Aula 20b – Kai su, Rosa?

Curt Meyer-Clason recebeu um auxílio-tradução do Itamarati?

Pois é. Na última aula, falei de uma curiosidade roseana. Trata-se de um trecho da correspondência de João Guimarães Rosa que me incomoda. Talvez seja delírio meu. Mesmo que não for, em nada altera a importância literária dele. Mas acredito que o próprio receio que sentimos ao falar de temas como esse já demonstra o como a sacralização de qualquer escitor ou escritora pode acabar atrapalhando tanto a leitura quanto a própria tentativa de resgatar a biografia dele ou dela.

O escândalo está em uma carta escrita por Rosa em 23 de Abril de 1963 e publicada no livro João Guimarães Rosa: Correspondência com seu Tradutor Alemão, Curt Meyer-Clason. Na missiva, o escritor e embaixador diz a Meyer-Clason que esforçou-se “ao máximo” para conseguir uma bolsa do Itamaraty para ele – bolsa cujo recebimento dependeria de uma dedicação exclusiva à tradução de Grande Sertão: Veredas. Pelo contexto no qual a carta foi publicada, dá para deduzir que Meyer-Clason – um ótimo tradutor – empurrara o serviço com a barriga. Fizera apenas alguns trechos. E Rosa, depois de algumas reclamações mais sutis, por fim perde a paciência e escreve o seguinte:

Aqui, tive muito prazer em esforçar-me, ao máximo, para que o Departamento Cultural concedesse o pequeno auxílio financeiro do Itamaraty, justo e em boa hora alvitrado pelo nosso amigo Cônsul Mário Calábria; e, agora mesmo, procuro ver que não atrasem mais a sua remessa. Mas, devo confessar-lhe – e, no caso, rogo-lhe tomar a franqueza como homenagem e prova de estima sincera – só a apresentação de substanciais resultados, neste ano, dariam motivação, interesse e argumento para a renovação, para o ano próximo, desse estipêndio […]

O que esperamos, agora, entusiasmadamente, é que o amigo se atire de uma vez à tradução – com força, ímpeto, decisão e alegria de fazer. Mas, sobretudo, de uma maneira intensiva, exclusiva e concentrada – sem dispersar-se em outras traduções, laterais, parasitárias, de outros prosadores ou poetas, antes que a nossa se conclua. Perdoe-me o tom, mas, pessoalmente, humanamente, é mais que natural que eu tenha que querer pensar, primeiro, em resultados que se cifrem em traduções de Guimarães Rosa. E, dado tudo o que aí falamos, e nossa acertada orientação e boa amizade, não creio que seja esperar, não creio que seja esperar ou pedir demais.

Pode ser que eu esteja interpretando a passagem da forma errada. E, de certa forma, trata-se de uma grande bobagem. Um escritor brasileiro que morreu há mais de 40 anos usou dinheiro público para traduzir seu livro. E daí?

E daí que há uma ironia. Em entrevistas, Rosa tende a apresentar sua obra como uma conseqüência de sua vida. Até aí, tudo bem… é um discurso comum entre os escritores. Há, entretanto, uma verdadeira obsessão não em ler Rosa, o escritor de textos, mas em sacralizar Rosa, o redentor da identidade sertaneja. Há uma obsessão pelos detalhes de sua vida, por suas vacas, por seus valores, sua mística pessoal.

O resultado é que, confundindo biografia com bibliografia, acabamos transformando esse (fantástico) escritor no padroeiro da legitimidade cultural do país. Mais do que uma prática de leitura e deleite de textos, a crítica roseana se entrega a uma espécie de hagologia do intelectual orgânico. Rosa deixa de ser escritor. Vira profeta. Ou santo.

A bem da verdade, a vida pessoal de um escritor não tem nada a ver com sua obra. Mas a ironia surge do fato que essa mesma corrente critica mistificadora, que eu saiba, jamais abordou a “bobagem” acima. Abre a porta para a biografia quando a associa à obra, mas também administra o que diz sobre essa biografia.

*****

Qual é o ponto – o que pretendo com isso? Certamente não é delubiar João Guimarães Rosa. Até porque cara é meu escritor favorito e tem uma biografia admirável. O ponto é identificar um sintoma e demonstrar como há certos autores com os quais é preciso ter muito cuidado – autores como Rosa, Borges, Cervantes, García Márquez, Dante, Shakespeare, Cortazar, Goethe, Platão, William Blake. Por que? Porque não são autores. São muito mais do que isso. São ícones, monumentos culturais de uma dada tradição – monumentos cujo próprio peso dificulta a interpretação. Diante deles, a leitura míngua. É substituída pelo elogio, a santificação ou mesmo a reencenação.

Não é brincadeira. A retórica e o artifício de autores como Rosa e García Márquez são tão poderosos que qualquer leitor sente, em algum momento, o desejo de sair em busca de Macondo ou do sertão perdido. O que era ficção vira um paraíso perdido cultural e identitário. E tem gente que não se contenta com a fantasia. Entra no jipe e vai. Depois escreve livro sobre isso. Chamam-se, identificam-se com Riobaldo – coisa que eu próprio já fiz algumas vezes.

O problema é que, se Borges está correto, a boa leitura é por necessidade um ato subversivo. Pois encontra no texto uma riqueza que não necessariamente depende da própria intenção do autor.  Ela pode até começar com o autor. Mas em algum momento precisa se livrar dele. Pois é precisamente essa subversão que atualiza  o texto, que mata os ácaros e o torna – de novo – relevante. A alternativa é enclausurá-lo no Santo dos Santos, torna-lo inacessível.

Mesmo correndo o risco de ser trivial e especulativo, diria que isso foi feito com Cem anos de solidão e, especialmente, com Grande sertão: veredas, durante uns 25 anos – entre 1975 e 2000. Com algumas grande exceções, como O O de João Adolfo Hansen, houve poucas leituras ambiciosas de Guimarães Rosa no período. Coçando a cabeça para entender isso, encontro três explicações. Mas, a bem da verdade, não acho nenhuma delas muito convincente.

1) Após uns 20 anos (1956-1975) de leituras que abordavam temas como a natureza épica, os jogos filológicos, os tropos literários e a cosmo-visão do romance, as possibilidades de comentário e explicação textual esgotaram-se em meados dos anos 1970, gerando o que Arnold descreveria como uma “época de concentração”.

2) O início da abertura, nos anos 1970, levou a uma consolidação de uma visão de esquerda romântica que teria dificuldades em reconhecer que a mistificação e o artifício presentes tanto na idéia do “jagunço letrado” que narra quanto na transformação do sertão em uma categoria quase religiosa.

3) Após quase 20 anos de relativa liberdade, a critica acabou imobilizada pela publicação nos anos 1970 de dois textos que – impondo a voz autoral do escritor – acabou reduzindo a autonomia das leituras: a entrevista “Literatura deve ser vida” (1971) e a Correspondência com o tradutor italiano (1972).

Enfim… Ler é muito perigoso…

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2 Respostas to “Aula 20b – Kai su, Rosa?”

  1. Amanda Says:

    Adorei, pois usei para um trabalho de português!! Obrigada!

  2. Isolde Ohlbaum Says:

    I never gave you the right to use this photo. All rights are reserved.
    This is a copyright-photo!
    Please contact me immediately and remove this photo.
    Isolde Ohlbaum – photographer

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