Aula 20c – Sobre o boom

Boom é o que não dura – Alejo Carpentier

Para entender o contexto no qual surgiram tanto Grande Sertão: Veredas quanto Cem Anos de Solidão, é preciso entender o que foi o chamado boom da Literatura Latino-Americana. O problema é que, a bem da verdade, não existe um consenso claro sobre o que foi o boom, sobre quais são os seus principais escritores, sobre quais as suas causas, sobre qual o seu legado e sobre se ele foi um fenômeno estético ou editorial. Sequer existe um consenso sobre se o Brasil participou dele.

O certo é que o termo passou a ser usado nos anos 1960 após a publicação, por escritores latino-americanos, de quatro romances formalmente ambiciosos, literariamente inovadores e internacionalmente aclamados. Estes livros foram: La Muerte de Artemio Cruz, do mexicano Carlos Fuentes (1962); Rayuela, do argentino Júlio Cortázar (1963); Cien Años de Soledad, do colombiano Gabriel García Márquez (1967) e La Casa Verde, do peruano Mario Vargas Llosa (1968).

(Já nesse ponto vale fazer uma ressalva. A lista acima é composta pelos nomes  que o também escritor José Donoso identifica em sua Historia personal del boom como os quatro baluartes do boom. Mas tem muita gente que se opõe à canonização de esse “núcleo duro” – a começar pelo próprio Ángel Rama, para quem a sobrevalorização desses quatro escritores em detrimento de outros aparentemente “menores” transformaria o boom em “ o clube mais exclusivista que a história cultural da América Latina conheceu”.)

De qualquer forma, os livros têm grandes diferenças entre si. Se tivesse que resumi-los, eu diria (porcamente) o seguinte: La Muerte de Artemio Cruz é a tentativa obcecada, por um autor, de desenvolver um personagem (também obcecado) cuja biografia resuma e explique a corrupção e o desvirtuamento da Revolução Mexicana. Rayuela é o manifesto de uma contracultura que está prestes a – e louca para – virar moda. Cien Años de Soledad é a tentativa de expressar, por meio do realismo-mágico, a história da Colômbia e de seu isolamento social, político, econômico e cultural. E La Casa Verde é um retrato dos conflitos gerados pelo encontro – nas zonas urbanas peruanas – de pessoas de diversas origens rurais. Ainda assim, há muitos elementos em comum. é o manifesto de uma contracultura que está prestes a – e louca para – virar moda.

Todos são textos ambiciosos e formalmente inovadores. Mesmo quando reconhecem a impossibilidade desse projeto, todos buscam organizar, medir, denunciar e explicar o subdesenvolvimento. E todas foram sucessos de leitura tanto no continente, onde a tiragem das edições saltou de algumas centenas para muitos milhares, quanto na Europa e nos Estados Unidos, onde a leitura de romances latino-americanos tornou-se corriqueira em muitos segmentos. A América Latina tornou-se pela primeira vez em sua história uma exportadora de produtos culturais – em uma inversão radical que culminou com a outorga do Prêmio Nobel de Literatura ao guatemalteco Miguel Angel Astúrias em 1967.

Surge então a pergunta: por que a literatura latino-americana repentinamente alcançou um número sem precedentes de leitores tanto no próprio continente quanto pelo mundo a fora? Teoria não falta. Todas fazem algum sentido. Mas nenhuma me parece responder pelo fenômeno inteiro. As mais frequentemente citadas são:

  1. A Revolução Cubana, com a chegada ao poder de Fidel Castro, despertou pelo mundo a fora um interesse sem precedentes no continente, colocando sua literatura em foco;
  2. A consolidação de mercados editoriais na Argentina e no México, assim como a aproximação das editoras desses países com as espanholas, levou a uma distribuição muito melhor de livros, integrando o mercado de livros latino-americano com o ibérico;
  3. A importação de técnicas publicitárias e modelos de revista europeus levou à publicação no continente de diversas revistas literárias de vanguarda especializadas não em poesia, mas em prosa – especialmente em romances (como a revista Mundo Nuevo, editada em Paris e distribuida pelo continente);
  4. O crescimento demográfico da região, aliado aos investimentos em educação e ao aumento nas taxas de alfabetização, levou a um aumento vertiginoso no público leitor;
  5. O crescimento econômico da região, aliado ao aumento vertiginoso do público leitor descrito em 4), permitiu que um número seleto de escritores talentosos finalmente conseguissem viver da escrita;
  6. O esgotamento daquilo que o escritor cubano Alejo Carpentier descreve como o modelo “regionalista, costumbrista, localista da novela de la tierra” levou os escritores latino-americanos a abordarem a história e as particularidades de seus países dentro de uma perspectiva universal – gerando livros melhores e mais atraentes para um público global;
  7. Demos sorte.

Ainda que a maioiria das narrativas sobre o boom reserve uma posição de destaque a Fuentes, Cortázar, Vargas Llosa e García Márquez, o boom inclui também outros textos fundadores: El astillero, do uruguaio Juan Carlos Onetti (1961), Paradiso, do cubano José Lezama Lima (1966); El lugar sin limites, do chileno José Donoso (1965) e Tres tristes tigres, do também cubano Guillermo  Cabrera Infante (1967), entre muitos outros. Esses outros não são meros epígonos. São em muitos casos bastante melhores que os integrantes do núcleo duro. Mas receberam um papel secundário.

De qualquer forma, se o que caracteriza o boom são as grandes alegorias não apenas nacionais, como também letradas – alegorias da própria relação do autor latino-americano com seu continente e com a Europa – eu diria que ele começa mesmo com Pedro Páramo (do mexicano Juan Rulfo) e  Grande Sertão: Veredas, de 1955 e 1956, e acaba com o romance Yo, el Supremo, do paraguaio Augusto Roa Bastos (1974).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: