Aula 24 – GSV

Para terça-feira, gostaria de discutir alguns episódios de particular importância em Grande Sertão: Veredas. Como estou com pouco tempo, serei bastante breve ao apresentá-los. Em seus posts, por favor procurem priorizar as seguintes passagens do romance.

Grande Sertão: Veredas

  1. Os casos de Aleixo e Pedro Pindó – especialmente no que diz respeito à reversibilidade entre o bem e o mal.
  2. A travessia do Rio São Francisco – especialmente no que diz respeito à iniciação de Riobaldo pelo  “menino”.
  3. A travessia do Liso, liderada por Medeiro Vaz – especialmente no que diz respeito à natureza do Liso, ao que ele representa.
  4. A história de Maria Mutema – especialmente no que diz respeito a 1) a forma pela qual Mutema mata o marido e o padre e 2) a função do perdão na história dela.
  5. O julgamento de Zé Bebelo – especialmente no que diz respeito aos discursos de Hermógenes, Ricardão, Sô Candelário e Riobaldo.
  6. A morte de Joca Ramiro – especialmente no que diz respeito às temáticas de traição, de lealdade e de redenção desenvolvidas durante o romance.
  7. O pacto – especialmente no que diz respeito aos seguintes binômios: certeza versus incerteza, liderança versus passividade.
  8. A segunda travessia do Liso – especialmente no que diz respeito ao incidente com Treciziano.
  9. A batalha do Paredão – especialmente no que diz respeito a 1) a participação de Riobaldo no combate e 2) o cadáver de Diadorim.
  10. A conclusão do romance.

UM DIVAGAÇÃO NADA ACADÊMICA

Essa história do Pacto Diabólico é curiosa. Eu estava fazendo uma pesquisa para a disciplina do semestre que vem e eis que deparei-me com três sites que compram almas online. Sem brincadeira. Eles compram almas. Não sei se pagam ou se é tudo uma piada. Mas têm formulário de venda  com avaliação de valor de revenda e tudo do bom e comercial. Tem pelo menos três lugares que dá para fazer:

  1. http://www.wewantyoursoul.com/
  2. http://www.necronomi.com/projects/666/
  3. http://www.dpjs.co.uk/sell.html

Engraçado. A gente vai, estuda pacas, faz Mestrado, faz Doutorado, lê autores seculares, abandona a Igreja, mata Deus, enterra Deus, esquece Deus, visita terreiro, defende o Estado laico, acredita em dinossauros e sente saudades do Carl Sagan. E rezar, só reza durante aqueles 32,4 segundos por ano durante os quais parece que o Felipe Massa será campeão. Mas vem a ultrapassagem de Hamilton e Deus fica para 2009.

Qual é o ponto? O ponto é que preencher o formulário de venda é divertido. Tem umas perguntas engraçadas sobre valores, comportamento e ideologia. A gente coloca o nome e endereço. Mas eis que o pato pega. Na hora de apertar “enter”, dá um desconforto. Não chega a ser terror. Mas bom não é; vem um frio que enche a barriga.

E, por via das dúvidas, também a piada do pacto fica  para 2009.

5 Respostas to “Aula 24 – GSV”

  1. Anônimo Says:

    Eu não vou negar

  2. 04/34191 Says:

    2. Nesta passagem do livro, Riobaldo entra em contato com o desconhecido de duas maneiras: pela proporção (contato com o São Francisco) e pela natureza (contato próximo com o menino). De qualquer forma, o sentimento de medo ganha significação e, pior, adquire na relação com um outro desconhecido. A partir do medo, portanto, outro sentimento aflora em Riobaldo: a vergonha. Ao se ver encurralado em ter que admitir sua nula habilidade para nadar, Riobaldo se sente envergonhado. A reação inesperada do menino ao acolher o medo de Riobaldo acaba por provocar outro, potencializado pela cumplicidade gerada da partilha de um segredo e pela aceitação da falha do protagonista. Em primeiro lugar, a perspectiva de que os sentimentos afetam os indivíduos de maneira distinta. Em segundo lugar, e principalmente, Riobaldo descobre o amor. Um amor torto, errado. Assim, redescobre o medo, mas desta vez, e mostra que ainda não aprendera a controlá-lo, expulsando com vigor a idéia de estar se afeiçoando ao menino.

  3. Lucas Says:

    Eu não vou negar que tenho medo do pacto virtual… Com certeza o Demo é um super haker e vai atrás de todos os meus contatos da minha caixa de emails!

    1)
    Sobre o pacto (ponto 7), separei dois trechos interessantes, que revelam a mudança de Riobaldo quanto a sua confiança em si mesmo, expressa, principalmente, na sua relação com Zé Bebelo, e na deste com Riobaldo. No primeiro trecho, Riobaldo desconfia que Zé Bebelo esteja traindo os jagunços, ao mandar dois dos seus irem chamar os Judas, já que o cerco dos hermógenes está cruel. E começa a dar indiretas a Zé Bebelo e a segui-lo, com o intuíto de o matar, se necessário. Daí em diante, a impressão que tenho é que a dissimulação com que Riobaldo diáloga e cerca o chefe, faz com Zé Bebelo se distancie da idéia de se aliar ao Governo para se tornar deputado, através desse suposto golpe mediado pelos Judas. Riobaldo percebe aí um seu valor, e aos poucos vai se enxergando como tão importante quanto Zé Bebelo. No entanto, para Zé Bebelo e para Riobaldo, o status de Chefe deste não está em cheque.

    No segundo trecho ocorre uma mudança em relação a esse último ponto. Riobaldo tem a voz mais expressiva que a de Zé Bebelo. Está com raiva. Aqui, o herói já havia passado a meia-noite na encruzilhada das Veredas-Mortas em busca de Lúcifer…

    Trecho 1:

    “Zé Bebelo luziu, ele foi de rajada:
    – ‘Ao silêncio, Riobaldo Tatarana! Eh, eu sou o Chefe!?’
    (…)
    – ‘Pois é, Chefe. E eu sou nada, não sou nada, não sou nada… Não sou mesmo nada, nadinha de nada, de nada…. Sou a coisinha nenhuma, o senhor sabe? Sou o nada coisinha mesma nenhuma de nada, o menorzinho de todos. O senhor sabe? De nada. De nada… De nada…'” (GSV: 366/367)

    Trecho 2:
    “Eu tinha enjôo de toda pasmacez. Com Zé Bebelo, falei:
    – ‘Chefe, o que se tem de obrar: enviar algum comparsa esperto, que cace de entrar para o bando dos Judas, para no meio deles observar o serviço que se passa (…) Ou que mesmo dê jeito de liquidar mãomente o Hermógenes – proporcionando venenos, por um exemplo’
    – ‘A maluqueira, Tatarana, isso que Você está definindo….’
    – ‘Mulequeiras – é o que não dá certo. Mas só é maluqueira depois que se sabe que não acertou!’ – eu atalhei, curto; porque eu naquela hora achava Zé Bebelo inferior; e porque, que alguém falasse contra, por cima das minhas palavras, me dava raiva.” (GSV: 442)

    2)
    Sobre a mudança de caráter de Riobaldo após o suposto pacto, eu tenho algumas hipóteses: ou, de fato, o pacto ocorreu. Ou então, sua zanga e vontade de assumir a chefia decorre justamente do fato de o Diabo não ter aparecido. Assim, com o Demo não existindo, já que foi chamado e não apareceu, a tão falada na obra, Coragem, encarna em Riobaldo, que não teria nada a temer, a não ser o amor a Diadorim. E sendo Diadorim o personagem por exelência que busca matar Hermógenes, por amor, Riobaldo assumiria a Chefia em seu âpice de vontade de potência e subjagação pelo sentimento.

    Há também outra hispótese: A mudança de espírito de Riobaldo teria se dado em diálogo, não com o Demo, mas com este espaço moral, imoral, que é as Veredas-Mortas… “lugar… feio, como feio não se vê”, “veredas …[que]… formavam um tristonho brejão, tão fechado de môitas de plantas, tão apodrecido que em escuro: marimbús que não davam salvação” (GSV: 417). E sendo a Chefia objetivo crescente de Riobaldo, o diálogo com este espaço e personagens deste espaço. Desse diálogo seria a figura de Sêo Habão, que primeiro rebaixaria Riobaldo a possível escravo, e depois o presentearia com um cavalo, mostrando-o, assim, que a única forma de fugir daquele outro destino era ser o mais destacado entre os jagunços, ou seja, o Chefe…

    Ironia:

    “… E agora instantaneamente, de dia em dia eu ia ficando desmudado. Com uma raiva, espalhada em tudo, frouxa nervosia. – ‘É do fígado…’ – me diziam.” (GSV: 418)

  4. Joyce Says:

    Todos achavam que Hermógenes tinha vendido a alma ao Diabo por não ter medo de nada e fazer atrocidades, como matar Joca Ramiro. A dúvida se o diabo existia ou não é constante no livro. Uma hora ele existe e outra não, é fruto da imaginação. Mas as histórias contadas é que fazia todos temerem o Hermógenes.
    “ ‘Você, lacrau, era capaz de fechar desse pacto?’(…)O medo, que todos acabavam tendo do Hermógenes, era que gerava essas estórias, o quanto famanava. O fato fazia fato. Mas, no existir dessa gente do sertão então não houvesse, por bem dizer, um homem mais homem?”
    Diadorim, porém, parece fortalecer Riobaldo. Principalmente quando lembra da travessia do rio e a fortaleza de Diadorim. Essa força, para Riobaldo era capaz de “vencer o demônio”.
    “O Reinaldo, me lembrei dele como menino, com a roupinha nova e o chapéu novo de couro, guiando meu ânimo para se aventurar a travessia do Rio do Chico, na canoa afundeira. Esse menino, e eu, é que éramos destinados para dar cabo do Filho do Demo, do Pactário!”
    Ao buscar o diabo, Reinaldo não obtém respostas. E confirma que isso tudo é imaginação, histórias para as pessoas ficarem com medo.
    “Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – que é um falso imaginado”
    No entanto, a dúvida sempre volta no desenrolar da história. E aquela angústia de ter ou não vendido a alma ao diabo fica presente.
    “Mas, por fim, eu tomei coragem, e tudo perguntei:
    – O senhor acha que minha alma eu vendi, pactário?!
    (…)
    – Tem cisma não. Pensa para diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais.” (p. 607)

    Deve ser a mesma angústia de dar um “enter” no site que fazem pacto diabólico. Você sabe que aquilo não existe, mas são tantas histórias que sempre rola uma dúvidazinha.

  5. Grégory Says:

    Depois de muito ler, chega o tão esperado pacto. Se é que ele existiu. Por mais que o pacto parea ter sido consumado, por conta das mudanças ocorridas em Riobaldo, ele virou um aoutra pessoa sem medos e teve conquistas, como o cavalo que ele ganhou, há a dúvida até o final do livro. “E, mesmo, na dita madrugada de noite, não tinha sucedido, tão pois. O pacto nenhum — ne¬gócio não feito. A prova minha, era que o Demônio mesmo sabe que ele não há, só por só, que carece de existência. E eu estava livre limpo de contrato de culpa, podia carregar nômina; rezo o bendito!”, página 438. Na verdade o pacto só existe caso o diabo exista. Rioaldo e seu pacto imagnário permitiram que ele cumprisse sua missão de assumir o bando e matar os traidores. Foi como um momento necessário para o cumprimento daquilo que tinha que ser feito. Na página 470 existe um outro contexto , quando Riobaldo falar de Deus, “Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele.” Mas essa frase “o sertão é dele” permite entender que tudo aquilo que Riobaldo passou, isto é, o pacto imaginário, ele funcionou como um instrumento concedido (por Deus) para que Riobaldo fizesse logo o que tinha de ser feito, matar os traidores e seguir em sua liberdade. O sertão serve para se conhecer e ali Riobaldo fez o que tinha que ser feito depois de se conhecer.

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