Aula 10 – Padre Antônio Vieira

PARA TERÇA-FEIRA, LEREMOS O Sermão da sexagésima, DE ANTÔNIO VIEIRA.

 

O padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608 e morreu na Bahia em 18 de julho de 1697. Filho de escrivão, chegou a Salvador aos seis anos de idade, passando a estudar em um colégio Jesuíta. Tornou-se novato da ordem em 1623 e sacerdote em 1634.

 

Quando a Holanda tomou Salvador em 1624, Vieira deixou a cidade, passando a exercer a função de missionário no interior baiano. Em grande medida autodidata, passou a lecionar retórica em Olinda uma década depois. A partir de1638, foi professor de Teologia.

Vieira sofreu muito. E nem sempre foi popular.  Era considerado um traidor por muitos portugueses, pois defendeu a entrega do Nordeste durante a segunda invasão holandesa (1630 a 1654). E o desgaste só aumentou depois de 1641 – quando o jesuíta mudou-se para Lisboa para atuar como diplomata da Coroa. Ao defender os direitos dos judeus portugueses, entrou em conflito com a Ordem Dominicana e, especialmente, com a Inquisição. Desgastado, retornou ao Brasil em 1652 – pregando no Maranhão e no Pará.

Em 1661, Vieira retornou a Portugal, onde voltou a ter problemas com a Inquisição. Chegou a ser preso e carregou o apelido de “Judas do Brasil” por boa parte de sua vida. Depois de passar alguns anos em Roma, foi definitivamente inocentado em 1675 – seis anos antes de retornar ao Brasil pela derradeira vez.

 

Apesar da defesa que faz do brado como voz adequada para o sermão no texto que leremos para terça-feira, Vieira foi uma pessoa profundamente tolerante. Lutou contra a escravização dos povos indígenas, resistiu à Inquisição, advogou a igualdade de direitos para os marranos (os cristãos-novos ou judeus convertidos) e criticou a escravidão.

 

Quanto ao sermão, é um texto fascinante. No fundo, enfrenta  a mesma questão que vimos em Schwartz e Sérgio Buarque de Holanda: a dissociação, tão característica do latino-americano, entre palavra e ato . É um texto que procura explicar o que eu chamaria de “a intransigência do cotidiano” – a dificuldade inerente em mudar os costumes.

 

Mas o texto também é relevante para o curso por dois outros motivos. O primeiro é que tem a palavra como principal tema – buscando entender e mapear os motivos que levam ao fracasso do “semeador” – ou seja, do pregador, de quem a usa para mudar o mundo. O segundo é que trata-se de um texto que fala daquela transição entre a similitude do Renascimento e o mathesis do Barroco/Era Clássica.

 

Ao ler o texto, é preciso prestar atenção a pelo menos duas coisas. A primeira é fácil: o que Vieira diz, a quem critica e por que. O segundo aspecto a considerar é mais sutil: COMO ele argumenta. Vale, por exemplo, atender à cadência de repetições que ele usa. Acho fascinante como repetidamente enumera fatores que geram uma realidade, depois os define, depois os descreve e exemplifica. Também vale atender a como ele usa metáforas como “estrela” e “árvore”, entre outras. Tem algo aí, acredito. Não quero estragar a leitura de vocês, mas busquem manter Foucault em mente.

