Aula 21c – Sobre Cem Anos

Cem Anos de Solidão narra a decadente história dos Buendía – família cujo patriarca, José Arcádio Buendía, funda Macondo. A cronologia do romance não é das mais claras, mas os eventos narrados começam por volta de 1820 e terminam por volta de 1920.

Um dos principais problemas na hora de ler Cem Anos é se manter a par de quem é quem. São, afinal, sete gerações dos Buendía – mais duas que antecedem a José Arcadío Buendía e Úrsula Iguarán. Ou seja, temos nove gerações no total. Não sou muito fã da Wikipedia. Mas a tabela abaixo pode ajudar quem estiver perdido. (Se fizer clique, ela amplia.)

De qualquer forma, trata-se de um texto mitopoético – para abusar de um jargão já gasto pela crítica literária. O que  quer dizer? Fundamentalmente, que trata-se de um texto que inventa ou cria um mito – nesse caso, o vilarejo (e depois a cidade) de Macondo.

Mas há um tom de ironia nesse projeto. Macondo é uma utopia absurda cujo próprio surgimento é paródico. Fundada por um patriarca que busca escapar de seus fantasmas, um Moisés dos trópicos que funda a cidade após meses em busca de “la tierra que nadie les había prometido” (35), é uma Universópolis acidental, mesmo que inicialmente perfeita.

Aliás, os paralelos entre a Macondo de Cem Anos de Solidão e a cidade prometida por Vasconcelos não ficam por aí. O próprio José Arcádio Buendía parece, por exemplo, compartilhar a idéia (absurda) do mexicano segundo a qual a única coisa que faltaria para realizar a utopia tropical seria… o ar refrigerado. Olha esse trecho:

José Arcádio Buendía no logro descifrar el sueño de las casas con paredes de espejo hasta el día en que conoció el Hielo. Entonces creyó entender su profundo significado. Pensó que en un futuro próximo podrían fabricarse bloques de hielo en gran escala, a partir de un material tan cotidiano como el agua, y construir con ellos las nuevas casas de la aldea. Macondo dejaría de ser un lugar ardiente, cuyas bisagras y aldabas se torcían de calor, para convertirse en una ciudad invernal (36).

O trecho é fascinante não apenas pelo absurdo do sonho de José Arcádio Buendía – mas por parodiar o caráter redutor de todas as explicações do subdesenvolvimento que encontramos até agora. É a versão colombiana do “pouca saúde e muita saúva os males do Brasil são”, de Mário de Andrade.

O que mais me fascina no texto, entretanto, é a historiografia maluca que ele apresenta. Tem a forma de um romance histórico. Mas o tempo presente – em cada momento da narrativa – jamais é contemporâneo consigo mesmo. É sempre contaminado pelo passado (representado pelos fantasmas), pelo embate entre memória e esquecimento e pela incapacidade de assimilar a modernidade – incapacidade manifesta nas diversas incursões malfadadas de José Arcádio nas ciências.

Não deixa de ser, portanto, sintomático que a frase “muitos anos depois” repita-se tantas vezes no romance – sendo quase sempre seguida de um verbo que denota alguma forma de pensamento, como “lembrou” ou “compreendeu”.

Vou parar agora porque são 5h e tanto Gabriela quanto Pedro discutirão o texto nas próximas semanas. Mas antes, gostaria de listar alguns temas interessantes:

Incesto. O antropólogo Claude Lévi-Strauss enfatiza a universalidade do tabu do incesto. Ainda que as proibições específicas variem de lugar a lugar, ele nos lembra que toda sociedade impõe alguma limitação ao comportamento sexual como forma de preservar as relações de diferença que tornam possível a vida em sociedade. As proibições permitem que cada um saiba exatamente quem é – mantendo apenas um laço familiar entre quaisquer dois indivíduos. De que, então, o incesto seria alegoria no livro? Ele teria alguma relação – por exemplo – com a doença do sono que Gabriela mencionou?

Gênero. O boom tem sido criticado pelo feminismo em função de seu suposto machismo. E, de fato, há poucos personagens femininos interessantes e fortes na literatura da época. Talvez haja apenas quatro: Susana San-Juan, de Pedro Páramo; Úrsula Iguarán, de Cem Anos; Diadorim, de GSV; e a Maga, de Rayuella. Já os homens masculinos abundam. Comentários?

3 Respostas to “Aula 21c – Sobre Cem Anos”

  1. 09/49051 Says:

    O trecho que me chamou atenção está no último capítulo para a aula de hoje. Trata-se de uma conversa entre o Coronel Gerineldo Márquez e o Coronel Aureliano Buendía:

    “ – Diga uma coisa, compadre: por que você está brigando?
    _ Porque há de ser, compadre – respondeu o Coronel Gerineldo Márquez – pelo grande Partido Liberal.
    – Feliz é você que sabe disso – respondeu ele. – Eu, de minha parte, só agora percebo que estou brigando por orgulho.
    – Isso é ruim – disse o Coronel Gerineldo Márquez.
    O coronel Aureliano Buendía se divertiu com o seu sobressalto. ‘Naturalmente’, disse. “Mas em todo caso, é melhor isso que não saber por que se briga.”

    Esse diálogo entre uns dos principais cabeças da revolução liberal sintetiza a forma artificial como as ideologias conservadoras e liberais se instalaram entre eles e provocou uma guerra que foge às premissas das ideologias. É o exemplo extremo do que Schwarz considera como duplo afastamento da ideologia às realidades latino-americanas, em que “O teste da realidade não parecia importante”. E de fato, a ideologia liberal verdadeira pouco tinha a ver com os motivos que provocaram a guerra entre os habitantes de Macondo, que foram motivados pela paixão revolucionária natural do jovem, por uma retaliação à corrupção do delegado – representante dos conservadores – e… pela pregação do amor livre! Nenhum desses motivos oprimia a população de fato, nenhum deles gritava por uma revolução que mudasse profundamente as estruturas de Macondo e permitisse o livre desenvolvimento de esferas sociais oprimidas. Tudo corria bem, e os problemas existentes não clamavam por valores liberais. Apesar disso, a suposta defesa da ideologia liberal levou a conseqüências extremas.

  2. Murilo Says:

    Interessante notar que o narrador, ao descrever-nos a conquista do ambiente de Macondo, incorpora o espírito heróico de José Arcádio e sua trupe. Além disso, apresenta ao leitor a esfera mágica que os habitantes poliam sobre a história da fundação e das áreas vizinhas de Macondo: “Os bichos depois eram remendados, recheados de palha e depois mandado para a Rainha Elizabeth”; “… naquele paraíso de umidade e silêncio, anterior ao pecado original, onde as botas se afundavam em poças de óleos fumegantes e os facões destroçavam lírios sangrentos e salamandras douradas”. E a melhor parte: “dormiram profundamente pela primeira vez em duas semanas”.
    Uma suposição: José Arcádio via magia em tudo o que vinha de fora, do exterior, do desconhecido. Porém os fantásticos acontecimentos que ocorriam dentro da própria casa eram ignorados por ele, como se tudo o que possuísse a mesma essência que ele, não merecesse destaque. José só começa a reparar nas maravilhas conterrâneas quando sua mulher o chama a atenção quanto às estranhas atitudes de seus filhos, como a previsão de Aurélio ao anunciar o derramamento do caldo fervente. Assim, podemos associar o texto ao “Complexo de Vira-latas” do Nelson Rodrigues, na medida em que nos rebaixamos a meros coadjuvantes e não nos atribuímos qualidades superiores ou eqüipotentes ao internacional.

  3. ivette Says:

    o que não entendi muito bem é quem é o Sir Francis Drake, o livro diz que ele y seus homens, com mulheres, crianças e animais atravessavam a serra procurando uma saida para o mar, logo desistiram e fundaram Macondo, no inicio achei que poderia ser Aureliano Buendia, o avô de Jose Arcadio Buendia, mas depois fala que o proprio Jose Arcadio Buendia foi quem fundo Macondo.
    Tambem fala-se muito do Aureliano Buendia como se ele fosse o protagonista, e a historia fica um pouco confusa, começa falando de Jose Arcadio Buendia y de repente se fala de Aureliano, por exemplo:
    ” Mas nunca encontraram o mar. Certa noite, depois de andarem varios meses perdidos entre os charcos, já lonje dos ultimos indios que haviam encontrado no caminho, acamparam ás margens de um rio pedregoso cujas águas pareciam uma torrente de vidro gelado.”
    Aqui o autor estava falando de Jose Arcadio Buendia y de repente começa falando de Aureliano Buendia:
    ” Anos depois, durante a segunda guerra civil, o coronel Aureliano Buendia tentou seguir aquela mesma rota para apanhar Riochacha de surpresa…”
    o Aureliano Buendia nãi era o avô?
    tem outros exeplos como esse que eu fiquei um pouco confusa, mas pelo resto gostei muito, Adorei a parte onde a Ursula y Jose Arcadio Buendia viam o fantasma de Prudencio Aguilar.
    Tambem gostei do romance de o filho mias velho de Jose Arcadio Buendia e a moça que lia o futuro nas cartas.

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