Aula 14 – Cairú e Alencar

Para terça-feira, dia 30 de setembro, faremos uma pequena pausa para rever – ainda que brevemente – a história da imprensa brasileira no século XIX, história que culmina com Machado e à qual Machado, de certa forma, responde.

Leremos dois textos. O primeiro é um ensaio bastante curto (10 páginas) sobre José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairú. O ensaio não é dos mais abstratos. Mas oferece um apanágio da trajetória de Cairu, que é interessante por encarnar a cultura letrada brasileira do início do século XIX. O ensaio já está na xerox.

Mas quem foi José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu? Nascido de um pai português em Salvador no ano de 1756, ele foi um economista, polemista, jurista e político de grande influência na Independência e nos primeiros anos do Império. Fiel à Coroa, originalmente opôs-se à independência, publicando um jornal pró-monarquia, O Conciliador do Reino Unido, em 1821. Com a independência, passou a apoiar D. Pedro I e a criticar ferrenhamente aqueles que defendiam a adoção dos princípios republicanos franceses.

Apesar de um conservadorismo político entranhado, Cairu foi um defensor ferrenho do liberalismo econômico, tendo – inclusive – um papel crucial na redação dos decretos de abertura dos portos assinados por D. João VI em janeiro de 1808. Um leitor assíduo de Adam Smith (1723-1790), Silva Lisboa é visto por muitos como o primeiro economista brasileiro.

Como Sarmiento, Cairu foi um entusiasta da centralização administrativa. E as semelhanças com o Argentino não acabam por aí. Apesar de manter uma posição dúbia quanto à escravidão, o brasileiro foi um grande crítico do comércio negreiro. Mas não o foi por motivos morais ou mesmo pelos econômicos que levaram Smith a rechaçar a escravidão. Sua principal motivação foi étnica e cultural – evitar que a escravidão contaminasse o país com uma população negra, tornando-o um segundo Haiti. Ou, como ele próprio diz em um texto sobre o tema:

E como não virão os Europeus nisso a mais enorme violação da Ordem Cosmológica, tendo o Regedor do universo separado os Continentes Africano e Americano por quase ou mais de mil léguas? Como no horizonte político não divisarão o perigo da extinção da progênie puritana, necessário efeito de progressiva acumularão de carvões ardentes, quais depois se afoguearão na Rainha das Antilhas?

De fato, uma trajetória sempre atrelada ao poder e ao Estado levou Cairu a ser visto de forma bastante negativa por autores como Antonio Cândido, para quem foi um “palaciano na adulação”, e Sérgio Buarque de Holanda, que descreve sua prática política como sendo marcada por “genuflexões constantes diante do poder”. Não deixa de ser irônico que o letrado Lisboa, um defensor ferrenho da censura à imprensa, seja hoje o padrinho da 20ª cadeira da Academia de Letras do Brasil.

Já o segundo autor que leremos dispensa apresentações. Pois todos já sofremos bastante por conta dele. Soframos um pouco mais. Trata-se de José de Alencar. Nesse arquivo, você encontrará alguns trechos de Iracema: o prólogo, o capítulo 32, o capítulo 33 e a dedicatória.

No caso de Alencar, vale prestar atenção a alguns fatores, como:

1)      As diferenças entre a postura dele em relação ao “outro” cultural que aborda e as posturas de outros autores que já limos – como Caminha, Machado e Sarmiento;

2)      As escolhas léxicas que faz, as palavras que escolhe, e o que ele diz sobre essas escolhas;

3)      O projeto de sua escrita – o que Alencar pretende fazer com esse livro chamado Iracema.

8 Respostas to “Aula 14 – Cairú e Alencar”

  1. Lucas Says:

    1) Ao criticar Gonçalves Dias, José de Alencar diz “eles (os indígenas da obra de Dias) exprimem idéias próprias do homem civilizado, e que não é verossímil tivessem no estado da natureza.” Mais uma vez aparece aqui o tema da dissociação entre natureza e cultura, no entanto, passa-se do mau selvagem (Palacios, Sarmiento) para o bom selvagem (românticos de 1a fase), e já se percebe, por negação, o início do que é a passagem do “bom” civilizado para o “mau” civilizado (tema já presente em Machado de Assis).

    2) Já em “Carta ao Dr. Jaguaribe” em Iracema, achei interessante 1) a criticidade com que Alencar trata seu próprio projeto, questiona a validade do seu trabalho, explicita a ligação implícita entre sua motivação e o reconhecimento por parte do leitor do seu esforço e gênio em Iracema, de sua (segundo ele) autenticidade. Ele condiciona o futuro do seu projeto e trabalho ao reconhecimento da obra, o que revela, por negação, uma espécie latente de baixa auto-estima literária. Se comparamos Alencar aos demais escritores que temos lido na disciplina até o momento creio que essa questão fica mais evidente; 2) o esboço do tema da tradução, revelando a auto-consciência do escritor como mediador cultural; 3) Veja: “O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura. Ele nos dá não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do selvagem, os modos de seu pensamento, as tendências de seu espírito, e até as menores particularidades de sua vida”. Aqui, se por um lado, está presente a premissa antropológica do conhecimento da língua, ou seja, do entendimento do outro pelas categorias deste, por outro lado, está a pretensão do uso dessas categorias para construção da identidade nacional, sob uma perspectiva de enquandramento culturalmente distante daquela, como é o caso da assimilação do romantismo no Brasil, portanto, pretensão frágil.

    3) Em Cairu, nas suas teses, e nas próprias teses da “facção gaélica”, vemos Schwartz em exemplo. 3.1) Tenho uma percepção da mídia brasileira como panfletária, enquadrada no espetáculo. Conhecendo essa disputa apresentada por Lustosa, não exito em localizar essa na base, nas origens da “nossa” mídia. 3.2) O texto de Lustosa tem um desfecho pareado com a homenagem da academia brasileira de letras ao Visconde: “Cairu defendeu não só a Coroa, mas também a integridade do Brasil. Num momento particularmente delicado, ele se manifestou corajosamente contra as Cortes portuguesas”. A autora só esquece de adiconar a frase: “Cairu colabora em idéias com a aquilo que, de fato, seria a próxima colonização brasileira, de 1822 a 1831, dessa vez, no entanto, inglesa…”

  2. 09/49051 Says:

    O texto de Isabel Lustosa traz um panorama interessante sobre a história da imprensa brasileira no início do século XIX. Junto com os primeiros passos da imprensa, detectava-se uma censura que vestia a roupa de ordem social e de integridade nacional. Fato coerente com a condição de um país recém-saído da colonização e que pretendia se afirmar enquanto nação. As crônicas de Machado em relação a Canudos também dão a entender essa intenção de evitar o caos social, confiar na superestrura de poder como garantia da ordem.

    Quanto a Cairu como representante da cultura letrada brasileira do início do século XIX, duas coisas: uma, a já muito discutida em aula importação de valores e ideologias estrangeiros, que não necessariamente se adaptam à realidade brasileira – “o que é bom para a Inglaterra é bom para o Brasil” -. A segunda questão é a incoerência entre palavra e ato, já que Cairu alega defender uma Constituição adaptada às circunstâncias do país e execrar o despotismo. Mas na prática, além de defender a censura, resistia a qualquer tentativa de discutir modelos constitucionais, novas alternativas para o poder do Brasil.

  3. Kaio Says:

    Já no prólogo, e com a linguagem rebuscada que o caracteriza, Alencar é ambicioso e explícito quanto ao objetivo de sua obra: levar o leitor para uma dimensão bucólica, tranquila e encantadora. Ou, sendo deselegante, puro e simples escapismo, ainda mais vindo de um autor que, como tantos outros da elite letrada da época, dividiam-se entre a pragmática vida pública e a romântica e patriótica literatura. No próprio ‘posfácio’ o autor admite isso: “Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso buscava na literatura diversão à tristeza que me infundia o estado da pátria entorpecida pela indiferença.”
    Ainda sobre a carta, sua postura sobre o “outro” cultural parece ser uma mistura de pretensão de fidelidade ao valor do ‘produto nacional’ com idealismo elevado, algo típico de sua escola literária. De quebra, ele confessa as pretensões quase ensaísticas de “Iracema”, como se objetivasse fazer um inquérito sobre a melhor maneira de fazer prosa e poesia genuinamente brasileiras.
    Para isso, José de Alencar não dispensa nem o detalhismo na estilística, nem o recurso constante a palavras de origem indígena, para, ao mesmo tempo, não transmitir idéias clássicas pela boca do índio ou, ao contrário, cair em uma ‘protoantropologia’ (anacronismo meu) preocupada mais em esbanjar conhecimento da linguagem indígena que preocupada em utilizá-la de uma maneira pertinente.
    Quanto ao trecho selecionado, relativo aos dois capítulos finais da obra, há um tom de metáfora sobre o nascimento do Brasil, com o sacrifício do nativo e a supremacia e o legado deixados para o europeu que passou a ocupar a região. A frase final tem um quê de Heráclito, talvez por Alencar julgar indispensável encerrar a obra da maneira mais filosófica possível: “Tudo passa sobre a terra”.

