Aula 13 – Cândido e Machado

Para quinta-feira, leremos dois autores cuja justaposição a Sarmiento, espero, ajudará a demonstrar as limitações do mesmo.

O primeiro é Antônio Cândido, cujo “Literatura e subdesenvolvimento” pode ser encontrado (em .pdf) aqui. Com 14 páginas, é um texto clássico, mas também um texto em relação ao qual tenho ressalvas. Como já disse sobre Schwartz, a escola marxiana tem – apesar de suas muitas contribuições ao pensamento latino-americano – a tendência de abordar a literatura quase que exclusivamente dentro de uma perspectiva historicista. Ainda que seja uma abordagem rica, também acaba tornando-se uma espécie de Scilla e Caribdes intelectual na qual toda obra ou denuncia o subdesenvolvimento ou o manifesta como sintoma.

Já o segundo autor é Machado de Assis. Reuni cinco crônicas dele sobre a Guerra de Canudos. São todas bastante curtas e podem ser baixadas (em .doc) aqui. O arquivo já foi atualizado – não consegui encontrar versões completas online de duas das crônicas e acabei tendo que digitá-las pessoalmente.

São 10 páginas de leitura. Sugiro que vocês leiam todas as crônicas. Caso não dê, apenas três serão material para a consulta: as de 22/07/1894, de 06/12/1896 e de 31/01/1897. Ou seja, com as 14 de Antônio Cândido, teremos 20 páginas para quinta-feira.

Durante a leitura, seria bom sempre justapor Cândido e Machado a Sarmiento. Como eles podem ser usados para entender e criticar o projeto do argentino? No primeiro caso, a resposta deve ser bastante evidente – pois o próprio formato predicativo do ensaio permite a aplicação direta da crítica de Cândido ao texto do Facundo.

No caso de Machado de Assis, será preciso estabelecer algumas equivalências. Sarmiento e Machado ambos falam de personagens históricos que são mais do que meros personagens. São também alegorias que encarnam alteridades culturais vistas com desconfiança pelo leitor urbano e letrado de cada autor: o gaúcho, no caso de Sarmiento; e o caboclo, no caso de Machado. As perguntas, então, tornam-se: como cada autor representa esse “outro”? Como representa a sua capacidade de entender esse outro? Como constrói (ou não) a autoridade de seu próprio discurso sobre esse “outro”?

9 Respostas to “Aula 13 – Cândido e Machado”

  1. Lucas Says:

    1) Machado de Assis está falando de um tempo em que Cândido identificou como “mistura de pragmatismo e profetismo”, noções que antecedem a idéia “da pátria da liberdade”, essa anterior a separação política das nações latino-americanas. No entanto, Machado é contemporâneo da idelogia do subdesenvolvimento. Dentro dessa discussão temporal proposta por Cândido, Antônio Conselheiro é uma personificação e Canudos expressão (embora desviantes) contemporâneos desse momento transitório no qual o único milenarismo que restará será a confiança no progresso advindo da independência.

    2) Selecionei três trechos significativos:

    Diz Cândido: “Ao lamentar a ignorância do povo e desejar que ela desaparecesse, a fim de que a pátria subisse automaticamente aos seus altos destinos, eles (os escritores) se excluíam do contexto e se consideravam grupo à parte, realmente ‘flutuantes’ (…) “e como os seus

    valores radicavam na Europa, para lá se projetavam, tomando-a inconscientemente como ponto de referência e escala de valores; e considerando-se equivalentes ao que havia lá de melhor.”

    Diz Machado: “O romantismo é a pirataria, é o banditismo, é a aventura do salteador que estripa um homem e morre por uma dama.” :

    “OS DIREITOS da imaginação e da poesia hão de sempre achar inimiga uma sociedade industrial e burguesa. Em nome deles protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente de Antônio Conselheiro.”

    Percebo aqui, na relação entre esses três trechos, uma crítica (ou seria sugestão?) de Machado aos escritores brasileiros em relação a incorporação (que Cândido caracteriza como imitativa) do romantismo europeu a realidade brasileira.
    É como se Machado dissesse: – Tem algo romântico e tipicamente nosso (por mais bárbaro que seja) acontecendo, logo ali, em Canudos! (Claro que Brasil e romantismo europeu não têm nada haver, mas escrevam!)

