Aula 26 – Puig e Nassar

Oi gente,

Desculpem pela aula de terça-feira. Estou de cama esses últimos dias.De qualquer forma, a apresentação de Murilo sobre Puig segue abaixo. Teremos aula normalmente na quinta-feira.

Para seus posts, tentem levar em consideração as diferenças entre Puig e Nassar e a geração do boom.

Como vimos, GSV e CAS compartilham uma estrutura narrativa circular e, portanto, reflexiva. Ou seja, o ato de contar a história é representado como parte da própria história contada – seja pelo manuscrito de Melequíades, seja pela ênfase que o narrador Riobaldo dá à dificuldade de contar.

A minha pergunta, então, é: o que muda com Puig e Nassar? O ato narrativo continua tão importante assim? Por que livros como O beijo da mulher aranha e Lavoura arcaica rendem-se menos a leituras alegóricas do que GSV e CAS. É porque não temos mais um elemento épico? É porque o tema principal não é mais o espírito de uma nação ou de um povo? É porque o número de personagens é muito menor? É porque a ação em ambos os casos cobre apenas um período curto de tempo?

*****

O Beijo da Mulher Aranha ,obra-prima do escritor Manuel Puig, foi publicado pela primeira vez em 1980. No ano de 1985, o autor mudou-se para o Rio de Janeiro, quando adaptou sua obra para o cinema junto ao diretor argentino Héctor Babenco.

Manuel Puig nasceu em 28 de dezembro de 1932 na cidade de General Villelas, em Buenos Aires, na Argentina. Estudou arquitetura e filosofia. Em Roma, fez cursos no Centro Experimental de Cinematografia. Quando retornou da Europa, focalizou seus trabalhos na produção de literatura, e não mais em roteiros, pois havia percebido que a densidade de sua escrita seria melhor aproveitada em novelas e livros.

manuel-puig

Passou por vários países, entre 1963 1965, quando trabalhou como telefonista, lavador de pratos e professor de línguas. No mesmo período, escreveu seu primeiro romance:  A Traição de Rita Hayworth. Este foi traduzido para o francês e se tornou um best-seller.

Puig também se destaca por ter escrito outros sucessos literários, como The Buenos Aires Affair, em 1973, o qual foi censurado pelo governo argentino. Quando ainda estava no Brasil, escreveu o musical Gardel, uma lembrança em língua portuguesa.

Fernando Sabino, grande cronista e escritor brasileiro, traduziu uma das obras de Puig; o livro Boquinhas Pintadas. Sabino tomou o cuidado de manter as gírias e expressões do autor na obra traduzida. O livro conta a história de como um jovem tuberculoso lidava com os olhares preconceituosos da sociedade que o via morrer. A classe média argentina foi duramente criticada no romance.

O Beijo da Mulher Aranha sofreu adaptações não só para a linguagem cinematográfica, mas também para a do teatro, de óperas e musicais.

As obras de Puig possuem um caráter experimental, o que nos permite incluí-lo no movimento de vanguarda da América Latina. O escritor propôs uma nova linguagem ao incorporar, no seu discurso, teorias e literaturas de maneira explícita. Além disso, Puig, ao criar suas obras, já possuía o intuito de adaptá-las a outras mídias.

Manuel Puig produzia uma literatura com alta carga crítica ao governo e à sociedade. Em decorrência disso, era obrigado a, constantemente, se mudar de país para impedir que as ameaças recebidas por telefone se tornassem realidade.

Agora, focalizando nossos estudos na obra O Beijo da Mulher Aranha, aconselho que vocês contrastem  Molina e Valentín e como eles discutem os filmes que apresentam.  Molina possui uma visão muito romântica e politicamente inocente, pois dança a valsa do capitalismo. Valentín, ao contrário, fergunta sempre quem foi o diretor do filme, o escritor do roteiro e a escolha dos atores, pois sabe que toda produção artística é carregada de ideologia.

Prestem atenção também na atitude das personagens umas com as outras. A posição paternalista que elas assumem ao serem mantidas num ambiente que faz com que os valores humanos, paradoxalmente, aflorem em seus gestos, em decorrência da fome e das dores que passam.

Reparem nas imensas notas de rodapé que o autor insere ao discurso. Nelas, muitas teorias e informações, principalmente sobre homossexualidade, são apresentadas ao leitor para que ele aprofunde seus conhecimentos (e sinta-se instigado a pesquisar) sobre as qualidades vivenciadas pelas personagens que são progressivamente explicitadas.

16 Respostas to “Aula 26 – Puig e Nassar”

  1. Pedro Vinícius Says:

    Enquanto a humanidade de Molina cativa o leitor, Valentín com toda sua pretensa sabedoria, cansa. Molina é criativo, sonhador e mostra-se bem mais experimentado da vida com sua humildade que Valentín, que finge ser superior aos sentimentos, e esconde o que se passa com ele. Valentín não acha Molina elevado o suficiente para saber da sua vida, pois não recebeu a revelação do marxismo e procura, assim, manter uma certa distância, ao mesmo tempo que nega o que eles têm em comum. Valentín também supõe que por não conhecer o marxismo Molina não perceba as coisas como são, e tentando aplicar a luta de classes em tudo é ele quem acaba sendo o cego.

  2. Murilo Says:

    Como destaquei na apresentação que será, em breve, postada no blog, Puig utiliza as personagens para apresentar ao leitor dois comportamentos sociais distintos.
    Molina veste a roupagem do público que consome as produções importadas sem se dar conta de que nelas há certo grau manipulação. Valentín, com seu espírito militante, passa a indagar o companheiro de cela sobre essa postura de não tentar enxergar a verdadeira mensagem por detrás da cultura estrangeira que nos é imposta pelos meios de comunicação.
    As notas de roda-pé também me surpreenderam muito. Não só pelo tamanho, mas por explicitar teorias bem fundamentadas e aprofundadas sobre aspectos humanos que muitos de nós achamos irrelevantes. Teorias enormes sobre homossexualidade são lançadas ao leitor para que ele veja a postura das personagens através de um outro olhar. E um olhar de pesquisador-principiante. Não de mero leigo.
    Se me pedissem para descrever o livro em uma única palavra, eu diria psicologia. Pois Manuel Puig põe à prova o nosso inconsciente ao descrever certas ações das personagens (que estão mais adiante do livro). “Como você, caro leitor, reagirá ao presenciar tal acontecimento?”. Acredito que Puig pensou muito nisso ao escrever o livro. Além do nosso inconsciente, o nosso consciente também é sempre obrigado a refletir sobre as teorias e aplicá-las à nossa realidade para que possamos defender um ponto de vista.

  3. 09/49051 Says:

    Até onde li do livro, achei interessente a caracterização que é feita do personagem Molina. Ele representa o típico estereótipo do travesti, com uma sensibilidade tão grande que chega a ser confundida com pieguice e, por vezes, ultrapassa o sensível universo feminino.

    Destaco, ainda, uma passagem sobre especulações da origem de sua opção por tal estilo de vida:
    “_Confessa que é a casa onde você gostaria de morar [diz Valentín].
    _ Sim, claro. E agora tenho que agüentar que você diga o que todos me dizem [responde Molina].
    _ Vamos lá… o que é que eu vou te dizer?
    _ Todos são iguais, vêm com a mesma história, sempre!
    _ O quê?
    _ Que quando era garoto me mimaram demais, e por isso sou assim, que fiquei grudado nas saias de minha mãe, e sou assim, mas que a gente sempre pode endireitar, e o que preciso é de mulher, porque mulher é a melhor coisa que há.
    _ Dizem isso?
    _ Sim, e aí respondo… ótimo! De acordo! Já que as mulheres são a melhor coisa que há… eu quero ser mulher. Pois então me poupa de ouvir conselhos, porque sei o que se passa comigo e tenho tudo claríssimo na minha cabeça.”

    Seria mesmo Valentín um cínico que fingia não entender as colocações de Molina apenas para deixá-la falar o que ele mesmo pensava? Ou estaria Molina se precipitando em relação a um suposto julgamento alheio e devido a isso acabando por confirmar pela negação? Acho razoável que, no fundo, Molina estaria em concordância com o que atribuiu à opinião alheia.

  4. Lucas Says:

    Sobre Lavoura Arcaica, gostaria de destacar o capítulo 4. A descrição de Sudanesa (ou Schuda), uma cabrita, a qual André usa como vazão do desejo sexual é interessante. Vale a pena ler, pgs. 19 a 21.

    Ao que me parece, no plano descritivo, de GSV para Lavoura Arcaica, saimos de uma dimensão macro social, uma região, para uma dimensão micro social, a família. No entanto, não podemos dizer que Lavoura Arcaica não é alegórica. É, mas num outro sentido. É alegórica em relação a um tempo indefinido, pós moderno, e, não por engano, pós modenismo. De fato, GSV parece ser a última grande obra brasileira que é um caleidóscopio do Brasil, do Mundo! No entanto, saímos do épico, de Tróia!, para o contemporâneo, um qualquer quarto em qualquer cantão onde o a vida tradicional é estuprada pela mundo moderno, e no caso de Lavoura arcaica, não só ela. Num outro plano, senti falta da inventividade. Teria o mundo perdido sua graça?

    É a perturbação, alucinação?, que constrói a fantasia, que, entretanto, não é fantástica, em Nassar. Lavoura Arcaica retrata um tempo posterior a morte de Zé Bebelo em GSV, depois que este vai para a cidade. Podemos pensar em André como um seu neto – digo, uma mesma geração -, embora tenha este outra parentalidade geográfica, religiosa, cultural. Digo isso, pois, de fato, é sintomática a transição de um tempo onde se faz sentido falar em grandes projetos universais, tanto no plano político, quanto no plano estético, para outro em que tudo é mais híbrido, confuso, o tempo da fuga, da depressão, do projeto ser não ter projeto…

    Teriam CAS e GSV anunciado isso?

  5. 09/49051 Says:

    É realmente interessante como Valentín questiona o filme de maneira que Molina não faz. E quando Valentín a instiga a fazer, ela foge como se isso fosse tirar toda beleza do filme e a imagem idealizada que ela mantém dele. São dois extremos: Molina e sua constante abstração, e Valentín e sua rigidez, sua disciplina, seu excesso de realidade. Ela seria o público que considera o filme como abstração da realidade, e o admira enquanto arte. Já Valentín está sempre atento as “conspirações capitalistas” e as manifestações ideológicas. Gostei desse trecho:
    “_Sim, mas você sabe que os maquis eram verdadeiros heróis, não é? [ diz Valentín]
    _ Você pensa que sou mais burra do que sou.
    _ Se fala feminino é porque a dor já passou.
    _ Bem, seja o que for, mas que fique claro que o filme era lindo pelas cenas de amor, que eram um verdadeiro sonho, os caras do gov erno devem ter imposto ao diretor a parte política, ou não sabe como são essas coisas?
    _ Se o diretor fez o filme, já é culpado de cumplicidade com o regime.”

    Obs.: Na antepenúltima linha do parágrafo “Agora, focalizando nossos estudos na obra O Beijo da Mulher Aranha” não seria pergunta ao invés de fergunta?

  6. Kaio Says:

    A respeito dos primeiros capítulos de “Lavoura Arcaica”, há 2 apontamentos que eu gostaria de fazer (e mais uma pergunta-quase-dúvida como bônus):

    1. A estratégia narrativa de Raduan Nassar, através de André, parece ser o fluxo de consciência levado às últimas consequências: o protagonista expele tudo que lhe venha em mente, muitas vezes misturando assuntos e só sendo parcialmente claro nas últimas linhas de seus parágrafos/capítulos. O ritmo é frenético, como se fosse em ritmo acelerado porém descontínuo.
    No capítulo 7, por exemplo, ele, provavelmente sob estado de delírio, consegue associar uma discussão sobre beber ou não vinho com a epilepsia (daí a “peste no corpo”?), e trava em seus pensamentos uma longa discussão com o irmão – que, aliás, não podemos definir o quanto daquilo foi realmente dito. Com isso, posso afirmar que sim, o ato narrativo continua importante em Nassar, mas de uma maneira bem diferente do que nas gerações literárias anteriores; em outras palavras, o âmbito dos debates e digressões não é o ‘macro’, a política e/ou a sociedade, mas sim uma das instâncias mais intimistas possíveis: a família e o papel que exerce na maneira como indivíduo encara a si mesmo e a todos à sua volta (inclusive os próprios familiares).

    2. Ainda nessa linha, os sermões do pai entram como o elemento contra o qual o protagonista move, simultaneamente, ódio e veneração. No capítulo 9, a reflexão sobre o tempo e a paciência adquirem tons de pregação, exortação e até reprimenda moral aos membros da família que porventura se desviassem daquilo que seria correto e prudente para o pai. O cap. 13 complementa essa digressão, mas sobre ela falarei no meu post de semana que vem.

    3. Ah, a pergunta-quase-dúvida é a seguinte: a mistura, confusão que André faz quando fala sobre sua irmã Ana e sua mãe (como no capítulo 5) é deliberada, para acentuar o elemento de incesto?

  7. Grégory Says:

    Enquanto Lucas destacou a parte da cabrita, prefiro falar do capítulo 7. Neste capítulo, André conta toda sua revolta em relação aos sermões que eram proferidos pelo seu pai. O personagem se exalta dizendo conhecer a sua família como ninguém, e ele seria o único a reconhecer tudo aquilo que é obscuro nos sentimentos de cada membro da família. Esse tema, família, é presente nos sermões do pai. O aparente conservadorismo do pai é um motivo de revolta para o personagem, que quer se libertar. E acaba por defender que o pai não tinha noção do uso que poderia ser feito das palvras que eram ditas. André, até então não deixa claro que tipo de apropriação ele pode ter feito dos sermões do pai, mas já avisa para o irmão a origem da sua revolta, que pode ser uma interpretação das palavras do pai. Talvez, o pai sempre falando de família e no amor que deveria existir, André entendia a fundo sua familia quando explorava as roupas sujas dos membros da família. André realmente tinha contato com a família, talvez, mais que seu pai.

  8. Joyce Says:

    A narração no livro de Puig parece ganhar menos importância se comparado ao GSV. Em Grande Sertão, Riobaldo queria demonstrar que estava no local, que conhecia os lugares por onde a história se passava. Em Puig, Molina conta as histórias e até mesmo inventa de acordo com a interpretação dele.
    “-Bem, ele gosta de Irena porque ela é frígida e não tem que atacá-la, por isso a protege e a leva para casa, onde a mãe está presente em todos os móveis e cortinas e porcarias, não foi você mesmo que falou?
    -Continua.
    – Se ele deixou todas as coisas da mãe em casa,intactas, é porque quer continuar sempre sendo um menino em casa da mãe, e o que traz para casa não é uma mulher, mas uma menina para brincar.
    – Mas isso é tudo da tua cabeça. Sei lá se a casa era da mãe, eu disse isso porque gostei muito daquele apartamento e como era de decoração antiga disse que podia ser da mãe, mais nada. Talvez ele o alugue mobiliado.
    – Então você está inventando a metade do filme.
    – Não, não invento, te juro, mas há coisas que para te dar idéia, para que você as veja como estou vendo, bem, de alguma forma tenho que explicar. ”(pág. 19)
    Molina também não lembra a história “E não sei direito como continua. (…)Espera um pouco… não sei se é aí que ela é cumprimentada por uma mulher que a assusta” (p.9), mas isso não impede que continue a contar normalmente. Riobaldo, em GSV, não lembrava de tudo na ordem certa, mas voltava sempre atrás para contar o que tinha esquecido. Em GSV, a narração é de um local que não existe mais para o leitor da forma que Riobaldo viu. No livro de Puig, pelo menos até onde eu li, a história se passa numa cela e o movimento da narrativa se dá pelas histórias de ficção e verdadeiras que os dois contam. É algo do dia-a-dia, que podemos encontrar a qualquer hora.

  9. 04/34191 Says:

    As primeiras páginas do Beijo da Mulher Aranha assustam pela falta de estilo. No decorrer do texto percebe-se que a oralidade e repetição de palavras – desconfortável para a leitura – é intencional (“Faz frio, é inverno. As árvores do parque estão descascadas. Sopra um vento frio. (…) Um pouco mais adiante, perto da jaula das girafas, há umas crianças com a professora, mas vão embora depressa, não agüentam o frio. – E ela não sente frio? Nem se lembra do frio.” (BMA: 7). A imprecisão da narrativa por vezes lembra GSV (uma história contada de memória) mas é nítida a falta de pretensão da narrativa. Esta, no entanto, desfaz-se no decorrer do dialogo, projetada na erudição e pretensa sabedoria de Valentín.

  10. 09/49051 Says:

    SOBRE O BEIJO DA MULHER ARANHA

    No decorrer do livro percebi que o lugar antes ocupado pela mãe na vida de Molina é substituído por Valentín. É claro que a mãe continua tendo sua importância, mas o avançar da narrativa demonstra que a preocupação de Molina e o direcionamento de sua atenção e afeto vão focalizando em Valentín.

    “_ Valentín, fiz uma promessa, não sei a quem, a Deus, embora não acredite muito.
    _ Sim…
    _ E é que a coisa que eu mais queria na vida era poder sair para tomar conta de minha mãe. E que sacrificava qualquer coisa por causa disso, eu ficava em segundo plano, antes de nada pedi para poder tomar conta de minha mãe. E meu desejo foi cumprido.
    _ Então deve ficar contente. Você é muito generoso de pensar primeiro em outra pessoa e não em você. Tem que estar orgulhoso de ser assim.
    _ Mas isso é justo, Valentín?
    _ O quê?
    _ Que eu fique sempre sem nada… Que não tenha nada na vida realmente meu.
    […]
    _ Escuta. Minha mãe já teve sua vida, já viveu, já teve marido, seu filho… Já é velha, sua vida está quase encerrada…
    _ Sim, mas ainda é viva.
    _ Sim, e eu também sou vivo… Mas quando começa minha vida? Quando vai me caber alguma coisa, ter alguma coisa?

    Se não fosse pelo aparecimento de Valentín, provavelmente Molina não se questionaria sobre essas coisas, não cogitaria ter uma vida separada da sua mãe. Uma vez que o relacionamento materno era, aparentemente, o único relacionamento verdadeiro que ela tinha. A relação dela com o garçom, por exemplo, existia mais nas ilusões dela do que na prática. Valentín também não ficava atrás com seu namoro regrado de acordo com os objetivos “de uma causa maior”, que não permitia envolvimento emocional. E talvez essa seja uma característica que os dois partilhassem até se envolverem de maneira tão forte: o histórico de relacionamentos falsos.

  11. 09/49051 Says:

    SOBRE LAVOURA ARCAICA

    O conflito constante entre desejo e consciência que habita em André é muito interessante. O episódio do vinho, no capítulo 7, pode problematizar a briga desses opostos. Acho que ele pode ser entendido como um momento de revolta de André contra os julgamentos e repreensões do pai, uma vez que o pai fala “e nem você deve beber mais, não vem deste vinho a sabedoria das lições do pai” e ainda: “não é o espírito deste vinho que vai reparar tanto estrago em nossa casa”. É quando André em um sarcasmo agressivo refuta às acusações do pai dizendo que ele não fugira de casa (causando desgraça na família) porque se entregara aos prazeres da vida, mas porque era epilético. Ele diz como se toda a preocupação do pai fosse não em relação ao seu bem-estar, mas como suas atitudes repercutem na família, e na imagem do que os outros têm da família. Sendo assim, ter um filho doente é menos vergonhoso que ter um filho perdido.

    Em outro trecho do livro, o vinho também é tido como a chave para desfrutar o mundo profano: “deixe que o vinho vaze pelos teus poros, só
    assim é que se cultua o obsceno” – se eu não me engano, trata-se de um momento em que André apenas mentaliza o que poderia ser um diálogo com seu irmão-. André mostra-se, assim, como alguém repreendido, que
    vê os prazeres profanos sempre associado à culpa, e o embebedamento que engana a consciência deixaria os sentidos livres para desfrutar o mundo.

    O incesto também ilustra essa luta entre paixões e razão. Se não é o motivo maior – como pode ser entendido no capítulo 11-. A relação sexual entre familiares tem uma abordagem diferente em Lavoura Arcaica em relação a Cem anos de solidão. No primeiro, as conseqüencias psicológicas e morais que o incesto provoca é a abordagem central. Já em CAM, a função é mais alegórica e a abordagem é bem mítica, não há uma problematização “social” do incesto.

  12. Joyce Says:

    Valentin é do tipo forte, engajado na política, uma pessoa que acredita e luta por ideais. Molina já é do tipo romântico, sonhador. Há um momento, no entanto, que os papéis dos dois personagens parecem inverter. Acredito que tudo começa com a diarréia de Valentin. Ele fica com medo de se mostrar fraco, mas acaba fazendo isso. Já Molina cuida dele, sem reclamar e se mostra mais forte.
    “- Ai…ai…desculpa…ai…que foi que eu fiz…
    – Não, não limpa com o lençol, espera…
    – Não, deixa, tua camisa não…
    – Sim, pega, limpa, você vai precisar do lençol para não se resfriar
    Mas é tua muda, você fica sem camisa para trocar…
    – Anda, espera, levanta, assim não passa, assim, com cuidado, espero que não passe para o lençol.
    – Não passou para o lençol?
    – Não ficou na cueca. Anda, vamos, tira.
    – Que vergonha me dá…
    – Isso mesmo, devagarzinho, com cuidado… perfeito. Agora a parte mais grossa limpa com a camisa.
    – Que vergonha
    – Você não dizia que era preciso ser homem…Que história é essa de sentir vergonha?”

    Lamentável esse trecho…Parece que estamos vendo a cena toda. Mas é nessa parte que acho que Valentin começa a mostrar suas fraquezas. Depois disso, ele passa a querer contar as histórias dele para Molina (o que antes era segredo), mas este, que no início queria saber da vida dele, pede para não contar. Depois vemos que Molina não quer saber de nada por medo de ser interrogado e contar tudo, já que está ali na cela para tentar tirar informações sobre os amigos “subversivos” de Valentin.
    Lá pela página 184, Molina recebe um apelido bem carinhoso… “- O que foi Molinita?”;
    “(Valentin)-Anda… não fica assim…, Molinita
    – Não…te peço, não toca em mim…
    – Teu amigo não pode passar a mão em você?
    É pior…
    – Por quê?…anda, fala, já está na hora da gente confiar um no outro. Realmente quero te ajudar, Molinita, diga o que você tem.
    (…)
    (Molina)-E agora você…me cortou a vontade de chorar. Não posso continuar chorando. E é pior, o nó na garganta, está me apertando, é algo horrível.
    (…)
    (Valentin)- É aqui que dói?
    É…
    Posso te acariciar? ”

    Valentin passa a contar suas histórias e ensinar como falar com os “camaradas” sem ser descoberto. Molina, antes falador e sentimental, passa a esconder o segredo: o real motivo por estar naquela cela. No final das contas quem morre por um ideal é Molina e não Valentin. Ele passa a ser o herói da trama. Mas na verdade Molina não morre pela política. Acho que morre por amor à Valentin, aprende e arrisca tudo por ele.

  13. 04/34191 Says:

    Chama a atenção a riqueza das relações humanas que Puig procura destacar. O livro se passa inteiro dentro de um ambiente hostil, mas nem por isso empobrecedor. A convivência entre os dois personagens, na medida em que se desenvolve, fortalece os laços entre os personagens, ainda que se mostrem à primeira vista, antagônicos. Partindo para o nível da especulação, posto que ainda não cheguei ao final do livro, Valentín e Molina parecem caminhar em direção a uma síntese de suas personalidades. Em outras palavras, aprendem um com o outro. Um aprendizado nem sempre voluntário – são várias as reticências em se abrir, sobretudo da parte de Valentín, ao outro. Situações limite, contudo, levam-nos à partilha de segredos mais íntimos. Os laços,dessa forma, são fortalecidos e viabilizam a vida na prisão. Os momentos de digressão individuais, como a tentativa de Molina de narrar para si mesmo um filme (pp.92-98), não são tão bem sucedidas no que tange à diminuição do sofrimento. Interessante também é notar a maneira que Puig relata a narrativa de Molina, não exatamente linear e com cortes bruscos, destacando assim a raiva sentida pelo personagem.

  14. 09/49051 Says:

    Molina diz para Valentín:
    “_Bem, não pense em nada estranho, mas se eu te tratar bem, é porque quero ganhar tua amizade, e por que não dizer… teu carinho. Da mesma maneira que trato minha mãe bem, porque é uma pessoa boa que nunca fez mal a ninguém, porque gosto dela, porque ela é boa e quero que ela goste de mim… E você também é uma pessoa muito boa, muito desinteressada, que arriscou a vida por um ideal muito nobre… E pára de olhar para outro lado, te dá vergonha?”

    A essa altura do livro já tinha sido revelado que Molina era na verdade uma infiltrada que deveria delatar Valentín. Após a revelação, me questionava quão genuína eram suas manifestações de carinho. No livro não dá para saber em que momento ela mudou de idéia, se ela mudou, em que momentos estava dissimulando carinho para atender aos objetivos a que se propôs. Dada as circunstâncias, não fica muito claro as razões do comportamento de Molina. Já com Valentín isso não ocorre, é óbvia sua transição de resistência para uma total confiança em Molina.

  15. 09/49051 Says:

    (Lavoura arcaica)

    Achei interessante o paralelo que fizemos entre Molina e André na última aula, já que ambos tentam experimentar o mundo sem um método pré-estabelecido, sem submetê-lo a uma moral ou regra padrão, que não deixa passar nada sem uma explicação lógica. Para realizar tal feito, André tem que constantemente combater as contaminações morais do pai. É uma tarefa difícil, já que a presença do pai na casa é muito forte: ele realiza sermões longos e muito bem argumentados sobre a importância da paciência, da união da família, da negação das paixões. E faz isso sempre, durante as principais refeições, e em qualquer momento que perceba a ameaça de um não-cumprimento do que ele considera como leis. André tomou para si o dever de refutar cada um desses ensinamentos e com a mesma intensidade em que eles são reforçados pelo pai. Em certos momentos, parece até que se trata de uma negação cega, de um objetivo de vida que é “negar a moral do pai”, assim como o objetivo do pai é reforçar tal moral e o objetivo de Valentín – em BMA – é fazer uma revolução de esquerda. Portanto até que ponto André também não é um pouco Valentín? Segue um trecho em que André sobrepõe os ensinamentos do avô aos ensinamentos do pai:

    Em memória do avô, faço este registro: ao sol e às chuvas e aos ventos, assim como a outras manifestações da natureza que faziam vingar ou destruir nossa lavoura, o avô, ao contrário dos discernimentos promíscuos do pai — em que apareciam enxertos de várias geografias, respondia sempre com um arroto tosco que valia por todas as ciências, por todas as igrejas e por todos os sermões do pai: Maktub -“está escrito”-.

    Ao que me parece, “está escrito” é apenas uma versão resumida de todos os ensinamentos do pai sobre paciência e sobre “a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo”. A moral, no final das contas, é a mesma.

  16. matheus Says:

    É aprimeira vez que escrevo meu parecer sobre um livro que potencialmete será visto por pessoas mais experimentadas que eu nessa area então peço a voces tolerância,
    acredito que o conceito sociológico de Puig vai muito alem da escrita, como Valentin exemplifica no livro, o cenario (cela) é como um biomo onde nunca serão julgados, e onde podem tomar a liberdade de fazerem o que quiserem, acredito que com isso Manuel deixa uma mensagem nas entrelinhas, a relação entre Valentin e Molina, não é amorosa, e sim familiar, é provavel que mais precisamente maternal, já que molina não deixa claro a relaçao com seu pai, menos ainda sentir falta do mesmo, mas cita a doença de sua mãe repetidas vezes, minha teoria é que quando Valentin adoece Molina ve nele a oportunidade de cuidar da sua moléstia como fora da cela faria com a sua mãe, outro aspecto nítido da relaçao é que Molina demontra ver Valentin não como um alvo de seu desejo sexual somente, mas um porto seguro, sua figura viril lhe transmite segurança, é obvio que nesse momento a teoria se contradiz por sua mãe não compartilhar desses aspectos, porem é inegável que Valetin lhe transmita segurança, e as anotaçoes de rodapé que inclue teorias e explicaçoes mais que detalhadas sobre sexualidade, principalmente o efeito que a filiação e criação do indivíduo “interferem” na sua sexualidade, assim sendo acredito que a proposta de Puig com a leitura seja demonstrar que uma relação inocentemente familiar pode carregar secretamente uma tensão sexual poderosa, e que em certas singularidades podem se aflorar, sei que quem ler este comentário pode achalo asqueroso, mas quem tiver lido outras obras de Mnuel Puig como The Buenos Aires Affair verão que o autor costuma deixar de lado valores ortodoxos e abraça a liberdade sexual, portanto não se preocuparia no julgamento resultante de narrar uma obra praticamente incestuosa. E assim mais uma vez Puig abre nossos olhos para os conceitos sociais.

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