Aula 25 – Pedro sobre GGM

Oi gente,

Me desculpem os atrasos repetidos… Novembro sempre puxa. Segue abaixo o texto de Pedro sobre Cem Anos de Solidão.

***

Cem Anos de Solidão é o best-seller de Gabriel García Márquez. A história é um punhado de lembranças da infância do autor e um retrato da América Latina, mas apesar desses fatores está longe de ser o seu preferido. Márquez o considera superficial e não compreende o motivo de tanto sucesso, até o incomoda. Talvez o sucesso se deva justamente por ser um retalho de lembranças e de personagens familiares que o leitor também identifica em sua vida.

A história de Cem Anos de Solidão é sempre contada com o foco em algum personagem, por cujos olhos a ação é vista. (O nome dessa técnica é discurso indireto livre.). Ela começa com um resumo de um período na vida desse personagem, período que é então apresentado em maior detalhe. Revela-se assim a profundidade dos fatos e do personagem. E o livro surpreende mesmo quando sabemos como termina. No final, parece que aquele resumo é uma mentira por significar tão pouco.

O livro começa apresentando Macondo como uma utopia socialista que vai, como o tempo, se modernizando. Primeiro Graças à Úrsula, que traz novos habitantes para a cidade. Depois por conta das revoluções e por fim por conta da indústria de gelo e da plantação de banana. Apesar das inovações e da construção da fábrica de gelo tão sonhado por José Arcádio Buendía (e apesar das voltas no tempo, que insiste em repetir a sina da família), tudo tende a piorar. A qualidade do tempo e dos sentimentos é inferior. Como diz Úrsula em sua velhice, não há mais tempo pra nada, nem para sentir.

E enquanto Macondo parece ser uma alegoria da América Latina, aonde todos os avanços vêm de fora e a violência política predomina, o personagem de José Arcádio Buendía ensaia uma alegoria da Europa. Começando na Idade Média como um alquimista que busca o ovo filosofal, descobre que a Terra é redonda e eventualmente evolui para o Iluminismo. Quando já se encontra louco, desafia a fé do padre Nicanor e quase o leva ao ateísmo. Márquez parece querer dizer que os valores europeus são estranhos à cultura latino-americana.

Outro aspecto importante no livro são as mulheres. Enquanto os homens no livro fazem loucuras, se perdem no mundo e fazem guerras, cabe às mulheres a responsabilidade de manter atada a família. No final, são submissas – apesar dessa força.

Úrsula guia e cria toda a família até não mais poder e se responsabiliza pelos erros dos filhos. Não se deixa vencer pela cegueira e decrepitude e tenta contornar os problemas causados pela velhice. Rebeca é a única que consegue amansar a virilidade de José Arcádio e o põe pra trabalhar. Pilar Ternera tem a perseverança inabalável e, cansada de esperar por um homem que nunca veio, acabou por ter um filho de cada pai. Remédios teve de aprender a ser mulher antes do fim da infância e cativou a todos. A irritante Fernanda del Carpio aos poucos consegue impor seus métodos na casa. Além da amante de Aureliano Segundo, Petra Cotes, que o conhece e domina como ninguém e cuja força lembra a de Úrsula. As mulheres do livro só correm perigo pela ameaça de outra mulher, mas podem ser ameaça muito séria aos homens. Podem usá-los, muda-los, ou matá-los só por seus encantos.

Anúncios

5 Respostas to “Aula 25 – Pedro sobre GGM”

  1. Grégory Says:

    Neste trecho final da obra de Rosa, o que me chamou atenção é saber até que ponto o personagem Riobaldo faz parte do sertão e tem poder total para falar desse espaço. Na página 537 Riobaldo fala: “Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota, esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendurado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas. . .”. Em seguida na página 546: “O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca… O senhor crê minha narração?”.
    O sertão o cuspiu para fora. A partir disso, Riobaldo não teria condições de fazer mais parte do sertão, restava encerrar a guerra e deixar de participar das condições que o sertão induzia. No trecho anterior, ele deixa o questionamento amplo. Ele não cita nenhum homem que saiba do sertão, apenas bichos.
    O sertão produz homens e os põe fora quando quer, só bichos conhecem o sertão. O sertão é para o homem?