    Enfim, o que quero dizer é que percebo nesses contos de Machado uma ironia a Antônio Conselheiro e, ao mesmo tempo, a literatura brasileira pelas pretensões de seus projetos.

    3) Para finalizar, não posso deixar de evidenciar o exotismo (no sentido atribuido por Cândido) com que Machado trata Canudos, tratamento próprio desta ambivalência que o paradigma do subdesenvolvimento esboçado por Cândido coloca, do qual Machado não foge.
    Este trecho clareia o que estou colocando:

    “Atraso que, entretanto, no outro lado da medalha, propõe o que há de

    mais peculiar na realidade local, insinuando um regionalismo que, ao parecer afirmação da
    identidade nacional, pode ser na verdade um modo insuspeitado de oferecer à sensibilidade
    européia o exotismo que ela desejava, como desfastio; e que se torna desta maneira forma aguda de dependência na independência”

  2. Anônimo Says:

    Cândido fala do azar que tem a América Latina na sua história com a literatura, sendo colonizada por países em que se lia pouco na época da colonização e que acabou por seguir os passos, e que sem chegar a se tornar letrado já foi sugada pela cultura de massa. Que desde sempre teve sua produção literária comprometida pela falta de quem a lesse por aqui, assim surgiu esse paradoxo onde os poucos escritores não tendo leitores por aqui muitas vezes se tornavam um apêndice de uma escrita européia que já havia sido ultrapassada. Fala também de como por conta desses fatores surgiram ao longo do tempo autores ridículos só por se apropriarem de uma escrita européia foram colocados junto aos que tem uma obra consistente.
    No caso de Machado de Assis, infelizmente e sendo muito sincero não entendi muito bem o que ele quis dizer. O achei muito parecido com Diogo Mainardi (se ele fosse engraçado) falando do Lula.

  3. Pedro Vinícius Says:

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  4. 09/49051 Says:

    Para Sarmiento o progresso moral e intelectual, assim como o desenvolvimento pleno da cultura só se dá em um ambiente urbano, em que estão presentes a industrialização, os impulsos da civilização e, principalmente o acesso à instrução e à educação – condições indispensáveis para a formação de um povo culto e civilizado -. Essa idéia se assemelha à crença ilusionista da ilustração, que acredita que a alfabetização traz imediatamente consigo as idéias de progresso e humanidade. No entanto Antônio Cândido quebra essa idéia central do argumento de Sarmiento ao argumentar que não há garantias de cultivo da leitura e do processo de aperfeiçoamento intelectual por meio apenas da alfabetização. Primeiro, quem garante que essa alfabetização não estará restrita a um pequeno grupo da sociedade urbana, como já é observado? Segundo, não há garantias de que esse povo alfabetizado vá recorrer à cultura letrada apenas por estar alfabetizado, sendo mais provável que se deixe seduzir pela cultura de massa, em que não é incentivada uma reflexão crítica dos elementos simbólicos do mundo, suprimindo a possibilidade de emancipação intelectual necessária para o progresso moral e cultural.

    Quanto aos povos rurais, distantes da cultura letrada e da civilização – gaúchos e caboclos – há um consenso entre Machado de Assis e Sarmiento: não há um desenvolvimento intelectual notável entre esses povos. Para Sarmiento, o intelectual para esses povos não é necessário nem valorizado, em detrimento de uma exagerada exaltação do físico, que é uma condição necessária para o tipo de vida que se tem nos campos: é preciso lutar o tempo todo contra a resistência da natureza e dos animais, além de enfrentar o perigo representado pela violência inimiga, já que não há justiça civil, policiamento. Já Machado de Assis justifica, de certa forma, o poder alienante de Antônio Conselheiro sobre esses povos como conseqüência da ausência de uma orientação letrada. É como se os caboclos não tivessem a capacidade letrada para iluminar suas idéias e desejos e por isso se deixassem enganar facilmente por qualquer líder, ainda que ele também não tivesse nenhum merecimento para ser seguido, como A. Conselheiro.

  5. Murilo Says:

    Para existir a história de um povo, é necessário, antes, que este tenha construído sua história com o tempo. Parece óbvio? Concorda? Pois você está errado. As mais famosas civilizações do mundo, como a grega e a egípcia, a fim darem densidade à sua nação e construir dentro dela elos de patriotismo e confraternização, criavam histórias lendárias (a importância do mito) com alguns acontecimentos míticos. Na grécia, o mito dos irmãos Rômulo e Remo foi criado para dar valores extraordinários ao surgimento da civilização grega e, assim, expor fatos que tendem a unir o povo o qual, supostamente, possui uma origem comum. E assim acontece com a maioria dos povos.
    A América Latina não poderia ser diferente. O único problema foi o período dessas criações míticas, no qual os meios de comunicação já haviam se desenvolvido. Assim, tais histórias, desde o início, ganharam certo caráter literário e não histórico. O Novo Mundo possui pouco mais de 500 anos para a história européia e esse pequeno intervalo de tempo, marcado pela dominação cultural e natural, não permitiu o desenvolvimento de uma história mítica que uni-se os povos latino-americanos como detentores da mesma origem. Por isso é que existe essa nossa problemática do “quem somos?”. Somos frutos de uma imposição cultural? Somos uma mistura de culturas e por isso não possuímos uma história própria?
    A partir desse momento, nossa elite letrada inicia um processo de europeização dos nossos hábitos e começam a tentar imitar a vida do “Velho Mundo”, a fim de convercer a massa “cucaracha” e o resto do mundo de que somos uma extensão da Europa; uma Europa tropical.
    Outro grupo de autores, ao contrário, como José de Alencar e alguns modernistas como Oswald de Andradre, començam a mitificar o choque de culturas e a sacralizar essa “antropofagia cultural”: somos um OUTRO povo.
    Os textos de Machado de Assis e de Antônio Cândido explicitam essa ação “romântica” de alguns de nossos letrados de sacralizar acontecimentos, como a Guerra de Canudos, para tentar definir as características básicas do típico brasileiro, com a finalidade de tentar nos unir e de nos mostrar como detentores de uma história independente.
    A América Latina, portanto, foi fadada a não possuir uma identidade mítica e nem real, já que sempre tentamos nos igualar aos “desenvolvidos”. Somos um povo “Moacyr”, um estranho no ninho, filhos da dor, como já romantizou José de Alencar.

  6. Joyce Says:

    Cândido afirma que a pátria e a natureza conduziam a uma literatura que compensava o atraso material. O exotismo como razão de otimismo social (o que Mário Vieira de Mello teria chamado de “país novo”). Por outro lado, esse pensamento levava a um paradoxo: “Na América tudo é grande, só o homem é pequeno”. O ponto de vista muda, segundo Cândido, quando a consciência do subdesenvolvimento evidencia a realidade dos solos pobres, miséria e falta de cultura (o pessimismo do presente que Vieira de Mello chama de “país subdesenvolvido”). A exaltação à paisagem dos românticos desaparece e dá lugar à realidade. No texto de Sarmiento, a visão do local é parecida com o segundo pensamento: a geografia limitada e a falta de cultura.

    Cândido interpreta a questão do analfabetismo como fato básico na existência da literatura. “Com efeito, ligam-se ao analfabetismo as manifestações de debilidade cultural: falta de meios de comunicação e difusão, dispersão e fraqueza dos públicos disponíveis para a literatura, devido ao pequeno número de leitores reais (muito menor que o número já reduzido de alfabetizados); impossibilidade de especialização dos escritores em suas tarefas literárias, geralmente realizadas como tarefas marginais ou mesmo amadorísticas; falta de resistência ou discriminação em face de influências e pressões externas”.

    Um parêntesis:

    – “A mulher provavelmente não sabe ler, ouviu falar da seita dos Canudos, com muito pormenor misterioso, muita auréola, muita lenda, disseram- lhe que algum jornal dera o retrato do Messias do sertão, e foi comprá-lo, ignorando que nas ruas só se vendem as folhas do dia. Não sabe o nome do Messias; é “esse homem que briga lá fora”. A celebridade, caro e tapado leitor, é isto mesmo. O nome de Antônio Conselheiro acabará por entrar na memória desta mulher anônima, e não sairá mais”. Esse trecho de Machado de Assis pode ser relacionado com o trecho do texto de Cândido que fala da cultura massificada: “Na maioria dos nossos países há grandes massas ainda fora do alcance
    da literatura erudita, mergulhando numa etapa folclórica de comunicação oral. A alfabetização não aumenta proporcionalmente o número de leitores da literatura, mas atira os alfabetizados, junto com os analfabetos, diretamente da fase folclórica para essa espécie de folclore urbano que é a cultura massificada”.

    É interessante quando Cândido coloca que um dos problemas mais graves dos países subdesenvolvidos é se deixar levar pela cultura massificada dos desenvolvidos. Através dos valores deles, atuam nos países subdesenvolvidos para impor seus conceitos de acordo com os interesses políticos desejados. Acredito que esse trecho explica a visão de Sarmiento e de tantos outros escritores latino-americanos. Sarmiento quer exportar europeus e acabar com a cultura latino-americana, coloca a Europa como valor cultural.

    Machado de Assis critica a visão do Antônio Conselheiro personificada por quem contava sua história. Era tido como um Messias e quem não sabia ler acreditava nas histórias contadas de boca em boca e passava adiante como verdade absoluta. Machado critica o caboclo e Sarmiento critica o gaúcho. Criticam a personificação do personagem regional que transformam em herói. Os literários querem resgatar a cultura regional,mas transformam o homem simples em algo que não existe. Acredito que a crítica dos dois seja em cima disso. De valores imaginários e irreais.

  7. Grégory Says:

    Sobre Candido, pode-se dizer que o autor possui opiniões que se assimilam com valores bem aceitos no pensamento político-social. O autor menciona que Portugal, Espanha (metrópoles do período colonial) tiveram e tem restrições à literatura. Nesse sentido, o autor não deixa de vincular as dificuldades da literatura presente, nos países subdesenvolvidos da América, a aspectos inerentes à forma de colonização e aos países colonizadores no continente. O autor reconhece a importância do regionalismo como uma etapa necessária, mas não consegue desvincular o regionalismo ao exotismo que ele e os demais letrados sempre interpretam. Por outro lado, em se tratando de regionalismo, Machado de Assis entende a figura de Antônio Conselheiro e seus seguidores, como um grupo que simboliza a não adequação da população aos valores civis e políticos incorporados no Brasil, a organização desse grupo é algo anterior a organização política e civil importada. Entender o regionalismo seria entendermos a organização da população que constitui a grande massa iletrada (em referência a época de Machado) sem conhecimento de valores burgueses. A utilidade do regionalismo seria a possibilidade de entendermos a população e constituir instituições (como eleições, direitos civis e políticos), se necessário fosse, de acordo com as particulariedades do povo. E tendo-se essa necessidade de se constituir valores burgueses, que pelo menos se desenvolvesse um espírito de valores nas comunidades iletradas
    antes de impor sistemas importados a uma população não preparada ou indiferente a isso. A partir de Machado, percebe-se que Canudos foi apenas um movimento que vivia fora dos valores da civilização burguesa das capitais e que, assim, incomodava a elite e foi destruída.