15 Respostas to “Aula 10 – Padre Antônio Vieira”

  1. Murilo Says:

    Antes de mais nada, quem nos dera se o padre Antônio Vieira estivesse vivo para compartilhar conosco o seu ponto de vista, assim como fez JR Guzzo. O padre mergulha firmemente no mundo das palavras e cria uma interpretação, antitesemente (para o horror dos que pregam a imobilidade do dicionário, acho que acabei de criar uma palavra), tão racional e tão religiosa que é capaz de trazer certa espiritualidade até mesmo aos “corações de pedra”.
    Devemos destacar, antes de comentar as análises de Vieira, a coragem e a audácia dele de falar quão claramente sobre os defeitos dos padres em um período pós-inquisição em que vivia.
    As analogias sobre o trigo, o semeador a terra em que ocorria a ação são muito simples e muito profundas. Devemos dar destaque à retórica de Vieira, pois ele amarra seu discurso tão bem que não conseguimos desviar a atenção de seu texto. É valido lembrar que esse discruso é um SERMÃO, por isso foi feito, declarado, no ato da missa, sem permitir grandes reflexões imediata. Ele, ao declarar suas idéias, não sentou-se em alguma escrivaninha e iniciou uma análise técnica de seu discurso, foi tudo ao vivo. Esta escritura do sermão foi feita por alguém enquanto ele discursava. É claro que antes da missa ele deve ter pensado em que falar, mas seu discurso foi, ao mesmo tempo, muito limpo e denso, típico de quem realmente sabe o que fala.
    Vieira, ao criar o caminho do seu discurso, inocenta a palavra de Deus e o homem receptor da culpa da não-frutificação daquela. Tal falha é transferida a alguns padres, os semeadores que não sabem semear. Vieira condena a atitude destes que agem como diabos ao distorcerem o discurso divino e não cumprem corretamente o papel para o qual são designados.
    Antônio analisa uma parte da problemática que estudamos em nossa matéria “Escrita e sociedade”: o verniz religioso. Ainda hoje, alguns padres usufruem de jargões para fingir acrescentar alguma verdade em seus discurssos.
    Um dos métodos de retórica mais fáceis de serem usados é o uso de um vocabulário rebuscado, pois ele aguça o medo no leitor e transmite à este a culpa de uma má compreensão.
    Antônio destaca em seu discurso que se alguém deseja falar bonito, este não necessita recorrer ao rebuscamento: “As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há-de ser o estilo da pregação; muito distinto e muito claro. E nem por isso temais que pareça o estilo baixo; as estrelas são muito distintas e muito claras, e altíssimas”.
    Belo texto. Não sei se gosto tanto dele porque o leio e o escuto em debates desde pequeno ou porque o texto tem, realmente, um certo “quê” especial.

  2. Tajla Medeiros Says:

    No Sermão de Antônio Vieira percebemos que ele concebia a palavra como elemento fundamental para o sucesso da pregação. A propagação de textos religiosos de difícil compreensão tem muito da herança da tradição da verdade absoluta da Igreja. Entende-los de fato daria margem ao questionamento dessas verdades. No entanto é interessante como A. Vieira demonstra com exemplos consistentes que o discurso obscuro como forma de convencimento, de evitar o questionamento que poderia supostamente balançar a fé e a credibilidade no discurso religioso é ineficiente. A própria prova disso é seu sermão, que por meio de um destrinchamento pormenorizado do discurso alcança uma credibilidade ainda maior. Quando, por exemplo, faz a distinção entre “quem semeia” e “semeador” ele explicita uma escolha tão precisa das palavras de Deus que balança até os mais céticos.

    Também achei interessante na sua argumentação a brincadeira que ele faz com o uso da metáfora, sem que isso pertube a lógica do seu discurso.
    Como num trecho em que ele compara o sermão a uma árvore, em que o tronco seria a matéria (o assunto principal do sermão). Daí ele conclui que um sermão composto por vários troncos (vários assuntos esconexos) seria…madeira. Irreverente. Ele faz isso outras vezes, sem confundir – como fazem outros pregadores – o que é metáfora com o que não é e sem comprometer a coerência do texto.

