Aula 22b – Sobre GGM

Segue a apresentação de Gabriela sobre Gabo.

Gabriel García Márquez, ou Gabo, para os íntimos

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GGM não terminou o curso de Jornalismo.

Aluno relapso de direito, jornalista apaixonado, ativista político de esquerda, crítico de cinema e, finalmente, escritor consagrado com um Nobel, Gabriel García Márquez nasceu em Aracata, um povoado da zona bananeira da Colômbia, no dia 6 de março de 1927. Lá viveu com seus avós maternos até os oito anos de idade, quando a morte alcançou seu avô, coronel da guerra civil e principal ícone de sua infância e vida.

Enclausurou-se no estudo em colégios internos em Barranquilla e Zipaquirá. Iniciou o curso de Direito por pressão familiar, mas logo o abandonou para dedicar-se ao jornalismo. Não se graduou. Iniciou sua atividade jornalística como colunista de um pequeno e jovem jornal, “El Universal”. Seus primeiros contos, “La Tercera Resignación” e “Eva Está Dentro de su Gato”, foram publicados no fim da década de 40.

Sua carreira no jornalismo ganhou solidez quando ingressou no jornal “El Espectador”, onde foi o primeiro jornalista colombiano a dedicar-se à crítica de cinema. Tornou-se um respeitado crítico, cronista e repórter cuja influência atingia toda a Colômbia.

Em 1955, publicou “Relato de um Náufrago”, uma reconstrução jornalística com mais de 100 páginas que desagradou o então governante colombiano, o general Roja Pinillas. Logo depois, tornou-se correspondente internacional e foi morar em Roma. Trabalhou em Caracas, em Cuba e em Nova York ao longo dos últimos anos da década 1950. Em Nova York, dirigiu uma agência cubana de notícias, a Prensa Latina. Isso em plena Guerra Fria

Mudou-se para a Cidade do México e começou a se dedicar a uma nova atividade: escrever roteiros para cinema. “Ninguém Escreve ao Coronel” foi publicado em 1961 e gravado em 1999 por Arturo Ripstein. Em 1962, publicou “O Veneno da Madrugada”, que ganhou o Prêmio Esso de Literatura Colombiana, primeiro premio literário de García Márquez.

so happy together

García Márquez e Castro: so happy together

Em uma arrombo de inspiração, em 1966, abandonou o emprego, relegou à sua esposa, Mercedes Barcha, o sustento de seus dois filhos e dedicou-se durante dezoito meses a escrever Cem Anos de Solidão. Livro cuja estória e cujos personagens já habitavam sua mente inspirados em sua infância em Aracata. Desde a primeira edição, em 1967, Cem Anos de Solidão já vendeu aproximadamente 30 milhões de exemplares, com versões em 35 línguas. Foi um dos maiores impulsos, senão o maior, do “boom” literário da América Latina e da difusão da literatura latina no mundo.

GGM mudou-se para Barcelona em 1975. E ficou por lá até 1981, quando voltou para a Colômbia. Contudo, foi obrigado a exilar-se no México devido seu suposto envolvimento com a guerrilha. Com o evento, tanto sua produção jornalística quanto literária não pararam.

No dia 21 de outubro de 1982 recebeu da Academia Sueca o Prêmio Nobel de Literatura. Em seu discurso, “A Solidão da América Latina”, falou da desatenção da Europa e dos demais países à realidade latina e dos estereótipos atribuídos aos latinos.

Em 1999, passou a dirigir a revista “Cambio”. Em 2002, publicou o primeiro volume de sua autobiografia, Viver Para Contá-la. Seu último romance, Memórias de Minhas Putas Tristes, foi publicado em 2004. Há rumores do lançamento de um novo livro em um futuro próximo, acredita-se que o nome será Em Agosto Nos Vemos.

Quando biografia e o obra se misturam

Sobre Cem Anos de Solidão, Gabriel García Marquez afirma:

Cem Anos de Solidão muitas vezes parece uma reunião literariamente articulada de lembranças e memórias do autor. O enredo, as histórias e os personagens estão carregados das memórias da infância de García Márquez na casa de seus avós em Aracata.

Quise dejar constancia poética del mundo de mi infancia, que transcurrió en un casa grande, muy triste, con una hermana que comía tierra y una abuela que adivinaba el porvenir, y numerosos parientes de nombres iguales que nunca hicieron mucha distinción entre la felicidad y la demencia.

Na frase acima, já notamos a relação profunda entre a realidade e a ficção – a repetição dos nomes, a linha tênue que separa a felicidade da loucura. A grande casa dos Buendía, onde independente do número de moradores sobrava espaço para a solidão. Sobre a casa de seus avós, García Márquez disse:

En cada rincón había muertos y memorias, y después de las seis de la tarde la casa era intransitable. Era un mundo prodigioso de terror (…) En esa casa había un cuarto desocupado donde había muerto la tía Petra. Había un cuarto donde había muerto el tío Lázaro. Entonces, de noche no se podía caminar en esa casa porque había más muertos que vivos.

O hábito de comer terra da irmã, torna-se, no livro, de Rebeca, a misteriosa garotinha adotada pelos Buendía que carregava consigo um saco com os ossos de seus pais e a peste da insônia e que manteve-se misteriosa e incompreensível em toda a narrativa.

A fogosa Pilar Ternera é capaz de adivinhar o futuro, habilidade da avó de García Márquez, Úrsula Tranquilina – avó cujo próprio nome serviu de inspiração para a personagem Úrsula Iguarán. Tanto a Úrsula da realidade quanto a da ficção morreram cegas e loucas após uma existência forte e determinante. Sobre sua avó, García Márquez disse:

Un caso ejemplar de la mater familias, matriarca medieval, emperadora del hogar, hacendosa y enérgica, prolífica, de temible sentido común, insobornable ante la adversidad, que organiza férreamente la vida familiar a la que sirve de aglutinante y vértice.

Úrsula Iguarán em um retrato de autor desconhecido

Úrsula Iguarán, segundo um autor anônimo

A descrição é perfeita para Úrsula Iguarán, a matriarca de Cem Anos de Solidão. Assim como a avó, o avô de Gabriel García Marquez, Nicolás Marquez, tem sua história contada através dos personagens da ficção. Nicolás participou da fundação de Aracata, o motivo de sua migração para o novo povoado foi um assassinato que cometera quando jovem em nome de sua honra. “Tú no sabes como pesa un muerto“, sempre dizia Nicolás a GGM, frase e história repetidas por José Arcádio Buendía na ficção.

Nicolás Marquez não inspirou apenas a criação e a estória de José Arcádio Buendia.Assim como coronel Aureliano Buendía, participou das guerras civis e teve vários filhos no campo de batalha. Há ainda as semelhanças entre Aracata e Macondo; a fundação recente, o isolamento, as plantações de banana, a influência de estrangeiros…. Características que concederam à cidade fictícia e aos seus conflitos o ‘status’ de alegoria da América Latina.

O Nobel e o discurso

Gabriel García Márquez recebeu o Prêmio Nobel, segundo a Academia Sueca, “pelos romances e contos nos quais o fantástico e o real se combinam num universo comodamente composto de imaginação que reflete a vida e os conflitos do continente americano”. O inovador e tocante realismo mágico e a representação alegórica da história latino-americana colocaram García Márquez na frente da disputa pelo Nobel de grandes escritores como o inglês Graham Greene e o alemão Günther Grass.

O recebimento do Prêmio por Gárcia Márquez é visto como o reconhecimento e a valorização mundial da literatura latino-americana. Cem Anos de Solidão teria colocado no mapa a literatura latino-americana em língua castelhana. Consagração de uma língua e de um povo esquecido.

GGM recebeu o prêmio com músicas de Vallenar, no norte da Colômbia, e vestindo o “liqui liqui”, um traje branco e tradicional do Caribe. No discurso, “A Solidão da América Latina”, disse: “Frente à opressão, ao saque e ao abandono, a nossa resposta é a vida”. Tornou-se a voz letrada da América da Latina que atingiria todo o mundo.

Apesar do traje, da música e do título do discurso, o discurso – que pode ser acessado aqui – levou pouco da América Latina para o mundo. O discurso possui algumas incoerências sutis, outras nem tanto. Márquez critica os estereótipos que deturpam a imagem dos latinos nos olhos europeus, contudo, conta uma história quase pitoresca da América Latina destacando o exótico e o fantástico. Como no trecho:

Nossa independência da dominação dos espanhóis não nos pôs fora do alcance da loucura. O general Antonio López de Santana, três vezes ditador do México, providenciou um magnífico funeral para a perna direita que ele perdera na chamada Guerra dos Pastéis. O general Gabriel García Moreno governou o Equador por 16 anos como um monarca absoluto; em seu velório, o corpo ficou sentado na cadeira presidencial, vestido com o uniforme completo e decorado com uma camada protetora de medalhas.

O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teosófico de El Salvador, que teve 30 mil camponeses aniquilados num massacre selvagem, inventou um pêndulo para detectar veneno em sua comida, e mantinha as lâmpadas das ruas envolvidas em papel vermelho para vencer uma epidemia de escarlatina. A estátua do general Francisco Morazán, na praça principal de Tegucigalpa, é na verdade do marechal Ney, comprada num depósito de esculturas de segunda mão em Paris.

Incoerência aceitável diante da íntima relação de Márquez com o fantástico, e que se revela como argumento em prol de uma realidade mais concreta e lúcida, no trecho:

Ouso dizer que é esta desproporcional realidade, e não apenas sua expressão literária, que mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade não de papel, mas que vive dentro de nós e determina cada instante de nossas incontáveis mortes de todos os dias, e que nutre uma fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, da qual este errante e nostálgico colombiano não passa de mais um, escolhido pelo acaso.

Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e canalhas, todas as criaturas desta indomável realidade, temos pedido muito pouco da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios concretos para tornar nossas vidas mais reais. Este, meus amigos, é o cerne da nossa solidão.

Para mim, essa visão de uma América pitoresca em busca de uma realidade alinhada à realidade européia não deixa de incomodar. Todavia, realmente me incomodei, e não deixo de suscitar aqui o caráter particular e pessoal desse incomodo, quando Márquez lançou mão do antigo argumento de que a América – sua cultura e seu povo – está em um estágio de ‘evolução’ anterior ao da Europa. Como no trecho:

A venerável Europa talvez pudesse ser mais perceptiva se tentasse nos ver em seu próprio passado. Se ela recordasse simplesmente que Londres levou 300 anos para construir seu primeiro muro, e mais 300 para ter um bispo; que Roma labutou numa penumbra de incertezas por 20 séculos, até que um rei etrusco a fizesse entrar para a história; e que a pacífica Suíça de hoje, que nos deleita com seus leves queijos e simpáticos relógios, derramou o sangue da Europa como soldados mercenários, no final do século XVI. Mesmo no alto da Renascença, 12 mil lansquenetes pagos pelo exército imperial saqueou e devastou Roma e trespassou oito mil de seus habitantes na espada.

Apesar de certa ironia, Márquez não deixa de colocar a Europa como culturalmente e socialmente mais ‘evoluída’. É como se os avanços na América Latina pretendessem, apenas, levá-la a um estágio mais próximo da realidade ‘superior’ da Europa. E que a Europa já esteve na barbárie e no atraso da América Latina, mas ‘evoluiu’ e que um dia a América ‘evoluirá’.

O discurso termina como uma tentativa de se tornar voz não só da América Latina, mas de todo o mundo, em defesa de uma nova utopia, a utopia socialista. Como percebemos no último parágrafo:

Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.

E foi assim que terminou a tão esperada hora da América Latina ser ouvida.

2 Respostas to “Aula 22b – Sobre GGM”

  1. tais Furtado Says:

    Parabéns pelo trabalho
    bastante esclarecedor,linguagem simples,objetiva
    até quem não se lembre de Gabo lendo,rapidamente sintoniza.

  2. ricardo furquim Says:

    parabens, (furquim),mas com esse sobrenome tinha que ser bom né.

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