  8. Kaio Says:

    Machado não tem papas na língua, e diz com todas as letras aquilo que a hipocrisia de outros setores letrados os impediria de dizer; sobre Conselheiro, afirma que “certamente, não é digno de imitação; chego a achá-lo detestável; mas que é alguém, não há dúvida.” De quebra, faz troça da pecha de monarquista e revolucionário ambicioso atribuída ao líder da Canudos: “É muita cousa para tal homem; profeta de Deus, enviado de Jesus e cabo político, são muitos papéis juntos”. Sua especulação sobre como seria a chegada dele ao poder é bem interessante – e, é claro, bem humorada.
    O escritor, embora use e abuse da ironia e do sarcasmo ao tratar de Antônio Conselheiro e seus seguidores, não entrou no coro dos que queriam exterminar os ‘fanáticos’: “Não trato, porém, de conselheiristas ou não-conselheiristas; trato do conselheirismo, e por causa dele é que protesto e torno a protestar contra a perseguição que se está fazendo à seita.”
    Logo, Machado de Assis não incorre no mesmo problema de Sarmiento, que refutava e execrava o ‘pitoresco plebeu’ (este foi o melhor termo em que pensei para abrigar simulteamente o gaúcho e o sertanejo) sem sequer se dar ao trabalho de encontrar algum valor ou sintoma expressos por tal segmento social. Por mais que sua justificativa pautada no progresso econômico e cultural e no cânone europeu sejam plausíveis, ele está aquém do autor de “Brás Cubas” não só em capacidade argumentativa e estilística, como também na capacidade de ver alguma relevância em movimentos messiânicos, na fé, na ‘boa selvageria’ e na espontaneidade típicas tanto do nordestino quanto do homem dos Pampas.

    O texto de Cândido, como era de se esperar de uma análise marxista, trabalha com muitos jargões, dialéticas forçadas e generalizações. Às vezes, parece que para ele (e muitos de outros pensadores de mesmo método e ideologia) só há duas alternativas possíveis: aceitar o subdesenvolvimento e contemplar a vida da maneira mais alienada e eufórica possível, ou ter ‘consciência’ (de classe?) e desmascarar o imperialismo cultural, o disfarce dos problemas e carestias socioeconômicas e estar sempre em alerta às manipulações e massificações.
    A crítica literária (ou mesmo a compreensão histórica) pautada pelo marxismo tem um lado pedagógico, como se quisesse ensinar a sociedade a pensar da maneira ‘certa’ – e, ao contrário dos liberais, sequer põe o livre-arbítrio e as escolhas de cada um em questão, afinal isso é mero instrumento das classes dominantes para perpetuar a dominação. Nesse sentido, ele não está tão distante do assimilacionismo de feições conservadoras de Sarmiento, que também soa autoritário ao querer impor seu projeto cultural a todo custo, doa a quem doer.
    Cândido, em certos momentos, acaba se esquecendo que o que torna subversivas e ousadas certas obras é justamente o fato de não ser meticulosamente planejada e intencionada, a ponto de gerar artificialidade. Querer politizar e engajar excessivamente a literatura, a ponto de minimizar escolas e autores mais ‘apolíticos’, não é exatamente a postura mais adequada para, digamos, valorizar o produto nacional e salvar a região, mesmo com intenções tão benévolas como o autor julga ter.

  9. ivette Says:

    Achei os textos do escritor Machado de Assis um pouco difícieis, complicados, com citações em francês, com palavras desconhecidas que pediam dicionário. Também ele comenta muito sobre sua época, sobre os problemas e eu me perdi um pouco e tive de ler mais de uma vez. Comento então os textos.

    1-) O tema do texto “Canção de Piratas”, publicado na Gazeta de Notícias em 22/07/1894, cujo nome parece sair de uma obra de Vitor Hugo porque cita um poema em Francês, é sobre profetas e fanáticos que andariam naquela época pela Bahia assaltando com sua gente, levando mulheres retiradas de suas famílias “comendo o que arrebatam, acampando em vez de morar, levando moças chorosas e belas…”
    Mas o curioso é que o escritor, não sei se ironicamente, defende de alguma forma os movimentos que aquela gente (que compara aos piratas) fazia por ali. ” O romantismo é uma pirataria, é o banditismo, é a aventura do salteador que estripa um homem e morre por uma dama.”
    Depois o autor defende aquela vida errante porque eram “…homens fartos dessa vida social e pacata, os mesmos dias, as mesmas caras, os mesmos acontecimentos…”
    E repete: “Os partidários de Conselheiro lembraram-se dos piratas românticos, sacudiram as sandálias à ports da civilização e saíram à vida livre.”
    “Do mesmo modo, ó poetas, devemos compor versos extraordinários e rimas inauditas”.
    E termina esse texto convocando os poetas a serem mais ousados e imitar os dois mil homens de Conselheiro.

