Aula 09b – Ajuda com Foucault

Relendo As palavras e as coisas, fiquei com certo receio de que alguns de vocês estejam em pânico. Seria compreensível. O texto de Foucault é hermético, complexo e contra-intuitivo. Certamente, é o mais difícil que leremos no semestre.  Além da dificuldade inerente ao texto em si, à escrita, Foucault pressupõe considerável conhecimento histórico. Espero que as informações contidas nesse post ajudem a reduzir a dificuldade de leitura.

Sobre o que é o texto?

O texto é sobre uma mudança radical na definição do conhecimento – e dos procedimentos necessários para adquiri-lo – que teria ocorrido durante a Era Clássica.

O que seria essa tal Era Clássica?

Trata-se de um termo bastante comum na historiografia intelectual francesa, no esquema histórico que eles usam para mapear os diferentes momentos do desenvolvimento intelectual europeu. Análoga ao que os Ibéricos descreveriam como a Era Barroca, a Era Clássica é definida como o período que começa com Descartes e acaba com Kant.

Quem são esses dois?

São filósofos. René Descartes, conhecido como o pai da filosofia moderna, nasceu em 1596 e morreu em 1650. Já Immanuel Kant, o principal pensador do Iluminismo, nasceu em 1724 em 1804.

O que eles têm em comum e o que isso diz a respeito dessa tal história intelectual européia?

Boa pergunta. Para respondê-la, é preciso voltar um pouco e falar do “Renascimento” – termo dado ao período histórico que começa no final do século XIII e se estende ao início do século XVI. Foi um período único, no qual as cidades da Itália consolidaram seu controle sobre o comércio no Mar Mediterrâneo. Mais ricas, elas viveram um boom cultural. Financiados ora por comerciantes, ora pela Igreja, pintores, escultores, filósofos, escritores e outros agentes culturais tiveram as condições materiais e intelectuais necessárias para produzir arte bonita e pensamentos interessantes.

Esse boom foi ampliado depois que Constantinopla foi conquistada pelos turcos, em 29 de maio de 1453. A queda marcou o fim do Império Bizantino – criado por Constantino, que dividiu o Império Romano em duas partes em 330. (O Império Romano do Ocidente caíra antes, em 476). Com a queda de Constantinopla, muitos artistas e intelectuais da cidade (hoje, Istambul, na Turquia) fugiram para a Itália. E trouxeram consigo livros, idéias, técnicas e formas de pensar que ajudaram a estimular o boom renascentista.

Mas o Renascimento foi um momento paradoxal. De certa forma, representa o auge do poder da Igreja, que financiou a explosão cultural. Ao mesmo tempo, o boom renascentista também foi marcado por um humanismo, uma secularização e um investimento na razão que acabariam enfraquecendo a própria Igreja.

A Era Clássica é o período desse enfraquecimento. Tome como exemplo Descartes. Um de seus livros mais importantes é Medicações para a primeira filosofia (1641). O texto é interessante porque tem como principal objetivo demonstrar – racionalmente – a existência de Deus.

O que Descartes diz? Eu existo. Eu imagino um ser prefeito. Como a perfeição não pode surgir da imperfeição, minha noção de um ser perfeito não pode ter surgido de mim e tem que ter surgido de um ser prefeito. Não é possível ser perfeito sem existir. Logo, Deus (o ser perfeito) necessariamente existe.

O que há de secular nisso? Muito, se pensamos que a palavra operante aqui é “racionalmente”.

Para sua época, o projeto de Descartes é absolutamente revolucionário. Não está lendo a Bíblia para demonstrar a existência de Deus. Está tentando chegar a Deus sozinho, por intermédio da razão – feito que Kant tentaria repetir. Descartes, aliás, chega a sugerir na dedicatória das Meditações (sintomaticamente endereçada ao decano da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris) que a existência de Deus “deve ser determinada com o ajuda da Filosofia e não da Teologia“.

Há uma mudança radical aqui. Uns 300 anos antes, Dante lançara Odisseu na oitava bólgia – nos quintos de seu Inferno. O motivo “oficial” da condenação era a fraude do Cavalo de Tróia. Mas, no texto, Odisseu atribui o infortúnio à tentativa de buscar, sozinho, “virtude e conhecimento” em suas navegações. Ou seja, a travessia, a busca por um passo ou caminho – termo que na Comedia é sempre tão espiritual quanto físico – se faz com a ajuda de guias e, especialmente, da Providência. Para Dante, o projeto de Descartes de sair sozinho em busca de Deus seria – no mínimo – uma temeridade.

Já Kant representa o auge desse otimismo com a razão. Diz, no prefácio de A crítica da razão pura que “não há um único problema metafísico que não encontre sua solução, ou pelo menos a chave de sua solução” no livro. Ou seja, tanto Descartes quanto Kant acreditam piamente na própria capacidade de ordenar o mundo e resolver todas as dúvidas e ambigüidades da história, da filosofia e da vida prática por meio da razão. É esse projeto – tão revolucionário quanto ingênuo – que marca a Era Clássica.

Entendi o contexto. E quanto a Foucault?

A secularização possibilitada pelo Renascimento e aprofundada na Era Clássica gera uma mudança radical daquilo que Foucault descreve como épistémè.

É o que?

Épistémè. Foucault usa o palavrão em As palavras e as coisas para descrever os pressupostos que definem como cada período histórico entende, legisla e constrói o conhecimento. Posteriormente, descreveu a palavra da seguinte forma:

Eu definiria épistémè retroativamente como o aparato estratégico que permite a separação – entre todas as afirmações possíveis – aquelas que serão aceitáveis dentro de não de uma teoria científica específica, mas de um campo de cientificidade. [Essa separação] torna possível dizer que algo é verdadeiro ou falso. A épistémè é o ‘aparato’ que torna possível a separação, não entre verdadeiro ou falso, mas entre o que pode ou não pode ser caracterizado como científico.

Para Foucault, todo discurso que pretende se consolidar como conhecimento tem uma série implícita de procedimentos, práticas analíticas, formas de argumentação e pressupostos aceitáveis. Essa série antecede a qualquer tentativa de interpretação.

Pense, por exemplo, na decisão de Descartes de provar a existência de Deus pela razão. Ela representa uma mudança radical em relação à épistémè medieval, para a qual a  razão é um instrumento insuficiente para se chegar à verdade – que é revelada pela Bíblia, pela Encarnação e pela Providência. Descartes diz algo parecido ao que um religioso medieval diria: “Deus existe”. Mas há uma diferença radical no que diz respeito às formas de justificar esse “Deus existe”. Os critérios aceitáveis para considerar algo conhecimento mudam.

Não por acidente, Foucault fala repetidamente no quarto capítulo de As palavras e as coisas que o comentário que caracterizava a épistémè medieval foi substituído aos poucos pela crítica.

Pense nisso. Qual é a diferença entre comentário e crítica? No fundo, o comentário apresenta-se como uma anotação à margem de um texto primeiro (nesse caso, a Bíblia). Sua função é subsidiar a leitura. Já a crítica se desvincula desse texto privilegiado, primeiro. Remete a textos que remetem a textos (e realidades) que remetem a textos (e realidades). No fundo, a bagunça intelectual da atualidade começa lá atrás.

Por isso costuma-se dizer que o Quijote é o primeiro romance moderno. Dom Quijote, como diz Foucault, é o “herói do mesmo”. O romance parodia a similitude, a retórica escolástica e as convenções romances de cavalaria… todos elementos que qualquer leitor de Cervantes associaria à visão medieval.

E o que isso tem a ver com a América Latina?

Tudo. Não por acidente, Rama cita Foucault repetidamente. Isso porque, para Rama, o projeto colonial é um projeto marcado pela dissociação entre palavra e coisa e pela substituição da similitude pela mathesis geométrica. São ambas mudanças que Foucault atribui à Era Clássica. De fato, as datas batem muito bem. Descartes nasce logo quando o projeto colonial começa a tomar impulso. E Kant morre em 12 de Fevereiro de 1804 – 42 dias depois da independência do Haiti.

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