Aula 20 – JGR e GGM

A partir de terça-feira, mergulharemos em duas obras-primas – Grande Sertão: Veredas (1956) ou Cem Anos de Solidão (1967). São livros tão famosos que dispensam qualquer apresentação. Ao mesmo tempo, são tão densos, exuberantes e inovadores que é impossível dizer sobre eles qualquer coisa que não seja apenas uma apresentação. Mais do que livros, as criações de João Guimarães Rosa e Gabriel García Márquez são artefatos – ou melhor, monumentos – culturais.

Você pode ler a edição que quiser e só tem que ler UM dos dois livros. Eu falarei de ambos e frequentemente mencionarei alguns outros textos que tratam do boom como fenômeno literário, social e histórico (para ler um pouco mais sobre o boom, clique aqui). Na terça, falarei muito de “O boom em perspectiva”, texto de Ángel Rama. Se alguém quiser  dar uma olhada, pode encontrar o texto aqui.

Até o final das aulas, a dinâmica de nossos encontros mudará um pouco. Normalmente, vou falar de algum texto secundário na primeira metade da aula e – na segunda metade – tentaremos aplicar esse texto aos dois romances. Por isso, É ESSENCIAL QUE VOCÊ TRAGA UMA CÓPIA DO ROMANCE QUE ESCOLHER.

A edição não importa. Pessoalmente, eu estarei usando as seguintes:

García Márquez, Gabriel. Cem anos de solidão. 41ª edição. SP: Record, 1995.

Guimarães Rosa, João. Grande sertão: veredas. 23ª edição. RJ: Nova Fronteira, 1985.

As consultas continuarão sendo de múltipla escolha.

Leremos os livros durante três semanas. Para conseguir fazer isso, é importante seguir o seguinte cronograma:

Grande Sertão: Veredas

Ler Rosa é muito perigoso. E vicia...

Dia 21 – Ler até Riobaldo conhecer José Bebelo, por indicação do Mestre Lucas (Pode parar no trecho “Ah-oh-Ah, o destempo de estar sendo debochado se irou em mim”, pg 119)

Dia 23 – Ler até Riobaldo pedir Otacília em casamento e (Pode parar no trecho “Como foi que não tive um pressentimento? O senhor mesmo, o senhor pode imaginar de ver um corpo claro de virgem de moça”, pg 178)

Dia 28 – Ler até a notícia da morte de Joca Ramiro (Pode parar no trecho “Era a outra guerra. A gente ficávamos aliviados”, pg 278)

Dia 30 – Ler até Riobaldo impedir que Zé Bebelo peça ajuda aos militares quando na fazenda dos Tucanos (Pode parar na célebre frase “Diadorim – o nome perpetual”, pg 346)

Novembro

Dia 4 – Ler até Riobaldo deixar Felisberto aos cuidados e prazeres de Ageala Hortência e Maria-da-Luz (Pode parar no trecho “Ah: eu sentinela! – o senhor sabe”, pg 494)

Dia 6 – Ler até o fim.

Cem Anos de Solidão

Garcia Márquez, inventor de Macondo

García Márquez, criador de Macondo

Dia 21 – Ler até (e inclusive) o casamento de Aureliano e Remedios (Capítulo que começa “Aureliano Buendía e Remedios Mascote casaram-se”)

Dia 23 – Ler até (e inclusive) a morte de José Arcádio (Capítulo que começa “Em Maio terminou a guerra”)

Dia 28 – Ler até (e inclusive) a modernização de Macondo (Capítulo que começa “O casamento esteve prestes a naufragar”)

Dia 30 – Ler até (e inclusive) a morte do Coronel Aureliano Buendía (Capítulo que começa “No aturdimento dos últimos anos”)

Novembro

Dia 4 – Ler até (e inclusive) a partida de Amaranta Úrsula para Bruxelas (Capítulo que começa “Úrsula teve de fazer um grande esforço para cumprir a promessa de morrer”)

Dia 6 – Ler até o fim.

Como eu disse, ambos os livros são verdadeiros monumentos. Isso não é necessariamente coisa boa. Pois  têm um status tão grande que intimidam o leitor. Dá para dedicar uma carreira, uma vida inteira à obra de Guimarães Rosa. Apesar de ser um pouco mais popular e menos recôndito, também Márquez já é assunto de uma verdadeira biblioteca. A moral da história é que, seja qual for o livro que você vai ler, o importante é não se deixar intimidar. E não confiar no autor.