  3. Grégory Says:

    Vieira aborda diversos aspectos, um dos mais interessantes, é quando ele fala do pregador tomar apenas uma matéria, que há de se conhecê-la, de se prová-la, para assim poder falar. Não foram poucos os textos lidos neste curso em que os autores não demonstravam conhecimento da matéria tratada, onde falavam de uma determinada matéria apenas pelo prestígio que isso poderia proporcionar, defendiam algo que não sabiam nem como lidar com o suposto conhecimento. Falo da maioria das matérias de revista aqui lidas. Holanda, também, observa isso. Como exemplo, pode-se falar de Benjamin Constant, que as vésperas de se iniciar o regime republicano, Constant agia de forma indiferente, todo o seu conhecimento não era utilizado na implementação do novo regime. Mas olhando o texto de Vieira como um todo, pode-se sintetizar o pensamento de Vieira analisando a importância das palavras ganharem força de matéria, de obra, aquilo que pode ser observado, ‘materializado’. As palavras e os pensamento existem, podendo ser interpretados de diversas maneiras e a partir dessa interpretação, o semear torna-se perigoso, há a possibilidade de interpretações equívocas, cheias de valores, o que deturpa o sentido inicial de um pensamento e da palavra. Assim, sintetizar a palavra, o pensamento em forma de obra, seria como dar uma garantia da veracidade do que está sendo semeado. A palavra e o pensamento só ganham valor depois que são materializados, que é quando viram obras que podem ser observadas e deixam ser palavras passíveis de interpretações mal intencionadas.

  4. Gabriella Says:

    Antônio Vieira, em seu texto, fala de um distanciamento entre a palavra -pregada- e as obras -atitudes de quem as prega. A palavra só tem poder de persuasão, segundo Vieira, se estiver acompanhada de atitudes que as confirme. A dissociação entre palavras e coisas, explicitada por Foucault quase trezentos anos depois, é considerada por Vieira a causa do fracasso dos pregadores cristãos (semeadores). A dissociação entre “coisa” e ação é percebida na própria metáfora do semeador; nela o orador não é o semeador material, é a atitude, a obra de semear. A palavra por si só não é capaz de convencer, persuadir, tocar o coração, converter, ou seja, não cumpre seu papel doutrinário; é necessária a relação da palavra com a ação. Insere-se aí o contexto inquisitório, as atitudes da Igreja contrariando suas palavras e sermões; o discurso de redenção e as atitudes de condenação. Vieira não faz muita questão de encobrir sua contrariedade à Santa Inquisição; não só pelas práticas tirânicas e violentas, mas principalmente, pela ineficiência de tais práticas dentro do ponto de vista ideológico
    Se considerarmos o conteúdo do sermão de Vieira como palavra, e sua composição como obra; percebemos perfeitamente a relação sobre a qual discursa. O discurso de Vieira é praticamente uma exemplificação de seu conteúdo; a ação que confirma as palavras. Além da manutenção da relação entre palavra e ato, o sermão segue às suas próprias propostas de argumentação concisa, clara e objetiva. Proposta de sermão que contrapõe-se à corrente utilização do latim e da linguagem pomposa, obscura e prolixa, dita culta.

  5. Lucas Says:

    Duas considerações iniciais: Primeiro, a poética por detrás do discurso. De fato, impressionam o uso do latim, os vernáculos, a musicalidade do texto ( “mais paço, mais passos”). Segundo, o racicíonio da auto culpabilização do pregador que o próprio pregador elabora. Há um quê daquilo que o professor disse em relação a Descartes, a centralidade da razão como força explicativa dos temas relativos a Deus. Afinal, o protagonista dessa história que padre Antônio Vieria conta é o pregador, é o ouvinte, ou seja, é o ser humano, não Deus.

    Buscando relacionar o sermão com Foucault: O sermão da sexagésima impressiona pelo encadeamento de máthêsis em relação a elementos, sublinhe, aparentemente, simples, que acabam empregando uma taxonomia de signos e buscando uma ordenação, seu objetivo dentro do discurso. Isso, pelo menos, até onde o padre declara que a culpa de não fazer fruto a palavra de Deus é dos pregadores . Os espinhos, as pedras, os pés dos homens; o ouvinte, o pregador e Deus, etc. Tais máthêsis, que poderiam ser X, Y e Z e W, U e O, tecem posteriormente outras operações, são metáforas que produzem outras significações, em geral, uma taxonomia, a qual o padre parece dar luz. Assumo que não estou totalmente seguro em relação a este argumento, no entanto, parece-me plausível que dentro do discurso há espécies de classificações de elementos simples que se complexificam dando sentido mais preciso à fala.

