Aula 19b- Nelson Rodrigues

"Você despreza os grandes vira-latas?"

Rodrigues a OLR: "Você despreza os grandes vira-latas?"

Além de Arguedas, leremos para quinta-feira três crônicas de Nelson Rodrigues: “Complexo de vira-lata”, “A vaca premiada” e “Um dia sem assaltos”. Um arquivo com as três crônicas (e três outras para quem gostar do que leu e quiser ler mais) pode ser baixado aqui.

Abaixo, segue a apresentação da Tájila sobre os textos.

NELSON RODRIGUES: VIDA E OBRA

1. Nasceu em 1912 e morreu em 1980;

2. Foi dramaturgo, crítico, cronista, contista e romancista;

3. Possuía uma peculiar estratégia em suas dramaturgias: apelar para o exagero e para o que há de pior no homem para despertar os sentimentos mais elevados, a purificação. [Ele sinaliza um pouco essa questão ao acentuar a importância da retórica, em Um dia sem assaltos];

4. Tinha um enorme fascínio por pactos de morte entre amantes;

5. Fazia uma distinção entre gênios e cretinos fundamentais – pessoas que  desprezam o Brasil.

O sentimento da inferioridade, seja ela cultural, intelectual ou étnica. Segundo Nelson Rodrigues, é esse o problema dos brasileiros. E olha que Nelson acredita fielmente na grande capacidade do povo brasileiro, mas reconhece que a baixa auto-estima tem fundamento, já que “cada um de nós carrega um potencial de santas humilhações hereditárias. Cada geração transmite à seguinte todas as frustacoes e misérias.[…] Eis a verdade: – não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a auto-estima.”

O sentir-se inferior – mas jamais sê-lo – é justificável, então. Também Arguedas detecta o mesmo problema e atribui ao “complexo de vira-lata” quéchua origens semelhantes: “el desprecio social, la dominación política y la explotación económica en el propio suelo donde realizó hazañas (proezas, feitos) por las que la historia lo consideró como gran pueblo: se había convertido en una nación acorralada, aislada para ser mejor y más fácilmente administrada y sobre la cual sólo los acorraladores hablaban mirándola a distancia y con repugnancia o curiosidad.”

Existem, no entanto, diferenças consideráveis no modo em que esses dois autores tentam reverter, de certa maneira, o problema da baixa auto-estima. Arguedas reforça as qualidades do povo peruano, acentuando suas qualidades infinitas de criação, que nem toda a dominação e opressão do mundo podem sufocar: “los muros aislantes y opresores no apagan  […] las fuentes del amor de donde brota el arte”. Sua argumentacao consiste numa tentativa explícita de despertar no povo o amor-próprio. Já Nelson Rodrigues recorre a outro método: ele ridiculariza, choca, polemiza, para ver se, dessa maneira, o sentimento do amor-proprio vem à tona, embora ele admita durante os textos que o Brasil e o povo brasileiro têm potencialidades infinitas.

Essa é, bem verdade, uma característica mais presente na sua dramaturgia que em suas crônicas. Em A vida como ela é – apenas para citar uma produção que provavelmente todos conhecem –  notamos uma abordagem do eterno conflito de valores presentes no ser humano, das vicissitudes do homem e  suas fraquezas morais. Essa dramatização dos podres humanos visa à purificação. Um paradoxo? Não para Nelson Rodrigues. O autor defende a humanização – seus ataques à esquerda e aos jovens, inclusive,  eram devidos à tentativa de desumanização praticada por esses. Ainda assim, acredita que, para despertar os sentimentos “bons” no público, os autores devem chocá-lo com os sentimentos “ruins”.

Em A vaca premiada e O Complexo de vira-latas observei, ainda que de maneira bem mais sutil que em suas dramaturgias, essa mesma estratégia. No caso dos textos citados, o objetivo é utilizar um riso subversivo para despertar a auto-estima do povo.  Nelson Rodrigues não explicita em seu discurso que considera o brasileiro maravilhoso, estupendo, cheio de potencialidades não-descobertas. É certo que ele admite em muitos trechos as qualidades dos brasileiros, mas o que predomina é uma ridicularização da nossa subjugação voluntária, como em:

Há coisas que só a criança enxerga. Mas quis-me parecer que o animal teve uma euforia pânica e pingou várias lágrimas da gratidão brasileira e selvagem.

Essa frase é ou não é digna de um riso choroso? E também:

Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

E a reação à ridicularização surge no leitor: Ééé! Isso aí!!! Não somos vira-latas nãão!!!

AMOR AO BRASIL

Para quem ainda duvida que Nelson Rodrigues amava o Brasil e o povo brasileiro – não tenho certeza se ele deixou isso muito claro nos três textos em questão -, vou citar alguns trechos interessantes de uma entrevista que ele forneceu a Otto Lara Resende em 1977, três anos antes de sua morte e um tempo depois de seu coma.