O que quero dizer com isso? Basicamente que livros são dispositivos pelos quais autores brincam com seus leitores, com as palavras e com a tradição. Ou seja, desfrutar o enredo, apreciar as imagens, mergulhar na trama… tudo isso é muito bom. Mas, quando percebo que um trecho de um romance me perturba, apaixona, assusta, encanta, deprime ou comove de qualquer forma, eu paro e releio. Depois, faço perguntas como as seguintes:


DE QUE FORMA esse(a) autor(a) conseguiu fazer isso?

O QUE há de especial nesse trecho específico?

QUAIS outros textos, eventos, imagens ou crenças esse trecho evoca?

COMO a forma (imagens, tropos, descrições, etc.) e o conteúdo (enredo) trabalham juntos para me afetar?

Qual é o ponto dessas perguntas? É  identificar no texto funções, procedimentos, técnicas por meio das quais o autor ou a autora brincou comigo. Gostaria de  treinar essa forma de leitura. Por isso, para os posts de terça-feira, sugiro que todos:

1)      Selecionem um trecho do texto que surtiu um efeito específico sobre você.

2)      Copiem o trecho

3)      Tentem descobrir porque esse trecho fez o que fez – como ele funciona.

PS – Se alguém quiser ver um exemplo de como eu, pessoalmente, faço isso, pode dar uma olhada nesse artigo. Sobre Grande Sertão: Veredas, ele será publicado esse mês em uma coletânea sobre Literatura e Religião. Apresentei o artigo em Julho durante um encontro da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Na época, foi bem recebido. E achei que estava bom. Mas, lendo agora, não gostei tanto.

PPS – Parece que há uma versão online de Grande Sertão: Veredas aqui e outra aqui. Cem Anos de Solidão tem aqui. Não sei qual o status de qualquer uma delas no que diz respeito a direitos autorais.

6 Respostas to “Aula 20 – JGR e GGM”

  1. Kaio Says:

    “Nesse tempo, o Jacaré pegou de uma terra, qualidade que dizem que é de bom aproveitar, e gostosa. Me deu, comi, sem achar sabor, só o pepêgo esquisito, e esganava o estômago. Melhor engulir capins e folhas. Mas uns já enchiam até capanga, com torrão daquela terra. Diadorim comeu. A mulher também aceitou, a coitada. Depois Medeiro Vaz passou mal, outros tinham dôres, pensaram que carne de gente envenenava.” (p. 55)

    O trecho citado corresponde a uma das mais impressionantes cenas das primeiras 60 páginas de “Grande Sertão: Veredas”: o assassinato e a, digamos, antropofagia de um homem que fora confundido por macaco pelo bando de Medeiro Vaz, Riobaldo e cia.
    A progressão desta passagem alcança o seu objetivo de demonstrar o espanto dos ‘consumidores’ com a situação em que se envolveram. Porém, a náusea e o desespero não os impediram de perceber que eles próprios morreriam se não comessem carne de um da mesma espécie deles. Mesmo com desconfiança, até mandioca se arranjou para ‘elaborar’ a refeição. A própria mãe do morto acabou participando de um ato, que, na construção narrativa moldada de Rosa, teve ares de ritual, de sacrifício. É como dar uma nova dimensão ao canibalismo, como exemplo extremo de uma jornada repleta de obstáculos e desconstruções.
    Pelo menos até o trecho que eu li, a obra demonstrou ter sobressaltos como este; ou seja, situações aparentemente rotineiras que, subitamente, ganham um novo e inesperado significado, mas que depois acabam sendo aceitas como ‘ossos do ofício’, quase algo intrínseco ao empreendimento de Riobaldo e seus companheiros.

  2. Anônimo Says:

    “Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira. Pouco a pouco, estudando as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se reconhecessem as coisas pelas suas inscrições, mas não recordasse a sua utilidade. Então foi mais explícito. O letreiro que pendurou no cachaço da vaca era uma amostra exemplar da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento: Esta é a vaca, tem-se que ordenhála todas as manhãs para que produza o leite e o leite é preciso ferver para misturá-lo com café e fazer café com leite. Assim, continuaram vivendo numa realidade escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que haveria de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita.”

    Novamente, foi a dissociação entre signo e significado que me chamou atenção. García Márquez retrata na ficção, de forma fantástica, a relação do homem com o mundo material que o rodeia: o que possui, ou não, significado para ele. Ao precisar escrever o nome e a função de tudo, percebeu-se a necessidade de reafirmação e de legitimação existencial das coisas pelas palavras. Essa necessidade não é restrita à povoados atingidos pela insônia e pelo esquecimento. abarca a relação de todo o homem com o mundo nas sociedades complexas – mediadas pelos signos. Após a cura, e a conseqüente retomada da memória, a debilidade e fragilidade dessa relação revelou-se. A tentativa de definir e afirmar as coisas através das palavras mostrou-se quase ridícula e infantil. Restou a dúvida, que já atormentava os primeiros filósofos, de como o homem se relaciona com a realidade material que o rodeia.