  6. Joyce Says:

    Antônio Vieira, em seu sermão, fala da palavra e como o pregador utiliza dela nas suas preleções. Usando a parábola do semeador, Vieira mostra que os apóstolos deveriam pregar a palavra do Cristo à todas as espécies, à todas as criaturas existentes, ou seja, à todas as nações, bárbaras ou não, incultas ou não. Ele cita o semeador do Evangelho como exemplo que não desanimou com as perdas e no final, teve júbilo: “nasceu, cresceu, espigou, amadureceu, colheu-se, mediu-se, achou-se que por um grão multiplicara cento”. A palavra tem de ser dita para todos, corações duros, inquietos, perturbados e bons. E daí vem a dúvida de Vieira. Se a palavra de Deus é tão poderosa, por que os frutos colhidos são tão poucos? Hoje, tem tantos pregadores e pouco resultado e antigamente tinha tantos reis convertidos. Mais tarde ele volta a essa mesma questão e explica que hoje a palavra de Deus entra tão pouco no coração das pessoas porque quem a diz não tem obras e, antes, tinha. Não é só o que a pessoa diz, mas o que ela representa, as atitudes dela conta muito. Ele repete as idéias e as palavras. Dá a impressão de que estamos dentro do pensamento dele.
    O interessante é que ele fala que prega não só para o público (para que eles aprendam a ouvir), mas para ele (para que ele aprenda a pregar). Antigamente os padres faziam a missa toda em latim. Ninguém entendia nada do que estava se passando, e os padres não faziam muita questão de que fossem entendidos. Hoje, muitas pessoas ao fazerem uma palestra usam palavras difíceis, que ninguém entende, talvez nem eles entendam. Aprender a pregar é essencial para que as pessoas aprendam a ouvir e entendam o que foi dito. Durante todo o sermão, Vieira utiliza a mesma passagem, repete as palavras para explicar suas idéias. Ele não fala só do semeador – quem diz a palavra. Fala também do ouvinte. Quem escuta uma preleção e não é aberto a novas idéias são maus ouvintes. Ao mesmo tempo, ele diz que se a palavra de Deus quebra todas as barreiras e semeia em todos os cantos, a culpa por hoje não estar sendo semeada no coração das pessoas não é do ouvinte e sim do pregador.
    Para Vieira a culpa do pregador pode estar em cinco circunstâncias: a pessoa que é, a ciência que tem, a matéria que trata, o estilo que segue e a voz com que fala. E como ele está certo! É muito comum nas casas religiosas, por exemplo, uma pessoa totalmente egoísta falar em caridade. É a palavra dita, mas sem obras, como cita Vieira no sermão. Outros parecem que estão em um grande teatro. Mudam a voz e o jeito de falar para parecerem mais inteligentes. Não tem coisa que irrite mais a platéia do que isso. E acaba que poucos prestam atenção no que está sendo dito. Vieira fala também das palavras difíceis. Muitos acham que estão fazendo uma palestra culta, mas na verdade ela é “escura”. Se fosse dita com palavras simples todos entenderiam: “E possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz?!”.
    Além disso, Vieira fala da interpretação que as pessoas dão às escrituras. “Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus”. Cada um dá o sentido que quer às escrituras para defender seu ponto de vista: “Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido”. Quantos usam a bíblia para atacar a crença dos outros!

  7. Marcelo Says:

    Como posicionar o sermão da sexagésima? Seria Padre António Vieira reacionário ou revolucionário? Denuncia, em um dado momento, a separação da palavra e da coisa, e advoga em favor da reconexão dos sermões e a verdadeira palavra de Deus. No entanto, reflete pragmaticamente a respeito da necessidade de inteligibilidade da palavra divina, sobretudo no processo de catequisação dos novos povos, e admite que uma adaptação do discurso é interessante para os objetivos propostos. Dessa maneira, não estaríamos rompendo com a épistème medieval, reorganizando os significantes, infringindo a ordenação divina entre palavra e coisa? Seria o projeto de Padre António Vieira a adaptação de um discurso antigo para uma realidade nova? Se sim, ele me parece necessário, mas como mostra a biografia do autor, nem sempre visto com bons olhos.

