Aula 23 – GSV: Seqüências

Oi gente,

Encontrei um texto que pode oferecer um subsídio valioso para quem está tendo dificuldades com Grande Sertão. Trata-se de uma lista de todas as seqüências narrativas do romance – lista feita por um professor de Religião de Ribeirão Preto chamado Airton José da Silva. Ele tem uma página que pode ser acessada aqui.

O que eu gosto na lista é o fato que ela primeiro apresenta as seqüências narrativas tanto 1) na ordem em que elas estão dispostas no texto quanto 2) na ordem cronológica dos próprios eventos ficcionais narrados. De qualquer forma, a lista das seqüências segue abaixo.

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Para orientar o leitor no grande monólogo que é Grande Sertão: Veredas, dividi o texto em seqüências narrativas. Sem muito rigor, diriam os teóricos da literatura. Esforcei-me, entretanto, em usar minhas ferramentas exegéticas… Percebo 159 episódios, grandes e pequenos, que, ligados em trama sutil, constituem a reflexão de Riobaldo. Após cada “título”, dado por mim à seqüência, cito, em itálico, a primeira frase do texto de Guimarães Rosa – ou parte dela – para que o leitor se localize. O texto utilizado foi: ROSA, G. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Abril Cultural, 1983, 429 p.

I
1. Os tiros
Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.
2. O sertão
O senhor tolere, isto é o sertão.
3. O demônio
Do demo? Não gloso.
4. Um chamado Aleixo
Mas, em verdade, filho, também, abranda. Olhe: um chamado Aleixo…
5. Pedro Pindó
Mire veja: se me digo, tem um sujeito Pedro Pindó…
6. Deus e o Diabo
Bem, mas o senhor dirá, deve de: e no começo – para pecados e artes…
7. Um moço Jazevedão
Haja? Pois, por um exemplo: faz tempo, fui, de trem, lá em Sete-Lagoas…
8. Joé Cazuzo
De jagunço comportado ativo para se arrepender no meio de suas jagunçagens...
9. Dor de idéia
Por tudo, réis-coado, fico pensando. Gosto.
10. Piolho-de-Cobra
De sorte que, então, olhe: o Firmiano, por apelidado Piolho-de-Cobra…
11. Culpa
Bom, ia falando: questão, isso que me sovaca…
12. A faquinha no curtume
A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque…
13. Mocidade e velhice
Somemos, não ache que religião afraca. Senhor ache o contrário.
14. Vender a alma ao diabo
Agora, bem: não queria tocar nisso mais – de o Tinhoso: chega.
15. A visita
Eh, que se vai? Jàjá? É que não. Hoje, não. Amanhã, não. Não consinto.
16. Este mar de territórios
Mas, o senhor sério tenciona devassar a raso este mar de territórios…

