Aula 22a – Carpentier

América está muy lejos de haber agotado su caudal de mitologías. ¿Pero qué es la historia de América toda sino una crónica de lo real-maravilloso?

Mesmo continuando com Grande Sertão: Veredas (1956) e Cem Anos de Solidão (1967), pausaremos nessa terça para discutir “De lo real maravilloso americano”, de Alejo Carpentier. Um dos mais influentes ensaios sobre a literatura latino-americana do XX, o texto serviu originalmente como prefácio do romance El Reino de este Mundo (1949). Depois, foi ampliado e reeditado na coletânea de ensaios Tientos y Diferencias (1964).

Antes do ensaio, entretanto, vale apresentar o autor.

Filho de uma professora de idiomas russa e um arquiteto francês, Alejo Carpentier y Valmont (1904-1980) foi um dos melhores escritores surgidos na Cuba do século XX. É uma posição honrosa visto que a pequena ilha produziu uma legião de bons ou ótimos escritores – legião que ostenta em suas  fileiras autores como José Lezama Lima (1910-1976), Virgílio Piñera (1912-1979), Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), Severo Sarduy (1937-1993), Reinaldo Arenas (1943-1990).

Educado entre a França e Havana, Carpentier foi um dos fundadores do Partido Comunista Cubano. Em 1928, fugiu para Paris, onde conheceu diversos líderes da vanguarda literárias francesa, como o escritor surrealista André Breton e o dramaturgo insano Antonin Artaud. Após retornar a Cuba brevemente no final da década de 1930, viveu em Caracas entre 1945 e 1959.

Mesclando a ênfase surrealista no irracional e no inconsciente com o discurso indireto livre, Carpentier aperfeiçoou no período uma prosa quase… antropológica. Seus textos enfatizam não os fatos em si, mas a forma como estes são percebidos pelos personagens – sejam eles indivíduos ou  multidões. O resultado foram dois romances primorosos:

  • El Reino de este Mundo narra a luta pela independência haitiana – da revolta vodu-quilombola liderada por Françoise Mackandal (????-1758) à morte de Henri Cristophe (1767-1820), líder despótico que escravizou o norte do país após a independência. Essa história, entretanto, é narrada do ponto de vista de um personagem fascinante: Ti Noel, um camponês simples que interpreta os eventos que vê (e a dor que sente) através de um registro animista e maravilhoso do vodu.
  • Los Passos Perdidos é um road movie. Ou melhor, é um river book. Conta a história de um anônimo compositor nova-iorquino que decide explorar as selvas de um país tropical (implicitamente, a Venezuela) em busca de instrumentos musicais indígenas. No inverso de uma busca pelo graal, revive a própria história Latino-americana e descobre uma aldeia fora do tempo.

De qualquer forma, Carpentier acabou retornando a sua terra natal após a queda de Fulgencio Batista e a ascensão de Fidel Castro. Depois de dirigir a Imprensa Nacional cubana, virou uma espécie de porta-voz cultural do regime cubano, radicando-se em Paris até morrer em  24 de abril de 1980, nove dias após seu amigo, Jean Paul Sartre.

REGIONALISMO

A ironia é que, apesar da relação íntima que manteve como o regime cubano, Carpentier sempre teve ressalvas quanto ao regionalismo engajado. Para ele, o projeto literário do romance regional apresentava duas deficiências insuperáveis. A primeira era o fato de que, apesar de abordar temas locais e conter descrições originais, o próprio romance regionalista era uma importação. Sua inspiração era o livro Le Roman Experimental, um manual do escritor naturalista publicado por Emile Zola em 1880. Como Carpentier diz no ensaio “Problemática de la actual novela latinoamericana”:

En cuanto a nuestro copioso “nativismo”, aún vigente en ciertos sectores retardados de la literatura continental – “nativismo” que, con su descripción de ambientes y paisajes poco explorados por la literatura cobro momentáneos visos de originalidad – debemos admitir que sus mecanismos eran muy poco originales, respondiendo a una tendencia, una onda, que mucho se hacía sentir en Europa desde hacía algunos años (14-15).

Já a segunda deficiência do método naturalista de Zola seria a falsa representação. Para Carpentier, o regionalismo atribuía demasiado “poder de asimilación y entendimiento” ao escritor urbano, supondo que seria capaz de entender uma realidade que testemunhou por um tempo limitado. Fracassava não por impor à arte um propósito científico, deixando a estética de lado, mas pelo diletantismo de achar que alguns meses bastam para entender uma região. Ou seja,  ainda que discorde de sua aplicação pelo naturalismo, o cubano preserva o mito da arte científica.  Percebe no romance uma função não estética, mas epistemológica:

La función cabal de novelística consiste en violar constantemente el principio ingenuo de ser relato destinado a causar “placer estético a los lectores”, para hacerse un instrumento de indagación, un modo de conocimiento de hombres e de épocas – modo de conocimiento que rebasa, en muchos casos, las intenciones de su autor (13).

É interessante ressaltar que as objeções do comunista Carpentier ao regionalismo assemelham-se às do conservador Borges – e até à crítica que Guimarães Rosa faz à literatura engajada.

Em parte, o motivo é estético: apesar de ter gerado bons escritores no Brasil (como Érico Veríssimo, Graciliano Ramos e José Lins do Rego), o regionalismo foi uma catástrofe na maior parte da América Latina. Ainda nos anos 1950, já estava claro que mudar era preciso.

Mas houve também um fator mercadológico. Comunistas ou conservadores, Borges, Carpentier e Rosa  integram a primeira geração de escritores latino-americanos com real penetração na Europa. Não por acidente, todos defenderam uma literatura que destilasse a universalidade latente nos cotidianos do continente sem, entretanto, ignorar suas particularidades geográficas, culturais e lingüísticas.

El método naturalista-nativista-tipicista-vernacular aplicado, durante más de treinta años, a la elaboración de la novela latinoamericana nos ha dado una novelística regional y pintoresca que en muy pocos casos ha llegado a lo hondo – a lo realmente trascendental – de las cosas. No es pintando a un llanero venezolano, un indio mexicano (cuya vida no se ha compartido en el cotidiano, además) como debe cumplir el novelista nuestro su tarea, sino mostrándonos lo que de universal, relacionado con el amplio mundo, pueda hallarse en las gentes nuestras (16).


POSTS

De qualquer forma, como a aula de amanhã abrange Grande Sertão, Cem Anos e “De lo real maravilloso americano”, postem sobre qualquer tema. Pessoalmente, estou interessado em explorar a aplicabilidade do que Carpentier diz aos livros de JGR e GGM. Perguntas a considerar são:

1) Por que Carpentier enfatiza tanto sua falta de “entendimiento” diante da China, do Islã e – de certa forma – até da Rússia? O que está dizendo sobre sua função de mediador cultural?

2) Na quarta secção do artigo, Carpentier menciona Praga. Qual é a importância dessa cidade? Que fama ela teve entre o século XVI e o XVIII? Qual grande escritor judeu do século XX nasceu lá? O que isso importa para o argumento de “de lo real maravilloso americano”?

3) Já no final do texto, Carpentier fala do Haiti. Por que? O que, segundo ele, pode ser encontrado em abundância na miserável ilha caribenha, mas falta na Europa – tornando a literatura fantástica européia necessariamente artificial?

4) O que Carpentier tem a ver com GGM e JGR?

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5 Respostas to “Aula 22a – Carpentier”

  1. Lucas Says:

    Uma coisa que me intrigou em GSV foi a ambiguidade de Riobaldo. Quando mais eu lia, mais eu percebia que dissimulação e sabedoria andavam juntas. Demorei a perceber isso até a pág 200. É que enquanto lia o livro, prepava minha apresentação. Estava por volta da pág. 200, quando li, num texto do Antônio Cândido, que Riobaldo era um personagem extremamente dissimulado. Fiquei um pouco encabulado, não nego. Percebi que estava lendo o livro com muita inocência e um certo paternalismo. Fui lendo para frente com mais dissimulação…! Pra frente, marcava constantemente o contraponto que o próprio Riobaldo fazia com o seu interlocultor. Sua sabedoria e sua biografia, muitas vezes, são colocadas pelo protagonista como concorrentes com as idéias que espera tirar deste suposto sujeito do saber, o senhor-doutor-sábio-interessado. Mas, não posso negar, certos trechos são uma espécie de leitura de nós mesmos… tocaram o peito.

    “O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos? [repare a interrogação] – desespero é bom que vire a maior tristeza, constante então para o um amor – quanta saudade… – [repare a resposta já dada, e pautada na bigorafia deste velho amador…]; aí, outra esperança já vem… Mas, a brasinha de tudo, é só o mesmo carvão só. Invenção minha, que tiro por tino. Ah, o que eu prezava de ter era essa instrução do senhor, que dá rumo de estudar dessas matérias…” [por fim, ao mesmo tempo, estaria Riobaldo ironizando a sabedoria alheia e ou profetizando ela?] (GSV:248)

    “Vida, e guerra, é o que é: esses tontos movimentos, só o contrário do que assim não seja. Mas, para mim, o que vale é o que está por baixo ou por cima – o que parece longe e está perto, ou o que está perto e parece longe [repare o auto-paroxismo]. Conto ao senhor é o que eu sei e o senhor não sabe [há aqui uma espécie de confidência dentro da confidência?]; mas principal quero contar é o que eu não sei se sei, e que pode ser que o senhor saiba. Agora, o senhor exigindo querendo, está aqui que eu sirvo forte narração – dou o tampante, e o que for – de trinta combates. Tenho lembrança. [ há na fala de Riobaldo uma certa soberania da biografia em constraste com a erudição do interlocutor?]” (GSV: 245)

    “Que isso foi o que sempre me invocou, o senho sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e dou outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados…. Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…” [Sem palavras…] (GSV: 237)

  2. 04/34191 Says:

    Também com relação ao convite ao diálogo por parte de Riobaldo, destaco um trecho da página 98:

    “Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor é homem de pensar o dos outros como sendo o seu (denúncia?), não é criatura de pôr denúncia. E meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. (…) A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. O senhor é bondoso em me ouvir. (…)” (GSV: 98/99).

    Dois momentos se destacam nesse trecho, e reverberam por todo livro. Riobaldo constantemente evoca sua posição intelectualmente inferior, sobretudo com relação ao leitor, letrado. No entanto, não se permite compreender por completo, e abusa de referências que o recolocam numa posição de fala superior. Essas referências, a bem da verdade, não estão conectadas ao universo de seu interlocutor, mas elas restituem uma certa isonomia desses dois atores. Neste trecho específico, Riobaldo ataca ao mencionar a apropriação do pensamento alheio pelo leitor. Dissimula, contudo, ao assumir a imprecisão de sua narrativa. A tensão entre as posições de fala repercute por todo o texto, mas me parece que este é um dos parágrafos onde ela mais se manifesta.

  3. Kaio Says:

    1. Carpentier, como se discutiu na aula de hoje, aponta para uma curiosa situação: enquanto, na Europa, o grotesco e absurdo, representados pela arte abstrata e o realismo mágico, são “pura afetação”, um exercício estético – enfim, um gênero literário -, na América Latina isso é algo cotidiano, parte da realidade.
    Em outras palavras, a partir de seu itinerário Oriente -> Ocidente, abstrato -> representativo, o autor chega à conclusão de que o centro-sul da América é o espaço em que o peculiar e o excêntrico desenvolvem-se amplamente, seja para bem ou, principalmente, para mal. Não por acaso, muito do que é exótico para o imaginário europeu, como processos de independência tumultuados e cheios de reviravoltas surpreendentemente tensas ou conciliatórias, não é fora da realidade latino-americana. Logo, a literatura mais ligada ao místico, ao sobrenatural certamente teria um tom muito menos ‘alternativo’ por aqui do que no Velho Mundo, a ponto de gerar um boom literário como o das décadas de 1950 e 60.

    2. Quanto a “Grande Sertão: Veredas”, algo que me intrigou muito nas últimas 50 páginas que li (193 a 246) foi a profunda ambiguidade com que Riobaldo lidou não só com os personagens que relatou, como também a sua própria relação com a fala. É como se ele permeasse seu discurso com um tom de dúvida (deliberada ou não) constante, frequentemente recorrendo ao sobrenatural (inclusive o Diabo) para explicitar – ou mesmo aguçar – esse caráter ambivalente de sua narrativa.
    Tomemos como exemplo a maneira como ele lida com Hermógenes. Se, por um lado, ele sempre afirme que nutre desconfiança e temor quanto ao que este jagunço pode fazer, por outro há respeito, medo e até profunda admiração, a ponto de ele praticamente considerá-lo como alguém legitimamente acima dele, a despeito de sua conduta misteriosa.
    O relacionamento dele com o não menos enigmático Diadorim é outro aspecto interessante. Embora tente afastar de si o desejo (inclusive carnal) que sente por ele (ou ela, se levarmos em conta o “spoiler” da aula de hoje), como quando tenta esnobar o ciúme que este sentia quando Riobaldo se envolvia com outras mulheres (até mesmo Otacília), por outro o protagonista de GSV mal consegue passar três páginas – ou qualquer relato que faça sobre qualquer assunto – sem fazer menção ao seu principal companheiro (a) durante a saga pelo Sertão. Sua divagação quando Diadorim volta, após se machucar em batalha e viajar sozinho por alguns dias, é um clara reflexo dessa intensa relação.

  4. Grégory Says:

    Zé Bebelo é um personagem importante que Riobaldo admira. Na página 221, Riobaldo relembra um conselho dado por Zé Bebelo. O conselho diz respeito ao sentimento de raiva, ódio. Nele é dito que deve-se evitar ter raiva, pode-se fingir que tem raiva. Mas quando se tem raiva de alguém, essa pessoa passa a dominar os sentimentos e as idéias próprias. “Porque, quan¬do se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governan¬do a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é”
    Zé bebelo parece uma figura que consegue influenciar Riobaldo para que este pense enquanto uma pessoas que cultive valores como não ter sentimento de raiva, e de evitar julgar as pessoas. Na página 251, Riobaldo fala sobre julgamento, e ele atenta um valor importante, que no julgamento, julga-se coisas passadas, o que do julgamento algo defeituoso. “. Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. ”
    Zé Bebelo é importante na formação de valores em Riobaldo.

  5. Pedro Says:

    Carpentier cita diversas culturas em seu texto destacando o que mais chamou sua atenção nos lugares que visitou e as impressões que teve sobre as artes, para depois falar que por mais que goste e se impressione não compreende perfeitamente, pois levaria uma vida inteira para descobrir exatamente todos os significados dessas artes e apenas uma parte das culturas.Mostra Praga como uma cidade que sofreu diversas influencias de formas totalmente diversas e como essa multiplicidade cultural convive lado a lado, o real e o fantástico se tornaram vizinhos, cada um vindo de um lugar. Fala de como as sugestões européias do fantástico que lá soam ridículas ganham sentido na América Latina, pois aqui fazem parte do cotidiano e como é natural a nós, eis, portanto, a diferença do fantástico que produzimos aqui pelo produzido lá que nada mais é que fantasia.

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