Aula 21b – Sobre GSV

Um comentário sobre a importância do leitmotiv em Grande Sertão: Veredas.

A palavra leitmotiv (plural: leitmotive) vem do alemão: leit (recorrente ou condutor) + motiv (motivo ou tema). Designa uma frase, idéia, tema ou estrutura recorrente em uma obra – um mantra cuja repetição, longe de redundante, é acumulativa. E gera um efeito estético. Tanto Grande Sertão: Veredas quanto Cem Anos de Solidão têm leitmotive. No caso desse último, basta pensar no tema da memória.

Mas vou falar de Grande Sertão: Veredas. (A aqueles que estão lendo Cem Anos, prometo falar de GGM no futuro próximo). Lucas, em sua apresentação, menciona os cadernos em que o escritor brasileiro registrava os neologismos e regionalismos que encontrava em suas viagens. Vale dizer, entretanto, que ele também anotava diversos trechos de livros ou de estrangeiras que não tinham equivalente no Português.

Ou seja, Rosa era um bricoleur. Apropriava-se de tropos, passagens e termos diversos que então resignificava em suas  narrativas. Era um Menard. Eis alguns exemplos.

Viver é muito perigoso

Riobaldo usa a frase repetidamente, geralmente com outro leitmotiv – o de que “Contar é muito, muito dificultoso”. Qual é a origem da expressão? Há duas possibilidades. No início de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, a narradora diz o seguinte sobre Clarissa Dalloway:

She would not say of any one in the world now that they were this or were that.  She felt very young; at the same time unspeakably aged. She sliced like a knife through everything; at the same time was outside, looking on. She had a perpetual sense, as she watched the taxi cabs, of being out, out, far out to sea and alone; she always had the feeling that it was very, very dangerous to live even one day (6).

Mas não tenho certeza que Rosa tenha lido Mrs. Dalloway, especialmente uma vez que raramente cita Woolf entre suas influências. Por isso, o mais provável é que a passagem venha de Spirit and Reality, um livro  espiritualista do russo Nicolas Berdyaev traduzido para o Inglês em 1946. No exemplar de Rosa, a seguinte passagem está delicadamente sublinhada em tinta preta:

There is no sphere, however restricted or guarded, in which man would be justified in considering himself safe ans secure. The spritigual life is highly dangerous and full of risks (89).

O diabo na rua, no meio do redemunho

Esse vale uma dissertação. Mas só vai ganhar um resumo. No final de O Livro de Job, Deus aparece a um Job arrasado e pergunta:

Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da terra? Faze-mo saber, se tens entendimento. / Quem lhe fixou as medidas, se é que o sabes? ou quem a mediu com o cordel? / Sobre que foram firmadas as suas bases, ou quem lhe assentou a pedra de esquina, / quando juntas cantavam as estrelas da manhã, e todos os filhos de Deus bradavam de júbilo?  / Ou quem encerrou com portas o mar, quando este rompeu e saiu da madre; /  quando eu lhe pus nuvens por vestidura, e escuridão por faixas, / e lhe tracei limites, pondo-lhe portas e ferrolhos, / e lhe disse: Até aqui virás, porém não mais adiante; e aqui se quebrarão as tuas ondas orgulhosas? (38: 4-13).

Deus no turbilhão, por William Blake

Muita gente interpreta a passagem como uma ameaça na qual Deus diz: “Eu posso, tu não. Por isso, fique caladinho senão…” Deus seria assim uma espécie de pitboy ou pitlord que faz uma aposta com Satã (que no livro não é o inimigo de Deus, mas um integrante da corte celeste), deixa Job pagar a conta e depois ameaça acabar com o coitado quando ele reclama.

Não sei se é bem assim. Acho que há mais em jogo. Deus parece estar dizendo “Eu fiz esse cosmo que foge à sua compreensão e – agora que doeu – você vem me questionar”? Ou seja, o (ou a)  Criador(a) de todas as coisas diz do meio do turbilhão da vida que Job não tem como questionar Sua vontade porque não tem como sondar os seus desígnios. Nâo é uma ameaça; é uma teodicéia.

Mas, retornando ao turbilhão… quem está no meio dele é Deus. Satã está solto no mundo, pois recebeu permissão para ferir Job de tudo, menos de morte.

Mas eis que passam alguns milênios e um certo Johann Wolfgang von Goethe vem e muda tudo. E decide reescrever, como uma versão de Job, a popular lenda do doutor Johannes Georg Faust. Quem era esse Faust? Um mago e alqumista que teria vivido entre 1480 e 1540, sendo assim contemporâneo de Martinho Lutero.

O interessante é que Goethe, ao contrário do autor de Job, não coloca Deus no centro do redemoinho. Reserva esse espaço misterioso para um diabo que, chamado Mefistófeless, aparece ao mago pela primeira vez na forma de um poodle negro. Ou, como Fausto diz a seu familial, Wagner:

Vês como em largas espirais nos roda / E nos galopa perto e mais perto ainda à vista? / E, caso não me iluda, brilha- / lhe um borbulhão de fogo sobre a trilha.”

Goethe põe o diabo no meio do redemoinho.

Goethe põe o diabo no meio do redemoinho.

Isso parece um detalhe bobo. Mas acho relevante. Pois, ao colocar Mefistófeles no centro do redemoinho, Goethe distancia Deus da responsabilidade pela existência do mal. E, o que é mais importante, acaba transformando o diabo não tanto em um adversário de Deus (coisa que o Prólogo no Céu sugere que ele não é) quanto em uma misteriosa força cósmica que busca negar a criação.

O interessante é que Goethe abre o caminho para Rosa ao transformar o pactário não  em um exemplo de como não comportar-se, mas em uma alegoria do homem moderno. E trata-se de uma alegoria que, apesar das muitas falhas que admite no “pactário” (a rigor, não há pacto em Goethe; há uma aposta), faz um elogio ao mesmo. Mas do que um amor pelo mal, o homem moderno seria caracterizado por uma inquietude, um desejo de superação. (Rosa, como veremos, transformará essa inquietude em um desejo de certeza epistemológica.)

Como dizia um professor meu obcecado pelos Rolling Stones, a canção de Fausto não é em Goethe Sympathy for the Devil. É  I Can’t Get no Satisfaction.

De certa forma, o Fausto de Goethe é soterológico. É um tipo de Cristo.  Recentemente, um estudioso encontrou um significado escandaloso em um detalhe aparentemente estúpido do texto. Qual detalhe? O nome de Fausto. Nas obras anteriores, é Johann. Mas Goethe, por algum motivo, modou o nome para Heinrich.

E daí?

E daí que é só olhar para o nome:

Heinrich

Não deu para ver? Tudo bem. Para mim, também demorou. Tente de novo. Tem Cristo bem no meio no nome, juro:


Heinrich

Ainda não?  Que tal assim:

He INRI ch

Goethe é genial.

Depois, termino esse post.

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3 Respostas to “Aula 21b – Sobre GSV”

  1. Lucas Says:

    Vou deixar aqui o meu comentário para a aula de hoje.

    O trecho que selecionei é este:

    Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção (GSV: 116).

    Este trecho, creio eu, expressa:
    1) a situação narrativa de Grande Sertão: Veredas – o monopólio da fala por parte de Riobaldo e a recorrente cortesia pelo interesse de seu interlocutor em o escutar;

    2) a ambivalência, dissimulação e ironia na fala de Riobaldo;

    3) a idéia de Sertão enquanto um devir, um espaço moral que conforma o ser humano, mas não é fixo, fechado, pelo contrário, gera muitas dúvidas quanto a sua definição. Saber definí-lo é coisa pra raros. Temos aqui um Rosa falando para o mundo o que eles jamais saberiam?;

    4) é o primeiro trecho que registrei no texto com a palavra “veredas”, e, de pronto, à frente, aparece, num tom ambíguo, a palavra “veredazinhas”, em oposição a “grande sertão”!

  2. 04/34191 Says:

    “Jagunço é isso. Jagunço não se escabrêia com perda nem derrota – quase que tudo pra ele é o igual. Nunca vi. Para ele a vida já está assentada: comer, beber, apreciar mulher, brigar e o fim fatal.” (GSV: 72)

    Interessante analisar este trecho a partir do que o Andrei menciona da dificuldade de se contar. Aparentemente, ela se opõe a uma certa facilidade em se definir. Tensões entre o indivíduo e sua categoria socialmente manifesta aparecem com clareza neste trecho. Como lidar com esse desconforto? Seria isso a expressão da desconexão entre a lei (no sentido da normatividade do ser) e a constituição do indivíduo mesmo? Teria Riobaldo, ao pactuar com demônio, procurado em verdade solucionar este dilema? Desculpe, mas as coisas ainda parecem obscuras para mim.

  3. Grégory Says:

    Na página 130 “o amor assim pode vir do demo? Poderá?! Pode vir de um-que-não-existe?” esse ponto do livro permite questionar se existe vinculação entre a relação Riobaldo e diabo, com os sentimento de Riobaldo por Diadorim. Esse amor por um jagunço soa como algo probibido, com se não pudesse existir. Da mesma forma, temos os questionamentos sobre a existência ou não do diabo. A obra de Guimarães pode ser lida com foco em uma obra que trata de um pacto com o diabo, ou com uma obra que fala de amor, as duas situações parecem caminhar juntas, tanto o amor proibido como o pacto.

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