III
17. Com Diadorim, na Fazenda Boi-Preto
Muito deleitável. Claráguas, fontes, sombreado e sol. Fazenda Boi-Preto, dum Eleutério Lopes…
18. Medeiro Vaz
Não respondi. Não adiantava. Diadorim queria o fim. Para isso a gente estava indo.
19. Este mar de territórios
Ah, eu estou vivido, repassado. Eu me lembro das coisas, antes delas acontecerem…
20. Com Nhorinhá, na Aroerinha
Digo: outro mês, outro longe – na Aroerinha fizemos paragem. Ao que, num portal, vi uma mulher moça…
21. Ana Duzuza, Medeiro Vaz e o Liso do Sussuarão, e a discussão com Diadorim
Mãe dela chegou, uma velha arregalada, por nome de Ana Duzuza…
22. O diabo
Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas.
23. Sobre a infância de Riobaldo
Mas aí, eu estava contando – quando eu gritei aquele desafio raivoso, Diadorim respondeu…
24. O sitiante Jõe Engrácio, no Vespê
De sorte que, do que eu estava contando, ao senhor, uma noite se passou, todo mundo sonhado satisfeito.
25. Medeiro Vaz
Medeiro Vaz não era carrancista. Somente de mais sisudez, a praxe, homem baseado.
26. No Bambual do Boi
Razão dita, de boa-cara se aceitou, quando conforme Medeiro Vaz com as poucas palavras…
27. A caminho do Liso do Sussuarão
Em o que afundamos num cerrado de mangabal, indo sem volvência, até perto da hora do almoço.
28. O Hermógenes tem pauta
Exponho ao senhor que o sucedido sofrimento sobrefoi já inteirado no começo; daí só mais aumentava.
29. No Liso do Sussuarão
Mas mor o infernal a gente também media. Digo. A igual, igualmente.
30. Saindo, de volta, do Liso do Sussuarão
Mas, para que contar ao senhor, no tinte, o mais que se mereceu? Basta o vulto ligeiro de tudo.
31. Fazenda Burití-do-Zé, de Sebastião Vieira
Talmente, também, se carecia de tomar repouso e aguardo.
32. Debruçando para Goiás
Por que foi que não se fez combate, depois naqueles meses todos?
33. Rezas
Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem…
34. Quelemém
Raciocinei isto com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça…
35. Um moça, no Barreiro-Novo
Todo assim, o que minha vocação pedia era um fazendão de Deus, colocado no mais tope…
36. Um casal, no Rio do Borá
Mire veja: um casal, no Rio do Borá, daqui longe, só porque marido e mulher eram primos carnais…
37. O doutor rapaz, no vale do Arassuaí
Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale…
38. Acampados em pé duns brejos, Burití das Três Fileiras
Ao que nós acampados em duns brejos, brejal, cabo de várzea.
39. Viagem com Sesfrêdo
Galopando junto com o Sesfrêdo, larguei aquele lugar do Burití das Três Fileiras. Pesares que me desenrolavam.
40. Com o bando de João Goanhá
Ainda disse João Goanhá que estávamos em brevidade. Porque ele sabia que os Judas, reforçados…
41. Trabalhando na mineração, em Arassuaí
Chegamos no Córrego Cansanção, não longe do Arassuaí.
42. Guiando o Vupes, para São Francisco
Ah, eh e não, alto-lá comigo, que assim falseio, o mesmo é. Pois ia me esquecendo: o Vupes!
43. Em busca de Medeiro Vaz
Demos no Rio, passamos. E, aí, a saudade de Diadorim voltou em mim…
44. A fazenda velha, no Ribeirão Entre-Ribeiros
E agora me lembro: no Ribeirão Entre-Ribeiros, o senhor vá ver a fazenda velha, onde tinha um cômodo…
45. Riacho Ciz
Assim, olhe: tem um marimbú – um brejo matador, no Riacho Ciz – lá se afundou uma boiada quase inteira…
46. A forca, no São Simão do Bá
Agora, a forca, eu vi – forca moderna, esquadriada, arvorada bem erguida no elevado….
47. Sobre Zé Bebelo
Zé Bebelo – ah. Se o senhor não conheceu esse homem, deixou de certificar que qualidade…
48. A morte de Medeiro Vaz, no Marcavão
Pois porém, ao fim retomo, emendo o que vinha contando. A ser que, de campinas a campos…
49. A escolha do novo chefe: Marcelino Pampa
– “Riobaldo, tu comanda. Medeiro Vaz te sinalou com as derradeiras ordens…” Todos estavam lá, os brabos…
50. Caso do Faustino e do Davidão
Olhe: conto ao senhor. Se diz que, no bando de Antônio Dó, tinha um grado jagunço…
51. Marcelino Pampa não dava altura
A que, o que logo vi, que Marcelino Pampa, por bem de seu dispor, não dava altura.

IV
52. Chega Zé Bebelo, escolhido como chefe
Mas, depois de janta, quando estávamos outra vez reunidos…
53. Ataque aos Judas, no Burití-Pintado
Dando o dia, de repente, Zé Bebelo determinou que tudo e tudo fosse pronto, para uma remarcha…
54. Nas Veredas Tortas
Rumo a rumo de lá, mas muito para baixo, é um lugar. Tem uma encruzilhada.
55. O arraial do Paredão
O Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. É um arraial. Hoje ninguém mora mais. As casas vazias.
56. Assim é que eu conto
Sei que estou contando errado, pelos altos, Desemendo. Mas não é por disfarçar, não pense.
57. A carta de Nhorinhá
Mire veja: aquela moça, meretriz, por lindo nome Nhorinhá, filha de Ana Duzuza: um dia eu recebi dela…
58. Matéria vertente
Eu sei que isto que estou dizendo é dificultoso, muito entrançado. Mas o senhor vai avante.

II
59. Início: o encontro com o menino no porto do Rio-de-Janeiro
Foi um fato que se deu, um dia, se abriu. O primeiro. Depois o senhor verá por que…
60. Com o padrinho Selorico Mendes, na Fazenda São Gregório
Adiante? Conto. O seguinte é simples. Minha mãe morreu – apenas a Bigrí, era como ela se chamava.
61. Estudando no Curralinho
Mas eu não sabia ler. Então meu padrinho teve uma decisão: me enviou para o Curralinho…
62. Primeiro encontro com Joca Ramiro, no São Gregório
Depois pouco que voltei do Curralinho, definitivo, grande fato se deu, que ao senhor não escondo.
63. Meu padrinho
Semanas seguintes, meu padrinho só falou nos jagunços. Dito que Joca Ramiro era um chefe cursado…
64. A canção de Siruiz
Não estou caçando desculpa por meus errados, não, o senhor reflita.
65. Lordeza
Meu padrinho Selorico Mendes me deixava viver na lordeza. No São Gregório, do razoável de tudo eu…
66. Fuga da Fazenda São Gregório
Mas, um dia – de tanto querer não pensar no princípio disso, acabei me esquecendo quem – me disseram que…
67. No Curralinho
Em casa de seo Assis Wababa, me deram trato regozijante. No que jantei, ri, conversei.
68. Professor de Zé Bebelo, na Fazenda Nhanva
Aí me explicou: um senhor, no Palhão, na fazenda Nhanva, altas beiras do Jequitaí, para o ensino…
69. Zé Bebelo sai para a guerra
A tal que, enfim, veio o dia de se sair, guerreiramente, por vales e montes, a gente toda.
70. Fuga do bando de Zé Bebelo
Fugi. De repente, eu vi que não podia mais, me governou um desgosto.
71. Encontro com o Reinaldo, na casa de Malinácio
Meu cavalo era bom, eu tinha dinheiro na algibeira, eu estava bem armado. Virei, vagaroso.
72. Seguindo o pessoal de Titão Passos, com Reinaldo
Logo que o Reinaldo me conheceu e me saudou, não tive mais dificuldade em dar certeza aos outros…
73. A amizade com Reinaldo
Dali, rezei minha ave-mariazinha de de-manhã, enquanto se desalbardava e amilhava.
74. Lealdade a Zé Bebelo ou a Joca Ramiro?
Assim mesmo, naquele estado exaltado em que andei, concebi fundamento para um conselho…
75. O medo e a conquista da coragem com ascese
Foi que Titão Passos, pensando mais, me disse: – “Tudo temos de ter cautela…
76. Meu nome verdadeiro é Diadorim
Eu não podia tão depressa fechar meu coração a ele. Sabia disso. Senti. E ele curtia um engano…
77. Primeiro encontro com Otacília (lugar na estória: 112)
Hoje em dia, verso isso: emendo e comparo. Todo amor não é uma espécie de comparação?
78. Diadorim
Diadorim – dirá o senhor: então, eu não notei viciice no modo dele me falar, me olhar…
79. No acampo do Hermógenes
Assim ao feito quando logo que desapeamos no acampo do Hermógenes; e quando!
80. Diadorim + Riobaldo x Facho Bode + Fulorêncio
Mas Diadorim sendo tão galante moço, as feições finas caprichadas. Um ou dois, dos homens…
81. Atiro bem
Só o que mesmo devo de dizer, como atiro bem: que vivo ainda por encontrar quem comigo se iguale…
82. No acampo do Hermógenes
No que foi, no que me vi, no acampo do Hermógenes. Cabralhada. Tiba.
83. Antônio Dó e Andalécio
Mas, mire e veja o senhor: nas éras de 96, quando os serranos cismaram e avançaram…
84. A organização do bando
Atinei mal, no começo, com quem era que mandava em nós todos. O Hermógenes. Mas, perto duns…
85. Como era que eu atirava
Aí, quis que soubessem logo como era que eu atirava. Até gostavam de ver: – “Tatarana, põe o dez no onze…”
86. O Hermógenes era ruim
A bronzes. O ódio pousa na gente, por umas criaturas. Já vai que o Hermógenes era ruim, ruim.
87. Mulheres
Então, eu era diferente de todos ali? Era. Por meu bom. Aquele povo da malfa…
88. Os amigos
Permeio com quantos, removido no estatuto deles, com uns poucos me acompanheirei…
89. Ezirino e Batatinha
Amigo? Homem desses, alguém dizendo a um que ele é demônio de ruim, ele ira de não querer ser…
90. O Garanço
De manhã cedo, eu soube: tinham até dansado, aquela véspera.
91. Antenor
O senhor aprende? Eu entôo mal. Não por boca de ruindade, lá como quem diz.
92. Eu estreava umas ânsias
Cacei Diadorim. Mas eu estreava umas ânsias. Como fosse, falei, do novo e do velho…
93. Encontro com Otacília, na Fazenda Santa Catarina (lugar na estória: 112)
Do ódio, sendo. Acho que, às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor…
94. Ataque ao bando de Zé Bebelo
Vim. Diadorim nada não me disse. A poeira das estradas pegava pesada de orvalho.
95. Retirada
– “Tu, Tatarana, Riobaldo: agora é a má hora!” – era o Hermógenes prevenindo.
96. Jõe Bexiguento
Só vi um, o Jõe Bexiguento, sobrechamado o Alpercatas: esse era homem de estranhez em muitos seus…
97. O caso de Maria Mutema
Naquele lugar existia uma mulher, por nome Maria Mutema, pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade.
98. A falta que Diadorim me fazia
E foi isso que Jõe Bexiguento a mim contou, e que de certo modo me divagasse. Mas, foi ele acabar de contar…
99. A volta de Diadorim
Lembro que naquela manhã também o calor era menos, e o ar era bondoso.
100. Chega Sô Candelário
Ao que, com João Goanhá de testa-chefe, saímos, uns cinqüenta, pegar uma tropa de cargueiros…
101. Esperando Joca Ramiro, no É-Já
O lugar onde esbarramos, no É-Já, era logo depois da ponte de pau, que estando esburacada…
102. Chega Joca Ramiro
Antes foi uma coisa acontecida repentina: aquele alvoroço, na cavalhada geral. Aí o mundo de homens…
103. Combate e prisão de Zé Bebelo
Desde ver, a figura dele tinha parado no meio da gente, noutra coisa não se falava.
104. Julgamento de Zé Bebelo, na Fazenda Sempre-Verde
A Fazenda Sempre-Verde era a casa enorme, viemos saindo da estrada e entrando nas cheganças…
105. Conversa com Diadorim
Eu tinha vindo para ali, para o sertão do Norte, como todos uma hora vêm.
106. Separação dos bandos
Curtamente: dali, da Sempre-Verde, com um dia mais, desapartamos. O bando muito grande de jagunços…
107. Dois meses com Titão Passos, na Guararavacã do Guaicuí
Ao quando um belo dia, a gente parava em macias terras, agradáveis. As muitas águas. Os verdes…
108. Chega a notícia do assassinato de Joca Ramiro
Ah, e, vai, um feio dia, lá ele apontou, na boca da estrada que saía do mato, o cavalinho castanho…
109. Reunindo os bandos para a vingança
Mas assim se deu que, no seguinte dia, no romper das barras, saímos tocando. Diadorim do meu lado…
110. Os Judas escapolem
Saímos, sobre, fomos. Mas descemos no canudo das desgraças, ei, saiba o senhor.
111. Luta contra os soldados
E pois demore o senhor para o pior: o que veio em sobre!: os soldados do Governo.
112. Rumo dos Gerais, ao encontro de Medeiro Vaz
De mim, vim, com Diadorim, Alaripe, Jesualdo e João Vaqueiro, e o Fafafa. Era para o outro lado, era para…
113. Ligação com as páginas iniciais
Subindo em esperança, de lá saímos, para chão e sertão. Sertão bravo: as araras.

V
114. Com Zé Bebelo, caçando os Judas
Vemos, voltemos. O Buriti-Pintado, o Ôi-Mãe, o rio Soninho, a Fazenda São Serafim…
115. Três dias na Fazenda dos Tucanos, ferido no braço
A ser, porque, numa volta do Ribeirão-do-Galho-da-Vida, a gente tinha topado com turma de inimigos…
116. Mais ou menos cinco dias cercados pelos hermógenes, na Fazenda dos Tucanos
Deram um tiro, de rifle, mais longe. O que eu soube. Sempre sei quando um tiro é tiro – isto é – quando outros…
117. Retirada a pé
A de entre, entramos, pela esquerda e rumo do norte. Desde o depois, o do poente mesmo.
118. Nos Currais-do-Padre
Aí, vai, chegamos no Currais-do-Padre. O lugar que não tinha curral nenhum, nem padre: só o buritizal…
119. Perdidos no sertão
Afiguro, desde o começo desconfiei de que estávamos em engano. Rumos que eu menos sabia…
120. No Pubo: os catrumanos daquelas brenhas
Os quantos homens, de estranhoso aspecto, que agitavam manejos para voltarmos de donde estávamos.
121. Atravessando o Sucruiú
Mas em tanto, então levantei o meu entender para Zé Bebelo – dele emprestei uma esperança…
122. No retiro Valado, do seô Habão
São os momentos, se sei. Senti um cansaço. Adiantamos ligeiro, depois que passado o vau da mata-virgem…
123. No retiro Coruja, nas Veredas-Mortas: o pacto
Pelo que umas cinco léguas andamos. De medo, meio, conforme decerto, aquele algum seô Habão também…

VI
124. Riobaldo chefe: Urutu-Branco
Acordei. A madrugada com luar, me lembro, acordei com o rumor de cavaleiros que vinham chegando…
125. Convocação dos homens do Sucruiú e do Pubo
De seguida, parado persisti, para um prazo de fôlego. Aí vendo que o pessoal meu já me obedecia…
126. A cavalgada
Ver o seguinte. Eu queria esses campos. Pernoitamos, com marcha de dez léguas, assim mesmo.
127. Na Fazenda Barbaranha, no Pé-da-Pedra, do seu Ornelas
Ora vez, que, desse jeito, fomos entortando, entre as duas chapadas, encalço da estrada do rio; e se chegou…
128. O demo quer morte: Diadorim percebe
Rompemos uma duas léguas, em estradas de muita areia. Mas eu já estava agastado.
129. Um tal nhô Constâncio Alves: o demo quer morte
De que tivesse neste mundo, um tal nhô Constâncio Alves, o que era que eu ponderava com isso?
130. O desgraçado do homenzinho-na-égua: o demo quer morte
De seguida, o primeiro veio, logo mais adiante; quase no se inteirarem três léguas.
131. E o demo existe? As dúvidas
Do que acontecido, me senti muito livre. Trotei, adiante. Eu ia, à meia-rédea, não me instava, não pensava.
132. A volta do Quipes
Na serra do Tatu, o frio ali é tal, que, em madrugadas, a gente necessita de uns três cobertores. Na Serra…
133. A saudade de Otacília
Narro que não rendi melindres do feito de Diadorim, digo – o recado enviado.
134. O demo: matar o lázaro?
O demo, tive raiva dele? Pensei nele? Em vezes. O que era em mim valentia, não pensava; e o que pensava…
135. Os cinco urucuianos deixam o bando
O senhor estando lembrado: aqueles cinco, soturnos homens, catrumanos também, dos Gerais…
136. Rezas
Achava. Adiante, dias de caminho, achei de querer e não querer, em contrários instantes: que rezassem…
137. Atravessando o Liso do Sussuarão
Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação, como que um perde o bom tino.
138. Treciziano ataca Riobaldo
Ah, quase que eu estava cogitando nisso, quando o homem rosnou. Quem ele era, digo, em qualidade…
139. Ataque e destruição da fazenda do Hermógenes
Que, como conto. Aquele Treciziano, tinha redobrado destino de triste-fim de louco. Pois nem bem três léguas…
140. Descendo os Gerais, em Goiás
É de ver que não esquentamos lugar na redondez, mas viemos contornando – só extorquindo vantagens…
141. O velho
Mas, no vir de cimas desse morro, do Tebá – quero dizer: Morro dos Ofícios – redescendo, demos com o velho…
142. Nhorinhá
Do que hoje sei, tiro passadas valias? Eh – fome de bacurau é noitezinha…
143. O proceder do bando com as mulheres
Com a campina roxa brandamente, vagarosa por onde fomos, tocamos, querendo o poente e tateando tudo…
144. No Verde-Alecrim, com mulheres
Guia era um exato rapaz, vaqueiro goiano do Uruú. Esse me discriminou – o Verde-Alecrim formava…
145. Descendo os Gerais de Goiás
Pelo que, do trecho, voltamos. Para mais poente do que lá, só uruburetamas. E o caminho nosso era retornar…
146. Na Fazenda Carimã, do-Zabudo
Como de fato, desamarrou o tempo. Formou muita chuva. Com assim, emendados chovidos três dias…
147. Em Minas entramos
Sumimos de lá. Em cinco léguas, vi o barro se secar. O campo reviçava. Mas concedi que a viagem…
148. Batalha no Tamanduá-Tão
E chegamos! Aonde? A gente chega, é onde o inimigo também quer. O diabo vige, diabo quer é ver…
149. No Cererê-Velho
Esta é que era a razão: que o Hermógenes, da banda do poente, podia vir. Viesse feito!
150. Indo ao encontro de Otacília, na Vereda do Saz
Do Cererê-Velho até no Paredão, seis léguas; e eu tinha de deixar ao menos um homem em cada meia-légua, em estação, para em caso serem capazes de traspassar recado, de tudo por tudo, com a rapidez da guerra. Eu fiz, só ia sendo.
151. No Paredão: esperando os hermógenes
Diadorim, me esperava, demais. Ainda vi a alegria no rosto dele. O Paredão. O senhor ponha.
152. No Paredão: combate final – morte de Diadorim – morte de Hermógenes
Choque que levei – foi feito um trovão. Começou a se bradar. Os gritos, tiros. Que foi, mesmo, que eu primeiro ouvi?
153. Riobaldo doente
Desapoderei. Aonde ia, eu retinha bem, mesmo na doidagem. A um lugar só: às Veredas-Mortas… De volta, de volta. Como se, tudo revendo, refazendo, eu pudesse receber outra vez o que não tinha tido, repor Diadorim em vida? O que eu pensei, o pobre de mim.
154. Recuperação na Fazenda Barbaranha, de seo Ornelas
Até que, um dia, eu estava repousando, no claro estar, em rede de algodão rendada. Alegria me espertou, um pressentimento.
155. Maria Deadorina
Só que isso foi mais tarde. Pois, primeiro, eu tinha outra andada que cumprir, conforme a ordem que meu coração mandava.
156. Tristeza
Mas ninguém não pode me impedir de rezar; pode algum? O existir da alma é a reza…
157. Encontro com Zé Bebelo
Passado esse tempo, conforme foi, pouca tardança. Mas, então, quando se estava de volta, m’embora vindo, peguei uma inesperada informação, na Barra do Abaeté. De Zé Bebelo!
158. Quelemém
Tinha de ser Zé Bebelo, para isso. Só Zé Bebelo, mesmo, para meu destino começar de salvar. Porque o bilhete era o Compadre meu Quelemém de Góis, na Jijujã – Vereda do Buriti Pardo.
159. Travessia
E me cerro, aqui, mire e veja. Isto não é o de um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que vi, no levantar do dia. Auroras. Cerro. O senhor vê. Contei tudo (…) Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.


SEQÜÊNCIA DA ESTÓRIA

I. 1-16:
. Introdução

II. 59-113:
. Início: encontro com o menino (59)
. Com o padrinho Selorico Mendes, na Fazenda São Gregório (60-67)
. Professor de Zé Bebelo – com Zé Bebelo na guerra (68-70)
. Encontro com Reinaldo, na casa de Malinácio (71)
. Com Titão Passos (72-78)
. Com Hermógenes (79-102)
. Prisão e julgamento de Zé Bebelo (103-106)
. Com Titão Passos, na Guararavacã do Guaicuí (107)
. Assassinato de Joca Ramiro – reunindo os bandos para a vingança (108-112)
. Ligação com as páginas iniciais (113)

III. 17-51:
. Com Medeiro Vaz (17-26)
. Com Medeiro Vaz, no Liso do Sussuarão (27-30)
. Saindo, de volta, do Liso do Sussuarão (31-40)
. Trabalhando na mineração, em Arassuaí (41-42)
. Em busca de Medeiro Vaz (43-47)
. A morte de Medeiro Vaz, no Marcavão (48)
. Marcelino Pampa, chefe (49-51)

IV. 52-58:
. Zé Bebelo, chefe

V. 114-123:
. Com Zé Bebelo, caçando os Judas (114-122)
. O pacto com o diabo (123)

VI. 124-159:
. Riobaldo chefe: Urutu-Branco

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6 Respostas to “Aula 23 – GSV: Seqüências”

  1. Murilo Says:

    O livro, além das qualidades na linguagem, possui um diferencial que, muitas vezes, nem notamos. O autor utiliza de um artifício muito peciliar de narrativas dinâmicas que é a influência de pequenos fatos (muitas vezes banais) no desenrolar da história. Isso faz com que o leitor ganhe familiaridade com as personagens. “Mas a exibição foi interrompida porque Pilar Ternera, que estsva na porta com os curiosos, atracou-se às mordidas e puxões com uma mulher que se atreveu a comentar que o jovem Arcádio tinha nádegas de mulher”. Nesse caso, explicitar a visão da mulher sobre uma feminização de Arcádio é relevante para a história, pois já havia sido levantada uma preocupação pela falta de interesse desse por mulheres.
    Porém a menira de apresentar essa visão foi surpreendente. O “barraco” de Pilar dá naturalidade e graça á história, além de provocar a catarse no leitor: nos faz rir! É como um intervalo dado ao leitor para ele relaxar e depois voltar à narrativa mais concentrado, a fim de que ele não se canse. Desculpem a comparação vulgar, mas tal artífício é muito utilizado pelas atuais novelas televisivas, em que bofetadas e cenas de nudez fazem o espectador divertir-se e interessar-se mais pela história das personagens.

  2. Lucas Says:

    “O São Francisco partiu minha vida em duas partes. A Bigrí, minha mãe, fez uma promessa; meu padrinho Selorico Mendes tivesse de ir comprar arroz, nalgum lugar, por morte de minha mãe? Medeiro Vaz reinou, depois de queimar sua casa-de-fazenda. Medeio Vaz morreu em pedra, como o touro sozinho berra feio; conforme já comparei, uma vez: touro preto todo urrando voltava, como um vivo demais de fogo e vento, zás de raio veloz como o pensamento da idéia – mas a água e o chão não queriam saber dele. Compadre meu Quelemém outrotanto é homem sem parentes, provindo de distante terra – da Serra do Urubú do Indaiá. Assim era Joca Ramiro, tão diverso e reinante, que mesmo em quando ainda parava vivo, era como se já estivesse constando de falecido. Sô Candelário? Sô Candelário se desesperou por forma. Meu coração é que entend, ajuda minha idéia a requerer e traçar. Ao que Joca Ramiro pousou que se desfez, enterrado lá no meio dos carnaúbais, em chão arenoso salgado. Sô Candelário não era, de certo modo, parente do compadre meu Quemelém, o senhor sabe? Diadorim me veio, de meu não-saber e querer. Diadorim – eu adivinhava. Sonhei mal? E em Otacília eu sempre muito pensei: tanto que eu via as baronesas amarasmeando no rio em vidro – jericó, e os lírios todos, os lírios-do-brejo – copos-de-leite, lágrimas-de-moça, são-josés. Mas, Otacília, era como se para mim ela estivesse no camarim do Santíssimo. A Nhorinhá – nas Aroeirinhas – filha de Ana Duzuza. Ah, não era rejeitã… Ela quis me salvar? De dentro das águas mais clareadas, aí tem um sapo roncador. Nonada! A mais, com aquela grandeza, a singeleza: Nhorinhá, puta e bela. E ela rebrilhava, para mim, feito itamotinga. Uns talismãs. A mocinha Miosótis? Não. A Rosa’ uarda. Me alembrei dela; todas as minhas lembranças eu queria comigo. Os dias que são passados vão indo em fila para o Sertão. Voltam, como os cavalos: os cavaleiros na madrugada – como os cavalos se arraçôam. O senhor se alembra da canção de Siruiz? Ao que aquelas crôas de areia e as ilhas do rio, que a gente avista e vai guardando pra trás. Diadorim vivia só um sentimento de cada vez. Mistério que a vida me emprestou: tonteei de alturas. Antes, eu percebi para sempre. O manuelzinho-da-crôa. Tudo isso posso vender? Se vendo minha alma, estou vendendo também os outros. Os cavalos relincham sem causa; os homens sabem aluma coisa da guerra? Jagunço é o sertão. O senhor pergunte: quem foi que foi que foi o jagunço Riobaldo?” (GSV: 326/327)

    Essa é, para mim, uma das melhores divagações de Riobaldo. De pronto, a frase inicial do rio São Francisco é muito significativa. De fato, a vida dele e todos estaria dividida por este sujeito, o rio, que dialoga com o sertanejo durante toda a sua existência, e às vezes é a síntese de um espaço moral tão ambivalente.

    Aqui, no que mais toca, ele traça um mapa de seus sentimentos, perpassando-os pelos sujeitos que, no fundo, são ele. É a dimensão ética do pacto que o incomoda. Seria uma espécie de auto-negação, de renascimento? Guerra, Rio, Sertão, Amor, Culpa, Demo, Deus… Riobaldo.

  3. 09/49051 Says:

    Quanto a leitura sugerida para a aula de hoje do livro de GGM, selecionei o seguinte trecho: “A única diferença atual entre liberais e conservadores é que os liberais vão à missa das cinco e os conservadores à das oito.” Mais uma vez, o caráter artificial da ideologia latino-americana é problematizado no livro.

    E também uma sentença dita pelo Coronel Aureliano Buendía que sintetiza e explica de maneira banal as revoluções que estavam ocorrendo em Macondo devido ao interesse dos forasteiros (a época da “peste da companhia bananeira”):

    ” – Olhem a confusão em que nos metemos – costumava então dizer o Coronel Aureliano Buendía – só por termos convidado um americano para comer banana.”

    Ele se referia aos comércios mistos e desorganizados que invadiram Macondo, aos forasteiros que instalavam suas residências em qualquer lugar com tanta autonomia e autoridade, que até parecia que aquele lugar realmente os pertencia. As mudanças foram tantas que “os antigos habitantes de Macondo se levantavam cedo para conhecer a sua própria aldeia”. Então os americanos chegaram, e com eles o primeiro automóvel – o conversível alaranjado de Sr. Brown – e com ele tantas outras coisas da “civilização”. Mas não há essa idéia de receber “OS” americanos que vieram trazer “O” progresso, a receptividade foi a mesma que Meme ofereceu a quatro feiras e sessenta e oito colegas de classe. É a mesma que os habitantes de Macondo oferecem a qualquer um. Não é como
    se os ianques fossem necessitados e precisados. Tudo aquilo foi chegando e se instalando sem ser chamado. E aqui cabe também um paralelo à ideologia em Macondo: ela não se fez devido a algum tipo de “necessidade” social, ou a tentativa de fornecer respostas aos problemas verificáveis no contexto econômico e político, ela simplesmente chegou, mas ainda assim ficou e provocou profundas mudanças.

  4. Gabriella Says:

    “Começou a cometer erros tentando ver com os olhos as coisas que a intuição lhe permitia ver com maior claridade. Certa manhã jogou na cabeça do menino o conteúdo de um tinteiro, pensando que era água-de-colônia. Ocasionou tantas dificuldades com a teimosia de intervir em tudo, que se sentiu transtornada por crises de mau humor, e tentava vencer as trevas que finalmente a estavam tolhendo como uma camisa de teias de aranha. Foi então que lhe ocorreu que sua inabilidade não era a primeira vitória da decrepitude e da escuridão, mas uma falta de tempo. Pensava que antigamente, quando Deus não fazia com os meses e os anos as mesmas trapaças que faziam os turcos ao medir uma jarda de percal, as coisas eram diferentes. Agora não apenas as crianças cresciam mais depressa, mas até os sentimentos evoluíam de outro modo. Nem bem Remedios, a bela, subira ao céu de corpo e alma, já Fernanda, sem consideração, andava resmungando pelos cantos que ela levara os lençóis. Nem bem haviam esfriado os corpos dos Aurelianos nas tumbas e já Aureliano Segundo tinha outra vez a casa tomada, cheia de bêbados que tocavam acordeão e se encharcavam de champanha, como se não tivessem morrido cristãos e sim cachorros, e como se aquela casa de loucos, que tantas dores de cabeça e tantos animaizinhos de caramelo tinha custado, estivesse predestinada a se converter numa lixeira de perdição. Lembrando-se dessas coisas enquanto aprontavam o baú de José Arcádio. Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.
    – Porra! – gritou
    Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
    – Onde está? – perguntou alarmada.
    – O quê?
    – O animal! – esclareceu Amaranta.
    Úrsula pôs o dedo no coração.
    – Aqui – disse.”

    Foi, sem dúvida, um dos trechos que mais me tocaram no livro. É uma mistura de sentimentos recentidos, retraídos, espinhosos e profundamente bonitos. A melancólica decrepitude da velhice, a tristeza de constatar que não se é tão forte quanto se pensa na juventude e que não há como fugir da crueldade e da inflexibilidade do tempo. A clarividência que os anos tiram dos olhos e colocam nos demais sentidos, na mente, no coração; e permite que se veja o mundo, as pessoas e os sentimentos de outra forma muito mais profunda e livre da superficialidade da visão. E principalmente, a dor do não dito, do calado, sufocado pelos dentes e armazenado nos confins do coração.

  5. Joyce Says:

    Tem um trecho do livro GSV (não faço a mínima idéia de qual página, porque esqueci de anotar…) que expressa bem o sentimento duplo vivido por Riobaldo na narrativa. “Mas ponho minha fiança: homem muito homem que fui, e homem por mulheres – nunca tive inclinação para vícios desencontrados”. O tempo todo ele fala de Diadorim, deseja estar perto dele, tem amor por ele e ao mesmo tempo se vê diante de um sentimento que não pode ser realizado. Não entende o que está sentindo, não entende porque não pensa tanto em Otacília quanto pensa em Diadorim. “De Diadorim eu devia de conservar um nojo. De mim, ou dele?”. E confessa: “De Diadorim não me apartava. Cobiçasse de comer e beber os sobejos dele,queria pôr a mão onde ele tinha pegado” (p.316). E o sentimento recíproco reflete no pacto que os dois fizeram (e que só Diadorim cumpriu, claro…), devido o ciúmes por causa de Otacília, “enquanto a gente estivesse em ofício de bando, que nenhum de nós dois não botasse mão em nenhuma mulher” (p.191). Esse duplo sentimento perturba Riobaldo também em outros aspectos. A valentia do jagunço vem acompanhada do medo. Um exemplo é no julgamento de Zé Bebelo, outro é quando enfrenta Zé Bebelo ao escrever as cartas, já na guerra para vingar Joça Ramiro. No julgamento, o tempo todo Riobaldo queria defender Zé Bebelo, mas ficou quieto e angustiado durante o julgamento. Quando viu que realmente tinha que falar alguma coisa para poder salvá-lo, se encheu de uma coragem que nem ele sabia de onde e falou.

    “Zé Bebelo é homem valente de bem, e inteiro, que honra o raio da palavra que dá! Aí. E é chefe jagunço, de primeira, sem ter ruindades em cabimento, nem matar os inimigos que prende, nem consentir de com eles se judiar…Isto afirmo. (…)de dizer eu tinha, como dever que sei, e cumprindo a licença dada por meu grande chefe nosso, Joca Ramiro, e por meu cabo-chefe Titão Passos!…
    Tirei fôlego de fôlego, latejei. Sei que me desconheci. Suspendi do que estava:
    – (…) se condenar de matar Zé Bebelo, o quanto fosse um boi de corte? Um fato assim é honra? Ou é vergonha?…”

    Outro ponto que achei interessante foi a história de Maria Mutema e Padre Ponte. No início a mulher é elogiada por ter perdido o marido e mantido a força “mulher em preceito sertanejo. Se sentiu, foi em si, se sofreu muito não disse, guardou a dor sem demonstração”. Depois, ela passa a ser julgada e apontada na frente de todo mundo por ter matado o marido, sem motivo algum, e o padre Ponte de tanto o atormentar. E o que parecia que se tornaria um final trágico para Mutema, foi glorioso, pois ela pediu perdão na frente daquelas pessoas e achava que merecia castigo, como que cuspissem no rosto dela. Mas as pessoas não fizeram isso. Falaram palavras amigas e de consolo. Perdoaram aquela mulher por se portar com arrependimento e humildade. “Alguns diziam que Maria Mutema estava ficando santa”(p.227). Mais para frente, encontramos Zé Bebelo. Assim como Mutema teve uma chance de resignação, Zé Bebelo teve o direito de julgamento, com acusação, defesa e, por fim, foi solto com dignidade. Quando falamos jagunço, sertão, pensamos logo em “olho por olho, dente por dente”, mas, no livro, mostra um sertanejo que tem fé e acredita na palavra do outro:
    “A sentença vale. A decisão. O senhor reconhece?
    – Reconheço (…)
    – Bem. Se eu consentir o senhor ir-se embora para Goiás, o senhor põe a palavra, e vai?
    (…)
    A palavra e vou, Chefe (…)” (p.280)

  6. Grégory Says:

    “A noite que houve, em que eu, deitado, confesso, não dormia; com dura mão sofreei meus ímpetos, minha força esperdiçada; de tudo me prostrei. Ao que me veio uma ânsia. Agora eu queria lavar meu corpo debaixo da cachoeira branca dum riacho, vestir terno novo, sair de tudo o que eu era, para entrar num destino melhor.” Nesse trecho da página 296, Riobaldo declara sua vontade de mudar de vida se ver livre de algo. Isso permite entender que ele busca uma certa liberdade. Nesse trecho, já não se sabe se o Riobaldo depois de tanto refletir é satisfeito com a vida que ele construiu no sertão. Entendo que enquanto se vive no sertão, se vive para aprender, depois que se aprende, se conhece. Riobaldo parece está fazendo isso. Ele continua brigando no sertão, mas já reconhece que quer mudar, mas ele desafia tudo que lhe é oferecido, e até que ao final ele encontra respostas, faz o pacto, descobre Diaorim…

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