  8. Kaio Says:

    Eu já havia lido este texto dois anos atrás, em uma aula de Literatura. Nesta releitura, lembrei-me da ‘síntese’ que meu professor fez em relação ao que Vieira queria dizer (e, talvez, com certa ironia em relação ao desinteresse e zombaria de certos alunos durante a aula): “A culpa é do pregador.”
    Pois bem, o padre é enfático em sua abordagem: “Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores com hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? (…) Que é isto?” (pág. 4). Há uma preocupação simultânea com questões teológicas (afinal, “a palavra [de Deus] não é menos poderosa do que dantes era.”; “Por parte de Deus, não falta nem pode faltar”) e práticas, afinal fica evidente que a metodologia aplicada pelos pregadores está sendo ineficaz na tarefa de ‘semear’, de converter indígenas (e, talvez, vários dos próprios colonos, também) à fé cristã.
    Por meio de um raciocínio quase socrático de tão dedutivo, e várias metáforas ‘agrícolas’, ele chega à conclusão de que os problemas constatado na pregação não recaem nem a Deus nem ao ouvinte, mas sim naquele que tem o dom da palavra, o orador.
    Algumas falhas são constatadas, como a contradição entre aquilo que se diz e aquilo que se faz; a questão estilística (talvez a mais relacionada com a temática da disciplina, pois VIeira discorre sobre a necessidade de adequar o vocabulário à platéia, sem cair no pedantismo de fazer citações por mero ‘cultismo’, um problema comum aos literatos e pregadores da época), o que demonstra seu posicionamento ligado ao ‘conceptismo’ (ou seja, a inteligibilidade da mensagem seria mais importante que a forma); a importância de despertar o entendimento, o esclarecimento no interlocutor; e, é claro, o fato de que os oradores “pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus”, necessitando de maior poder de persuasão, convicção e empenho em suas missas. As digressões sobre o Diabo e a Escritura e sobre o falso testemunho são bem elucidativas nesse aspecto.

  9. schwesteiger Says:

    Eu já havia lido este texto dois anos atrás, em uma aula de Literatura. Nesta releitura, lembrei-me da ’síntese’ que meu professor fez em relação ao que Vieira queria dizer (e, talvez, com certa ironia em relação ao desinteresse e zombaria de certos alunos durante a aula): “A culpa é do pregador.”
    Pois bem, o padre é enfático em sua abordagem: “Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores com hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? (…) Que é isto?” (pág. 4). Há uma preocupação simultânea com questões teológicas (afinal, “a palavra [de Deus] não é menos poderosa do que dantes era.”; “Por parte de Deus, não falta nem pode faltar”) e práticas, afinal fica evidente que a metodologia aplicada pelos pregadores está sendo ineficaz na tarefa de ’semear’, de converter indígenas (e, talvez, vários dos próprios colonos, também) à fé cristã.
    Por meio de um raciocínio quase socrático de tão dedutivo, e várias metáforas ‘agrícolas’, ele chega à conclusão de que os problemas constatado na pregação não recaem nem a Deus nem ao ouvinte, mas sim naquele que tem o dom da palavra, o orador.
    Algumas falhas são constatadas, como a contradição entre aquilo que se diz e aquilo que se faz; a questão estilística (talvez a mais relacionada com a temática da disciplina, pois VIeira discorre sobre a necessidade de adequar o vocabulário à platéia, sem cair no pedantismo de fazer citações por mero ‘cultismo’, um problema comum aos literatos e pregadores da época), o que demonstra seu posicionamento ligado ao ‘conceptismo’ (ou seja, a inteligibilidade da mensagem seria mais importante que a forma); a importância de despertar o entendimento, o esclarecimento no interlocutor; e, é claro, o fato de que os oradores “pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus”, necessitando de maior poder de persuasão, convicção e empenho em suas missas. As digressões sobre o Diabo e a Escritura e sobre o falso testemunho são bem elucidativas nesse aspecto.