  2. 04/34191 Says:

    “Reinaldo, Diadorim, me dizendo que este era o real nome dele – foi como dissesse notícia de que em terras longes se passava. Era um nome, ver o que. Que é que é um nome? Nome não dá, nome recebe. Da razão desse encoberto, nem resumi curiosidades. Caso de algum crime arrependido, fosse, fuga de alguma parte; ou devoção a um santo forte.” (GSV, p. 156)

    Podemos analisar este trecho de dois pontos de vista: emissor e receptor. Em primeiro lugar, Diadorim/Reinaldo e a vergonha de admitir que interagira ao longo de anos com o mundo sob a mentira. Este argumento, como mostra Riobaldo, é em parte mentiroso. Fato: Diadorim mente quando assume um outro epíteto para se identificar. No entanto, “que é que é um nome”? As práticas de Diadorim/Reinaldo transparecem em grande parte sua personalidade, arredia e agressiva, mas que nutre carinho profundo por Riobaldo. Desta forma, a mentira existiu em grau muito menor do que o arrependimento/pesar externalizado por Diadorim/Reinaldo ao revelar seu verdadeiro nome. Vale questionar, contudo, até que ponto um nome é capaz de esconder a verdadeira face de uma pessoa.

  3. Lucas Says:

    “‘Para o ano, se Deus quiser, boto grandes roças no Valado e aqui… O feijão, milho, muito arroz…’ Ele repisava, que o que se podia estender em lavoura, lá, era um desadoro. E espiou para mim, com aqueles olhos baçosos – aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos!” (GSV:431)

    Seria Sêo Habão o anti-herói? E não seria justamente o anti-herói porque trás a parte mais realidade desta realidade…

    Num mesmo fragmento terra, homem e luta são colocados em cheque por um personagem que é dono de terra, não é o homem-chave tratado no romance e nem faz parte da luta. Aí, para mim, está a origem da mudança de Riobaldo e sua vontade de potência.

  4. Kaio Says:

    Farei dois posts: um sobre Grande Sertão, para unir o que eu falaria nos posts relativos às aulas 23, 24 e 25; o outro sobre a apresentação de Pedro.

    Pois bem, a reta final do livro é realmente estupenda; diria até que a obra cresce no decorrer de sua segunda metade, imediatamente após a morte de Joca Ramiro e o fim do “long flashback” de Riobaldo. Talvez isso decorra do fato de que o leitor já consegue montar o quebra-cabeça para desvendar a relevância de vários personagens, notavelmente Hermógenes, Zé Bebelo, Diadorim e o próprio Riobaldo.

    Um dos recursos estilísticos mais recorrentes em GSV, e inevitável em razão da própria estratégia narrativa de Riobaldo – o monólogo -, é o fluxo de consciência. Porém, Rosa não o utiliza da mesma maneira que Joyce, Lispector, Sartre etc.: ou seja, o ‘stream of consciousness’ não é algo que aparece de maneira mais ou menos específica e determinada (por exemplo, em “Ulisses” há certos capítulos em que já é previamente anunciado no índice que haverá tais fluxos). Pelo contrário, mesmo em momentos mais descritivos ou narrativos, Riobaldo usa e abusa das introspecções, solilóquios, a profunda mescla entre lembranças, reminiscências e aquilo que (supostamente) se narra. O próprio ato de Riobaldo ao frequentemente – e sempre de maneira súbita e inesperada – questionar a veracidade do que relata, inclusive apelando para minidebates metafísicos, é prova disso.

    Uma das minhas passagens preferidas é em torno da página 430, imediatamente depois de ele retomar o assunto do pacto e seu malogro (ou não). Há um tom quase nietzscheano quando ele diz “Quem é que é o Chefe”, quando o grupo volta a se reunir, com a chegada de João Goanhá e outros. Ele não poderia ter encontrado momento melhor para pôr em xeque a liderança de Zé Bebelo. e tornar-se o novo chefe do bando.
    Há uma sensação de que isso, uma hora ou outra, acabaria ocorrendo, afinal desde o episódio da batalhas dos Tucanos ele já não via Bebelo com alguém confiável e capaz de realmente fazer jus à cruzada em que eles estavam envolvidos. Porém, é finalmente a hora em que ele resolve seu dilema e desconfiança com a idéia da liderança; após várias chances perdidas, como aquela após a morte de Medeiro Vaz, já é hora de Riobaldo colocar a si mesmo contra a parede e se perguntar se era forte ou submisso, senhor ou servo. Matar os dois únicos jagunços que lhe fizeram oposição na sua “coroação” não foi mais do que um ato simbólico do nascimento de Urutú-Branco.
    É claro que se poderia colocar em dúvida a própria construção que o narrador-protagonista faz de sua ascensão. Será mesmo que ele teve tal coragem e bravura, ou que apenas foi ligeira e suficientemente astuto para aproveitar-se de uma “crise institucional e de representatividade” dentro do bando? É perigoso tirar conclusões precipitadas, afinal sequer sabemos se ele contou ou não com uma ajuda satânica para chegar aonde chegou.