Na entrevista, que durou um pouco mais de 30 minutos, Nelson Rodrigues afirma que o povo brasileiro ainda vai conquistar a vida, embora atualmente “babe na gravata”. Também constata que o Brasil iria substituir a Rússia e os EUA, seria ele o autor da “grande palavra nova”. Quando questionado por Otto  sobre a veracidade dessa crença, uma vez que Nelson Rodrigues insistia no caráter vira-lata do brasileiro, ele diz: E você despreza os grandes vira-latas? Logo depois argumenta que ser um vira-lata é não reconhecer suas próprias potencialidades; é ter luz própria, mas ser cego a ela.

Interessante é o momento em que ele destaca a capacidade do brasileiro em contar piadas, o que seria uma ótima qualidade. Nelson Rodrigues diz em uma defesa exaltada: “Acho o brasileiro um sujeito formidável, é o sujeito que faz piada. Nenhum povo faz piada, só o Brasil. Acontece qualquer coisa, seja uma catástrofe, seja uma chanchada, o brasileiro inventa uma piada na hora!”

As qualidades do brasileiro não param por aí. Otto pergunta qual outra característica que definiria o brasileiro, seria a cordialidade? É quando Nelson Rodrigues solta: “Nenhum [outro povo] consegue ser cafajeste! E o brasileiro é cafajeste!”.

Quem quiser mais detalhes da entrevista pode encontrá-la abaixo. Tem três partes. Eu recomendo!

6 Respostas to “Aula 19b- Nelson Rodrigues”

  1. Pedro Vinícius Says:

    Impressão que tive com Nelson Rodrigues ele escreve como se conversasse num boteco. Ele não se estende muito, como se dissesse: você sabe bem o que eu to falando, não preciso te explicar. E ainda tem um tom de auto-ajuda. Ou pai dando um puxão de orelha no filho, mas que depois compra um doce. E tudo isso funciona perfeitamente. Entende sua época e não leva nada muito a sérioe mesmo assim se preocupa.

  2. Gabriella Says:

    O problema identidário do brasileiro está, segundo Nelson Rodrigues, na dissociação da palavra com os indivíduos. Disconexão que muita lembra a ruptura semântica entre palavra e coisa enunciada por Foucault. O brasileiro não possui a confirmação da sua identidade no campo simbólico e retórico, sua identidade baseia-se em aceitar as características que os outros lhe atribuem. Não busca dentro de si mesmo e não constrói por si só sua identidade. Precisamos de prêmios, condecorações, copas do mundo, discursos inflamados, para nos sentirmos bons e capazes. Uma confirmação externa já que não conseguimos nos fundamentar internamente através das palavras. A ação e a palavra são colocadas como fundamental na confirmação de um indivíduo, necessárias à sua independência enquanto ser.

  3. Joyce Says:

    As desilusões e a histórica vida do submundo fazem com que os brasileiros se sintam humilhados, complexados e envergonhados. É o que Nelson Rodrigues trata nos contos lidos. Esse rótulo dado pelo próprio brasileiro, segundo NR, faz com que as qualidades existentes sumam por se acharem inferiores ao resto do mundo. Essas angústias fazem com que ele não consiga enxergar as coisas, que ele não tenha um propósito, um sonho alto. “O horizonte interior do brasileiro não chega ao Amazonas”. Ao mesmo tempo que NR diz que o brasileiro se põe abaixo das outras nações, explica que isso acontece por medo de se iludir e se decepcionar no final das contas, como no caso da copa do mundo. E até hoje é assim. Todos falam que a seleção é péssima, mas, no fundo, fica torcendo para levar o título de melhor do mundo. Como se o esforço ao se fazer algo não fosse válido sem um troféu ou sem uma homenagem. NR fala que o complexo do brasileiro é passado de pai para filho e não e é difícil tirar esse complexo sem ter no que se espelhar ao olhar para a história do país. Os contos são quase uma conversa com o leitor. E, ao mesmo tempo que parece estar dando uma bronca por se achar inferior, se põe ao lado dos leitores, como nos trechos: “negamos o escrete de 58 […] Gostaríamos talvez de acreditar na seleção”; “temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades”; “Cada um de nós carrega um potencial de santas humilhações hereditárias”. Ele fala de um problema e se inclui como brasileiro. Parece lógico fazer isso, mas muitos autores, ao criticar algo, colocam a culpa no povo e tira o corpo como se não fizesse parte dele.

  4. Grégory Says:

    Para Nelson Rodrigues, o brasileiro tem um complexo de inferioridade. A sociedade se identifica com isso, quando se fala de seleção brasileira, o autor fala de inibição, mas que a seleção tem chance, é apenas uma questão de se desmarrar dessa inibição. O que falta é fé em si mesmo.
    No outro texto, o autor fala que há falta de auto-estima é algo passado de geração para geração. Em “um dia sem assaltos” o autor fala da falta de retórica, e que sem retórica passa-se a fazer piadas do cotidiano que exigiria senso crítico para poder discutí-lo. No primeiro texto o autor parece demonstrar esperança de que o brasileiro é forte, mas falta algo para o brasileiro demonstrar o seu valor, no segundo, Nelson discute de onde vem essa falta de auto-estima, no terceiro, o autor já se demonstra mais desiludido e ele parece questionar a habilidade com a retórica que o brasileiro teria, era como se tivesse perdido o poder da retórica. Tem-se uma escala de queda do otimismo (isso caso se leia os textos em sequência). Mas o ponto de convergência entre os textos estabelece-se quando observamos que o brasileiro não muda suas atitudes de inferioridade, se julga inferior e nem quer usar da retórica para questionar algo. A sensação que passa é que, para o autor, o brasileiro é passivo, não tem mobilidade, é acomodado e assim será. Tudo isso por se julgar inferior. A partir daí, pode-se tentar estabelecer que motivos o autor teria para crer nisso. Pode-se atrelar percepções que foram discutidas no pensamento político-social da época que tentavam entender o motivo da passividade e não mobilidade do brasileiro. Seriam: a questão das raças na formação da sociedade brasileira; as heranças do paternalismo que seria oriundo do colonialismo; a presença da barbárie nos centros urbanos; e outros tantos.
    Sobre Arguedas, o que se tem é um autor que tentou vincular elementos da cultura quechua à aspectos da cultura dominante. O contrastre dessas culturas, o faz acreditar que o país é rico culturalmente, e que aí está a beleza do Peru. O autor mantém contato com as duas culturas e a existência das duas, o contraste entre elas é um motivo de orgulho, que deve ser evidenciado.

  5. Kaio Says:

    Ambos os autores expressam seu amor e confiança quanto a seus respectivos países por vias diametralmente opostas: Arguedas, pela antropologia e um marxismo romântico, e Rodrigues, pela crônica jornalística e um polemismo ácido.

    O peruano tem um tom bastante melancólico e dramático em seu discurso, como se lutasse bravamente pela compreensão de sua tentativa de unir sob um único ideal as culturas indígena e hispânica, cristã ocidental e ‘autóctone’ americana.
    Embora seja um acadêmico, ele é adepto do discurso “Aprendi com a vida, com uma árdua e sofrida experiência” quando defende os indígenas. Não que eu queira desqualificar a defesa apaixonada que ele faz da cultura nativa, mas ainda consigo enxergar um certo exagero no tratamento dele ao seu povo, não só pela própria mistura ideológica totalizante que o compõe (nacionalismo + socialismo), como também pelo ‘principismo’ em pregar a mescla cultura como se fosse uma espécie de ‘justiça histórica’, acerto de contas com o passado.

    “Complexo de Vira-Latas”, de Nelson Rodrigues, é um sintomático documento histórico, não só porque expôs as dúvidas e desconfianças dos brasileiros fãs de futebol quanto ao desempenho na Copa de 58 (que seriam, digamos, ‘respondidas’ pelo estrondoso êxito canarinho naquele mundial), como também por lançar uma tese ainda muito atual sobre a condição humana do brasileiro: a falta de confiança em si mesmo, a “alta baixa-estima”
    Tal argumento é efetivo no sentido de apontar o complexo de inferioridade cultural recorrente em nosso país, comum não só nos esportes como também nas próprias relações com outros países – a pretensa neutralidade e ‘meio-termismo’, como se fosse incapaz de tomar partido e defender suas posições com convicção.
    Poucos países conseguem ser tão alegres e frustrados ao mesmo tempo, um eterno loser que nunca perde o sorriso. Em “A Vaca Premiada”, o autor tem alguma razão quando fala em um Narciso às avessas, que subestima a si próprio.
    Nelson alcança o ápice do ‘bate-assopra’ em “Um Dia sem Assaltos”, quando fala na ‘naturalidade cínica’ do brasileiro. É adoravelmente espantadora a obsessão do mesmo em relação a tragédias e transgressões, mesmo quando o que se assassina é… a gramática. Porém, o autor demonstra simultânea condescendência com o tupiniquim mediano e os Rui Barbosas da vida, vendo no primeiro uma tocante malandragem ingênua e no segundo, um preciosismo risível quanto a aparências e não essências..

  6. Murilo Says:

    Nelson, em sua crônica “Complexo de Vira-latas”, aponta que o brasileiro não possuía fé em si mesmo quando deparava-se com o futebol . Mas, com certeza, se ele vivesse hoje, diria que, ao contrário, o brasileiro tem fé em si apenas em matéria de futebol. Brincadeiras à parte, é importante notar que essa desconfiança deve-se ao fato de termos “pânico de uma nova e irremediável desilusão”. Torcemos pela nossa glória e, realmente, sabemos de nossas qualidades, mas o medo de quebrarmos a nossa cara agoura-nos quando queremos manifestar nossos sentimentos. Porém não podemos generalizar. É fácil encontrar brasileiros que se dizem donos da verdade. Quanto à crônica “A Vaca Premiada”, é bastante pertinente a visão do autor de que a nossa felicidade ao receber algum prêmio deve-se ao fato de termos sido quão subjugados ao longo da história. Isso fez surgir a ânsia de mostrarmos aos nossos conterrâneos que podemos ser os melhores em alguma coisa. Talvez deva esse ser o motivo de apenas valorizarmos o primeiro lugar.

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