  10. schwesteiger Says:

    Eu já havia lido este texto dois anos atrás, em uma aula de Literatura. Nesta releitura, lembrei-me da ’síntese’ que meu professor fez em relação ao que Vieira queria dizer (e, talvez, com certa ironia em relação ao desinteresse e zombaria de certos alunos durante a aula): “A culpa é do pregador.”
    bem, o padre é enfático em sua abordagem: “Nunca na Igreja de Deus houve tantas pregações, nem tantos pregadores com hoje. Pois se tanto se semeia a palavra de Deus, como é tão pouco o fruto? (…) Que é isto?” (pág. 4). Há uma preocupação simultânea com questões teológicas (afinal, “a palavra [de Deus] não é menos poderosa do que dantes era.”; “Por parte de Deus, não falta nem pode faltar”) e práticas, afinal fica evidente que a metodologia aplicada pelos pregadores está sendo ineficaz na tarefa de ’semear’, de converter indígenas (e, talvez, vários dos próprios colonos, também) à fé cristã.
    Por meio de um raciocínio quase socrático de tão dedutivo, e várias metáforas ‘agrícolas’, ele chega à conclusão de que os problemas constatado na pregação não recaem nem a Deus nem ao ouvinte, mas sim naquele que tem o dom da palavra, o orador.
    Algumas falhas são constatadas, como a contradição entre aquilo que se diz e aquilo que se faz; a questão estilística (talvez a mais relacionada com a temática da disciplina, pois VIeira discorre sobre a necessidade de adequar o vocabulário à platéia, sem cair no pedantismo de fazer citações por mero ‘cultismo’, um problema comum aos literatos e pregadores da época), o que demonstra seu posicionamento ligado ao ‘conceptismo’ (ou seja, a inteligibilidade da mensagem seria mais importante que a forma); a importância de despertar o entendimento, o esclarecimento no interlocutor; e, é claro, o fato de que os oradores “pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus”, necessitando de maior poder de persuasão, convicção e empenho em suas missas. As digressões sobre o Diabo e a Escritura e sobre o falso testemunho são bem elucidativas nesse aspecto.

  11. ana ruth Says:

    porque o padre Antônio Vieira procurava adequar os textos biblicos as realidades de que tratava???

  12. ana ruth Says:

    porque o padre Antônio Vieira procurava adequar os textos bilclicos a realidades de que tratava?

  13. joseantoniofrancisco Says:

    O Sermão da Sexagésima é uma lição retórica para arte literária. A insistência de Vieira em catequizar pessoas ainda não convertidas no catolicismo se fará presente nesse Sermão que acabou se tornando um tratado da retórica. Como já mencionado, o padre não apenas ensinou como também construiu seu sermão seguindo todas as etapas que considerava fundamentais para um bom discurso retórico (definir a matéria, dividi-la, prová-la pela razão, apresentar argumentos e refutar os que fossem contrários, concluir).
    Todas as etapas foram elaboradas com única finalidade de persuadir os ouvintes. Ainda seguindo Aristóteles, persuadir é o fim último da pregação. Isso só é possível se com ele se conjugam as intenções de instruir e deleitar. No entanto, pelo Sermão, Vieira ensina aos demais sermonistas a arte de pregar, isto é, como elaborar um sermão. Para ele os pregadores sempre deviam utilizar de recursos argumentativos que levassem os ouvintes ao agradável, mantendo-os atentos durante toda a pregação. E, se esses elementos fossem bem articulados, o sermonista atingiria o objetivo de persuadir o seu ouvinte.
    Pregado na Capela Real, em Lisboa, no ano de 1655, constitui-se numa teorização sobre a arte de pregar e numa crítica aos exageros da oratória sacra cultista ou gongórica.
    Vieira ataca especialmente alguns padres dominicanos, cujos sermões eram extremamente rebuscados e vazios de conteúdo, vazios da “palavra de Deus”.
    É, a rigor, um sermão sobre o Sermão, configurando um discurso metalingüístico.
    Aqui o início (exórdio) do Sermão:

    SEMEN EST VERBUM DEI
    Lucas , VIII
    “E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador!
    Ouçamos o Evangelho, e ouçamo-lo todo que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe.
    ECCE EXIIT QUI SEMINAT, SEMINARE. Diz Cristo, que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina.(…) Não só faz menção do semear, amas faz também caso de sair: EXIIT, porque no dia da messe hão de nos medir a semeadura, e hão de nos contar os passos.(…) Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear, há outros que semeiam sem sair.
    Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia, à China, ao Japão: os que semeiam sem sair são os que contentam com pregar na pátria.(…) Ah dia do juízo. Ah! pregadores! Os de cá, achar-vos-eis com mais paço; os de lá com mais passos; EXIIT SEMINARE.”
    Depois de considerar sobre as condições pelas quais a palavra de Deus pode não frutificar, passa , na Parte IV, a definir as qualidades exigíveis de um, pregador:
    “Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá essa culpa? No pregador podem -se considerar cinco circunstâncias: a pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz.”
    Na parte V , inicia o ataque aos exageros gongóricos ou cultistas indagando:
    “Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? Boa razão é também essa. O estilo há de ser muito fácil e muito natural.”
    E continua a atacar a esterilidade do rebuscamento gongórico ou cultista:
    “Este desventurado estilo que se usa hoje, os que querem honrar chamam-lhe culto, os que condenam chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita honra.O estilo culto não é escuro, mas negro braçal e muito cerrado.(…) os pregadores cultistas ficam a motivar desvelos, a acreditar empenhos, e requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras e outras mil indignidades destas(…)”
    Condenando o exagero no emprego de antíteses, diz:
    “Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro: se de uma parte está dia, outra há de estar negro; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu.
    Basta que não havemos de ver um sermão de duas palavras em paz? todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário?(…)Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação, muito distinto e muito claro.”
    Vale, observar que freqüentemente Vieira incorria nos procedimentos que ele próprio condenava.
    Defendendo o primado do argumento, das idéias, do conceptismo, , diz o pregador:
    “Há que tomar o pregador uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura,há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias que hão de seguir,a com os inconvenientes que se devem evitar; há de responder às dúvidas, há de satisfazer as dificuldades, há de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários, e depois disso há de persuadir, há de acabar.”
    ResumodoLivro.com

  14. ANTONIO CARLOS Says:

    PADRE VIEIRA FOI UM DOS MELHORES ORADORES DA HISTÓRIA DO BRASIL E DA LITERATURA. HOJE NÃO SE ECONTRA NINGUÉM COM CONHECIMENTO LÓGICO CAPAZ DE CONVENCER COM ARGUMENTOS LÓGICOS SEGUNDO AS LEIS QUE REGEM A PALAVRA E MUITO MENOS QUANDO SE TRATADO CONVENCIMENTO SOBRE AS REALIDADES ETERNAS.

  15. ELIAS PEREIRA JUNIOR Says:

    HOJE SE PERCEBE QUE A PREGAÇÃO DO PREGADOR SE QUER TEM FINALIDADE E NA VERDADE É TOTALMENTE ANÔNIMA,SEM CABEÇA E SEM PÉS, SEM COMPROMISSO COM A VERDADE, SEM CIÊNCIA, SEM LEIS PARA REGER AS ESTRUTURAS DA SEMÂNTICA. NÃO TEM OBJETIVO NEM LÓGICA POIS SÓ EXISTE INTERESSE DE SATISFAÇÃO PESSOAL. DEUS É UMA IDÉIA VAGA USADA PARA O PRÓPRIA INTERESSE.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: