no sólo dio un cauce a todo el porvenir sino a lo que había en mí de energía, le dio un destino y lo cargó aún más de fuerza por el mismo hecho de encauzarlo. ¿Hasta dónde entendí el socialismo? No lo sé bien. Pero no mató en mí lo mágico”
    “El otro principio fue el de considerar siempre el Perú como una fuente infinita para la creación”.
    Terminando o autor fala ao seu publico que se os colonizadores são superiores ao povo simples do Perú em tecnologia, jamais os serão em cultura e arte, do que sempre debe orgulhar-se o povo peruano.
    “En técnica nos superarán y dominarán, no sabemos hasta qué tiempos, pero en arte podemos ya obligarlos a que aprendan de nosotros y lo podemos hacer incluso sin movernos de aquí mismo.”

  2. Murilo Says:

    O Arguedas possui um belo discurso. Suas construções e metáforas encantam o leitor e nos faz imaginar a força e a delicadeza da cultura peruana. Porém, ao afirmar a importância da cultura do Peru, o autor acaba caindo na mesma deficiência que explicitou ao reclamar da tentativa de dominação dos outros povos sobre o seu. As metáforas sobre as espécies animais peruanas que possuem melhores qualidades em relação às européias também possuem certa carga de dominação. Se o autor considerou errônea a atitude do dominador de tentar aculturar os latinos por considerar a cultura destes como inferior, por quê é que Arguedas canta glórias nossas a fim de rebaixar o “caldo” do próximo? Todas as culturas são diferentes e cada uma possui um mérito e uma importância histórica. Esse artifício de desqualificar a essência alheia é a maneira mais cômoda e deslegitimada de explicitar as próprias riquezas. É também o artifício mais utilizado pela atual elite letrada, a qual aponta falhas ortográficas e em discursos sem preocupar-se em apresentar e defender o seu próprio ponto de vista. Dialética. Isso é que falta.

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