    (cont.)

  5. Kaio Says:

    (cont.)

    A sequência das últimas 50 páginas é um prato cheio para digressões. Em primeiro lugar, a tentação e dúvida que acometem Riobaldo quando lhe surge o boato de que Seô Habão e Otacília estariam no arraial. Justamente no momento em que se aproxima a batalha final, surge uma nova trama: nosso (anti-)herói deve salvar a mocinha ou se concentrar na guerra? Embora inicialmente se incline para a 1ª alternativa, logo ele percebe o seu, digamos, fardo: o lugar onde ele deveria estar é junto dos outros jagunços, se preparando para o combate em que não só um inimigo de carne e osso, mas também psicológico, o espera. Após alguns devaneios, Riobaldo toma seu veredicto e vai à luta.
    Segundo, o (com o perdão do péssimo trocadilho e infame piada à la 90s) “mortal kombat”. Após dezenas de páginas criando a expectativa no leitor de que os tiros poderiam começar a qualquer momento, finalmente o faroeste sertanejo se inicia, a menos de 30 páginas do fim de GSV. Balas, morte, tensão, e um Urutú-Branco que parece meio perdido diante do contexto em que está. Não há mais o cinismo da batalha em que se derrotou Ricardão, algumas páginas antes, quando ele mais comandou que atirou. Desta vez, ele realmente aparenta não saber se toda aquela sanguinolência realmente é justificável diante do dilema que ele pretende resolver consigo mesmo. Por um momento, quase poderia se imaginar uma medrosa indiferença de Riobaldo. Porém, quando chega na janela, do lado de outros jagunços atiradores, ele redescobre-se Tatarana. “Mire e veja”, enfim.
    O que acontece, todavia, é que o Riobaldo bom de tiro titubeia justamente no momento mais decisivo da batalha: quando vê Hermógenes a alguns metros. Ele fracassa, em dois sentidos: primeiro, porque é Diadorim quem teve os colhões (!) para assassinar o algoz de seu pai, Joca Ramiro; segundo, porque ele poderia ter evitado a morte de Deodorina se tivesse a coragem para ter atirado. Em compensação, é justamente na morte dupla, de seu “amigo companheiro” e do Demo, que ele parece se encaminhar para a resposta de seu conflito existencial; algo como “tudo sai é mesmo de escuros buracos, tirante o que vem do Céu. Eu sei.” Embora, na conversa com o doutor, ele ainda não esteja certo sobre ter vendido (ou mesmo apostado) sua alma com o Diabo, acredito que ele mesmo já sabe bem o que pensar sobre o assunto diante dos cadáveres, especialmente o de Deodorina. “Ela tinha amor em mim.”

    Falei sobre outros pontos (Diadorim, multiculturalismo e relação com interlocutor) no post que fiz minutos atrás na Aula 21.

    Sobre a apresentação do Pedro, gostei da associação que ele fez de José Arcádio Buendía como o ‘europeu fora do lugar’. De fato, é possível ver em sua ascensão, apogeu e degeneração uma metáfora da evolução (e involução, talvez) da Europa: mística, depois racionalista e, subseqüentemente, niilista e autodestrutiva. Eu não creio que seria exagero traçar um paralelo entre a loucura de JAB com a da própria crise identitária européia, que percorreu todo o século XX, antecipada mesmo pela enfermidade que pôs fim, em 1889, à carreira de um de seus mais idiossincráticos filosófos: o já citado Nietzsche.

    Ah, vou aproveitar para comentar também a apresentação da Gabriela, relativa à aula 22 (Andrei, se quiser pode contar os 3 posts que fiz como 4 ou 5, rs). Eu realmente não sabia o quão autobiográfica era 100 Anos de Solidão. Se já é surpreendente – mesmo para os próprios latino-americanos – o fato de que a tênue relação entre o real e o mágico soa assombrosamente verossímil em nosso continente, o fato de que muitas situações relatadas na obra têm ressonância na vida do próprio Márquez é quase que uma prova definitiva de que a América Latina, como um todo e no particular da vida de cada um de seus, digamos, personagens de carne e osso, é um prato cheio em termos de excentricidade e melancolia.
    Agora, se a utopia de Gabo em 100 Anos é socialista ou estética, ainda não tenho um posicionamento definitivo. Dizer que são ambas as coisas (e muitas outras, afinal são apenas 2 dos inúmeros recortes temáticos que se poderia fazer sobre o romance) não só é cômodo, como abrange o que há nesta obra de político e literário, de sonho revolucionário e desilusão amarga, de ápice e queda da arte engajada e de beleza literária.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: