Aula 17- Mais V. e R.

JOSÉ VASCONCELOS – OU GILBERTO FREYRE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Para introduzir La raza cósmica, vou contar uma história – ou melhor, narrar uma leitura.

Li Vasconcelos pela primeira vez em meados de 2006. Estava me preparando para um exame obrigatório no qual teria que comprovar especialização em uma literatura nacional ou regional. A minha era ficção latino-americana do século XX. Mas incluí o texto quando uma integrante da banca pediu que eu abordasse também o ensaio. Nunca gostei muito desse gênero. Mas quis fazer média e o mexicano entrou na lista, acompanhado por alguns outros.

Li o texto gargalhando, de uma sentada. Achei o mexicano um satirista brilhante, genial mesmo. Uns dias depois, fui ao White Dog Cafe – um bar perto do campus – onde encontrei um veterano aluno do programa de Literatura Hispânica. Cerveja vai, cerveja vem. Conversa vai, conversa vem. E eis que conversa chega ao ensaio latino-americano. E eu disparo:

– Li Vasconcelos uns dias atrás. O homem é fantástico. Conseguiu naquelas 40 páginas resumir toda a neurose identitária latino-americana. É arrasador… um segundo Machado de Assis.

– Como assim?

– Ora, a referência à Atlântida, os delírios sobre deslocamento continental, as piadas quanto à futura arquitetura faraônica, a transposição do alfa e ômega de João à identidade racial do continente. É brilhante. É “As idéias fora do lugar”, só que mais divertido.

O veterano sorriu e disse:

– Acho que você não entendeu a importância do texto.

– Claro que entendi. É uma das melhores sátiras já escritas no continente.

– Pois bem. É aí mesmo que você se engana.

– Como me engano?

– Não é sátira alguma. É sintoma. Vasconcelos acreditava em tudo aquilo.

Ficou um silêncio incômodo. E fica a moral da história. Sintoma puro, La raza cósmica mostra o quão difícil de tratar é essa chaga que chamamos de identidade(s) latino-americana(s). Difícil porque existe uma história comum, com mil paralelos. E existe a necessidade de narrar esta história. Mas em muitos caso não existe identidade comum sequer dentro das nações latino-americanas, muito menos entre elas. Como, então, responder à pergunta “Quem somos?” sem  ou 1) ignorar a história ou 2) reescrevê-la radicalmente, como faz Vasconcelos?

Ou seja, existe uma história análoga que não se transforma em uma identidade comum. E é desse descompasso que surge a demanda por mitos fundacionais – de Vasconcelos a Freyre , de Alencar a Rodó. O interessante em Vasconcelos é precisamente como ele torna essa necessidade explícita, como encarna o sintoma. Por isso, La raza cósmica não é um texto parodiável: parodia a si mesmo, ainda que inadvertidamente.

Meu ponto é simples: não, você não entendeu errado.

  • Vasconcelos está sim defendendo o surgimento de uma raça universal na América Latina.
  • Vasconcelos está sim prevendo a construção de pirâmides no Rio de Janeiro.
  • Vasconcelos está sim dizendo que no futuro as pessoas feias irão voluntariamente deixar de reproduzir, embelezando a raça.
  • Vasconcelos está sim tentando fundir a história natural e com a antropológica para afirmar que ninguém cruzou o Estreito de Bering e que os povos indígenas chegaram ao novo mundo através da deriva continental. (Nisso, troca as datas por uns 199,5 milhões da anos).

Enfim… qualquer semelhança entre a leitura de La raza cósmica e um passeio pelo Vale do Amanhecer não é mera coincidência. É, como já disse, sintoma.

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