    2-) Ainda Machado de Assis, em outro texto escrito em 1896, aborda tema parecido, defendendo, dessa vez, Benta Hora, emissário de Jesus Cristo na terra. Ele critica a prisão do profeta …”…a liberdade de profetar não é igual à de escrever, imprimir, orar, gravar?”
    “Lá porque o profeta é pequeno e obscuro, não é razão para recolhê-lo à enxovia.” (enxovia é prisão escura, masmorra, nos dicionários).
    E o autor defende que deixem o profeta Bento Hora em liberdade enquanto ele não “passar do espiritual ao temporal…”

    3-)Machado de Asis , em outra crônica de 1896, compara Antonio Conselheiro, o profeta de Canudos (“Canudos é, como sabeis, o lugar onde ele e seu exercito estão agora entrincheirados”) à doença chamada Beribéri, que aos poucos, porque não lhe deram importância, foi se alastrando e chegou ao Rio de Janeiro.
    “Hoje é doença nacional. Quando deram por ela tinha abrangido tudo…”
    “O mesmo sucedeu com Antonio Conselheiro. Este chefe de bando há muiuto tempo anda pelo sewrtão da bahia espalhando uma boa nova sua…”!
    Então o autor critica o profeta porque ele quer destruir as instituições republicanas: ” Dizem estes que Antonio Conselheiro bate-se para destruir as instituições republicanas.” “Pode ser que ele, desde que se viu com tres miul homens armados e subordinados, tenha sentido brotar no espírito profético o espírito político…”
    Então Machado de Assis envia um recado a Antonio Conselheiro que fique onde está com sua gente… Ele diz que, se ele fosse um profeta “estaria no serttão com seus tres mil sequazes e uma seita fundada. E faria o contrário daquele fundador. Não viria aos centros povoiados, onde a corrupção dos homens torna difícil qualquer organização sólida…”
    Ao mesmo tempo que critica o profeta ele critica a sociedade… e diz que se o profeta soubesse o que era o centro do Rio ficaria onde estava. E aproveita para sugerir mudanças na cidade, no saneamento e em “outras rudes necessidades do século”.

    4- Numa outra crônica, essa de 1897, ele volta a falar de Antonio Conselheiro e diz que, em nome do Direito da imaginação e da poesia protestava contra a perseguição que faziam ao profeta. Diz na cronica que sabem muito pouco dele e contam muitas histórias fantasiosas. “Entre as anedotas que se contam de Antonio Conselheiro figura a de se dar ele por uma reencarnação de cristo e haver eleito doze confidentes principais, numero igual ao número dos apóstolos.”
    O autor se pergunta sobre o que é que prende esses homens ao profeta? Como é que pessoas de bem vão levar dinheiro para ele?
    “Enfim, deve exercer uma fascinação grande para incutir a sua dotrina em uns e a esperança de riqueza em outros.”
    E Machado de Assis faz sua predição: “A perseguição faz-nos perder isto; acabará por derribar o apóstolo, destruir a seita e matar ois fanáticos. A paz tornará ao sertão e, com ela, a monotonia.”

    5- Enfim, na última crônica desse conjunto, Machado de Assis, em 14 de fevereiro de 1897, começa falando outra vez de Antonio Conselheiro e de sua fama nas pessoas mais simples que procuram sua foto nos jornais. Depois nos fala da obra de Coelho Neto, que gosta do sertaão e que devia escrever sobre Canudos. “Ora bem, quando acbar esta seita dos Canudos, talvez haja nela um livro sobre o fanatismo sertanejo e a figura do messias”.
    Depois o autor nos fala do centenário do chapéu alto. “Chapeus e cabelos são amigos velhos”. e, dissertando sobre os chapeus que um dia se chamaria canudo, “para rebaixá-lo até a cabeleira hirsuta de Antonio Conselheiro”.

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