  3. Gabriella Says:

    “Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com seu nome: mesa, cadeira, relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as plantas: vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira. Pouco a pouco, estudando as infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se reconhecessem as coisas pelas suas inscrições, mas não recordasse a sua utilidade. Então foi mais explícito. O letreiro que pendurou no cachaço da vaca era uma amostra exemplar da forma pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento: Esta é a vaca, tem-se que ordenhála todas as manhãs para que produza o leite e o leite é preciso ferver para misturá-lo com café e fazer café com leite. Assim, continuaram vivendo numa realidade escorregadia, momentaneamente capturada pelas palavras, mas que haveria de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita.”

    Novamente, foi a dissociação entre signo e significado que me chamou atenção. García Márquez retrata na ficção, de forma fantástica, a relação do homem com o mundo material que o rodeia: o que possui, ou não, significado para ele. Ao precisar escrever o nome e a função de tudo, percebeu-se a necessidade de reafirmação e de legitimação existencial das coisas pelas palavras. Essa necessidade não é restrita à povoados atingidos pela insônia e pelo esquecimento. abarca a relação de todo o homem com o mundo nas sociedades complexas – mediadas pelos signos. Após a cura, e a conseqüente retomada da memória, a debilidade e fragilidade dessa relação revelou-se. A tentativa de definir e afirmar as coisas através das palavras mostrou-se quase ridícula e infantil. Restou a dúvida, que já atormentava os primeiros filósofos, de como o homem se relaciona com a realidade material que o rodeia.

  4. Murilo Says:

    Os dois textos se encontram ao destacarem a importância da relação entre o significante e o significado. Como disse em aula, acredito que essa necessidade de destacar o código e a função que regem as coisas são uma advertência de ambos autores sobre o intercâmbio cultural entre a América Latina e a Europa. Como se dissessem: “Meus compatriotas, o fluxo cultural entre nós e a elite letrada européia está se consolidando. Por favor, não esqueçam de suas raízes que lhes ensinaram a maneira CORRETA de utilizar e nomear o mundo.” A fim de que houvesse uma preservação da nossa essência. Acredito que os autores, ao verem-se portando o poder de fazer parte da elite letrada, sentiram-se na obrigação de metaforizar seus ideais.

    destacar essência

  5. Pedro Vinícius Says:

    “Sonhava que se levantava da cama, abria a porta e passava para outro quarto igual, com a mesma cama de cabeceira de ferro batido, a mesma poltrona de vime e o mesmo quadrinho da Virgem dos Remedios na parede do fundo. Desse quarto passava para outro exatamente igual, cuja porta abria para passar para outro exatamente igual, e em seguida para outro exatamente igual, até o infinito. Gostava de ir de quarto em quarto, como numa galeria de espelhos paralelos, até que Prudencio Aguilar lhe tocava o ombro. Então voltava de quarto em quarto, acordando para trás, percorrendo o caminho inverso, e encontrava Prudencio Aguilar no quarto da realidade. Uma noite, porém, duas semanas depois de o terem levado para a cama, Prudencio Aguilar tocou-lhe o ombro num quarto intermediário, e ele ficou ali para sempre, pensando que era o quarto real.”

    Um sonho bastante comum que eu tenho da repetição infinita como se fosse um jogo, mas que incomoda. E como se fosse uma revisitação a cada fase da vida do personagem, a sua história ligada a casa e as pessoas que ele vai se lembrando, também o modo como se desenvolve um livro, cada história é contada e depois vai voltando uma por uma e como as histórias da família parece se repetir. E ele morrer por estar no meio da trajetória na volta me lembrou a lenda que se você acordar uma pessoa sonâmbula no meio do seu passeio ela morre de susto. E por fim da vingança de Prudêncio Aguilar por uma imprudência sua.

  6. Grégory Says:

    Lendo até a página 118, pode-se encontrar na primeira parte do livro o peersonagem Riobaldo tecendo uma série de reflexões, principalmente sobre a questão Deus e Diabo. Na página 24: “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. Reconhece-se que o sertão é um local diferenciado, mas o mais importante é que ele (o sertão) promove uma série de reflexões. Entre as reflexões encontra-se a indagação se o diabo existe ou não. Riobaldo até afirma que a não existência do diabo deveria vir em forma de lei. Página 14: “Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem o definitivo a noção — proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim, davam tranqüilidade boa à gente. Por que o Governo não cuida?!”
    Por conta de todas essas reflexões, Riobal do por medo ou receio se diz ligado a todas religiões, página 25 “Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio”.

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