    Quanto ao Visconde de Cairú, ele é um típico e quase caricato exemplar do intelectual brasileiro do tipo ‘situacionista’, ‘puxa-saco’ (ainda mais quando o assunto é Inglaterra, que lhe valeram a pecha de xenófilo) ‘gato do palácio’ – “uma raposa muito astuta” (p. 286).
    Embora defendesse doutrinas econômicas liberais e modernas (há quem brinque que, naquele início de séc. XIX, Cairú era mais ideologicamente liberal e convicto quanto às idéias de Smith do que os próprios britânicos), politicamente chegava a soar como bajulador da monarquia portuguesa e, mais tarde (e quando conveniente para ele), luso-brasileira. Além disso, era curiosamente inimigo da liberdade de imprensa, sob o argumento de defesa da ordem pública e da moral. Nesse aspecto, Hipólito aparenta ser um liberal mais ‘puro’ e crítico que ele.
    As intrigas e controvérsias em que José da Silva Lisboa se meteu não devem em nada às confusões e brigas que nossos jornalistas contemporâneos adoram se envolver (como a que um certo Reinaldo Azevedo move contra tudo e todos, inclusive contra o próprio blog da matéria que o “estudou”). Seu estilo panfletário e posições controversas (e contraditórias) sobre a relação Portugal-Brasil só aumentavam o festival de ofensas e discórdias entre ele e seus desafetos.

  4. Pedro Vinícius Says:

    José de Alencar começa o livro forçando uma intimidade com o leitor, trazendo de uma forma forçada algo que crê comum na cultura brasileira. Busca dar um tom tropical em sua obra e mostrar que somos todos filhos dessa terra, com um prólogo puxa-saco.
    O livro é escrito com uma sonoridade que busca o exotismo, de forma bastante poética. Espera instigar no leitor um sentimento de brasilidade com sua obra. Tem uma visão bastante ingênua dos índios, como se fossem crianças que precisam ser educadas, lembrando muito a carta de Pero Vaz de Caminha. Percebe-se o pouco que Alencar conhecia deles.
    Terminado o livro explica esse seu audacioso e desejado projeto de livro gênese de toda uma cultura vindoura, e como sucedeu de fazê-lo. Lá escreve: “Mas não se abandona assim um livro começado, por pior que ele seja”. Quem nos dera ele pensar diferente.

    Tudo passa sobre a terra.

  5. Murilo Says:

    Podemos perceber, no texto de Isabel Lustosa, que o contexto (falta de instrução da população e a escassez de livros) possibilitou a criação de uma elite que dominou os meios de comunicação impressos. As brigas entre autores é um sintoma típico de um sistema comunicacional que visa a difusão de idéias (comunicação funcional) e que não possui, ainda, o caráter comercial dos jornais como os do nosso dia-a-dia. Atualmente, com o surgimento de grandes empresas no ramo da informação fez com que as notícias fossem agendadas com o intuito de despertar o interesse no leitor e levá-lo à compra do produto. Assim, é raro encontrar brigas de autores em jornais. A disputa ideológica realizada entre Cairu, Barata, Lisboa, entre outros, é encontrada, dentre os autores atuais, em blogs, que permitem certa liberdade de fala.
    O José Dias da vez é encarnado por Cairu, o qual, de tanto bajular o reinado a fim de manter certos privilégios que possuía, vende sua voz ao poder vigente. Isabel Lustosa defende Cairu alegando que este mantinha-se cego perante o despotismo e absolutismo do reinado porque realmente acreditava que a monarquia era a melhor forma de governo para o Brasil.
    Hipólito zombava das bajulações de Cairu e opunha-se contra os argumentos de que o governo deveria mexer-se ante idéias oposicionistas. Ele acreditava que o crítico, o jornalista, poderia proteger o povo de políticas corruptas e elitistas.
    Interessante é perceber que a legitimidade dos argumentos desses autores baseava-se na própria autoridade individual. Hoje, nossos críticos escondem-se atrás de uma boa polêmica, um bom papel, uma boa edição e de uma escrita rebuscada.
    Numa época de príncipes e princesas, de senhores e escravos, com altas taxas de analfabetismo, a elite letrada escrevia para a própria elite e enfeitiçava o povo através do contraste erudito-tosco.
    Agora, numa época de corruptos e classe média, de grandes monopólios e de vasta miséria, com baixas taxas de analfabetismo, a elite letrada escreve para a própria elite e enfeitiça o povo através do contraste erudito-tosco.
    Enfim, mudamos apenas as bases de dominação, pois o povo, apesar de saber os códigos da escrita, ainda não sabe domar a leitura, a qual persiste em derrubá-lo antes dos 8 segundos de tolerância na arena do rodeio que é a história da humanidade.

  6. Grégory Says:

    José de Alencar descreve sua obra como uma poesia inteiramente brasileira, ela preserva aspectos da localidade nativa, podendo-se observar na composição das palavras, que seriam de cunho original. Alencar reconhece que a obra foi desviada de seu caminho. O autor diz que na tentativa de descobrir a etimologia de um vocábulo, questionou a si próprio se o leitor entenderia a profundidade do vocábulo, a imagem que seria passada seria compreendida com o justo valor. Dessa forma, o autor resolveu dar uma nova cara para a sua obra. Fugindo do abuso dos termos indígenas da não adequação da linguagem ao que se espera de um indígena. Assim, Alencar retrata a união da indía com o homem europeu de onde assim origina-se o brasileiro. Percebe-se no autor que ele escreve aquilo que o leitor quer ler. Ele mesmo diz isso. Provavelmente, a literatura foi influenciada pela época, na tentativa de buscar o brasileiro, estabelecer as características do brasileiro. Quando Martim sai do país e volta trazendo o cristianismo, que é aceito pelo índio Poti sem problemas, ilustra-se a maneira aparente de como os índios foram catequisados, aparenta-se que não teve uso da violência. Esse trecho lembra a imagem que Caminha tem dos índios quando ocorre a missa no dia de Páscoa, onde segundo Caminha, acompanharam até com devoção. Em outro trecho, Alencar fala do filho de Martim e Iracema, onde “O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?” nessa pergunta final, não encontrei resposta no trecho lido, no entanto, pode-se avaliar, que na época não foram poucos os brasileiros filhos de europeus que saíram do país a fim de aperfeiçoar seus estudos em Coimbra, “letrar-se”, mesmo sem aplicar o conhecimento, como já foi discutido em Buarque de Holanda.

  7. Marcelo Says:

    Embora faça questão de ressaltar a nobreza da figura do leitor, convidando-o a saborear as páginas do livro, José de Alencar parece denunciar, de início, uma clivagem entre um suposto “bom cearense” – “prezado de seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos tempos prósperos” – e algum personagem hostil em sua terra natal – impregnado de uma “virtude primitiva (…) que não a inspire com o hálito vital. Observa-se desde então uma tensão nas linhas do autor: ao mesmo tempo que explicita o desejo de construir um discurso próximo, livre dos inúmeros preconceitos existentes no país, acaba caindo na armadilha de seus próprios, o que não é em si reprovável, visto que é inevitável que se olhe o mundo a partir de um lugar eivado de pré-concepções a respeito do que se vê. À válida crítica aos selvagens poemas de Gonçalves Dias, tidos como pouco verossímeis ao estado de natureza no qual se encontram os índios, não sucede uma obra que aproxime mais o leitor deste meio, ainda que com o esforço de importar certos conceitos e expressões. No entanto, não acho correto afirmar que a tentativa de Alencar seja infrutífera. A introdução do elemento indígena no mito fundador do Brasil é válida, e parte de um diagnóstico: a ênfase dada ao elemento português na literatura e na construção da memória. Ao autorizar a entrada de mais um elemento nesse passado, contudo, Alencar acaba por reproduzir um discurso não de libertação, mas de enquadramento que exclui outro importante elemento da cultura nacional: o negro. Resta perguntar se a obra de Alencar aprisiona ou liberta.

  8. Joyce Says:

    Logo no “Prólogo” (Iracema), Alencar coloca que o livro é cearense. Exalta a natureza, o campo e afirma que escreveu o livro para ser lido por aquela gente cheia de recordações sem que alguém tivesse imprimido algo que pudesse mudar o modo de pensar. “O livro é cearense. Foi imaginado aí, na limpidez desse céu de cristalino azul, e depois vazado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rústica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede, entre os múrmuros do vento que crepita na areia, ou farfalha nas palmas dos coqueiros”; “As auras de nossos campos parecem tão impregnadas dessa virtude primitiva, que nenhuma raça habita aí, que não a inspire com o hálito vital”. Compara as pessoas do campo com os da cidade. No campo as pessoas são hospitaleiras, ao contrário dos outros lugares. “Receio, sim, que o livro seja recebido como estrangeiro e hóspede na terra dos meus”. É engraçada a postura de Alencar, pois ao mesmo tempo em que diz que as pessoas do campo receberão melhor o livro por ter uma “imaginação virgem”, ele conta a história dos indígenas, não como foi realmente, mas de forma idealizada, romantizada.
    Assim como fez Caminha na carta, Alencar escreve a inocência do índio e a riqueza da paisagem natural. Também como Caminha, deixa claro a religião do branco e implícita sua imposição ao índio colocada de uma forma poética, como se tivessem aceitado a nova crença com alegria e por vontade própria. “Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra selvagem. Poti foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho; não sofria ele que nada mais o separasse de seu irmão branco. Deviam ter ambos um só deus, como tinham um só coração. Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e sobre os dous o seu, na língua dos novos irmãos. Sua fama cresceu e ainda hoje é o orgulho da terra, onde ele primeiro viu a luz”. A palavra cristão vem sempre acompanhada ou substituindo Martim: “o guerreiro cristão”, “o cristão moveu o passo vacilante”, “o cristão parou”.
    Alencar escreve o livro de forma poética, com muitas metáforas. Resolveu escrever o livro desta forma, porque os que tinha lido sobre o tema indígena usavam muitos termos indígenas que acabavam atrapalhando a “harmonia língua portuguesa” e a “inteligência do texto”. Para ele, a forma retratada foi a mais correta por mostrar a ingenuidade do pensamento e da expressão da linguagem dos índios. Alencar prima pela clareza no texto, mas escreve de forma difícil, esquecendo que o excesso de metáforas também compromete a clareza do texto.
    Na Carta ao Dr. Jaguaribe, Alencar mostra a mesma angústia que Sarmiento expressou no texto que estudamos: escrever para pessoas que não vão reconhecer seu trabalho. “Ora, escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não ser entendido, e quando entendido não apreciado, era para desanimar o mais robusto talento, quanto mais a minha mediocridade. Que fazer? Encher o livro de grifos que o tornariam mais contuso e de notas que ninguém lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos preferissem o veredito literário? Dar leitura dela a um circulo escolhido, que emitisse juízo ilustrado?”. O medo de não reconhecerem todo o trabalho que teve para escrever o livro: “A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados seriam apreciados em seu justo valor, pela maioria dos leitores? Não os julgariam inferiores a qualquer das imagens em voga, usadas na literatura moderna?”; “não desvanece porém nunca o receio de ‘perder inutilmente meu tempo a fazer versos para caboclos’”.
    Por fim, achei interessante, depois da angústia que tem de não entenderem ou não gostarem de seu livro, o reconhecimento dos defeitos da obra e a possibilidade de serem revistos. “Depois de concluído o livro e quando o reli já aparado na estampa, conheci que me tinham escapado senão que se devam corrigir, noto algum excesso de comparações, repetição de certas imagens, desalinho no estilo dos últimos capítulos. Também me parece que devia conservar aos nomes das localidades sua atual versão, embora corrompida. Se a obra tiver segunda edição será escoimada destes e doutros defeitos que lhe descubram os entendidos”.

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