Aulas Finais

Oi gente,

Terei que escrever isso correndo, por recomendação médica. Estou com um início de hérnia. E recebi a recomendação de passar o menor tempo possível diante do computador. Por isso, terei que mudar algumas coisas nesta semana final da disciplina.

1)      Não teremos mais consultas.

2)      Não poderei mais atualizar o blog.

3)      Peço que façam os posts na área reservada para a última aula.

4)      Ainda lerei seus posts antes das aulas. Mas estou proibido de passar longos períodos ao computador, então não poderei fazer longos prompts de apresentação.

5)      Teremos aula até terça-feira, dia 2.

6)      Confirmarei a data de entrega do trabalho final amanhã. Mas acho que será domingo, dia 7 de dezembro.

7)      Por favor, também tragam Grande Sertão: Veredas ou Cem Anos de Solidão, para que possamos discutir o final dos dois.

Até amanhã.

10 Respostas to “Aulas Finais”

  1. Murilo Says:

    Prestemos atenção na parte do livro em que Valentín tem problemas estomacais. Podemos notar dois fatos interessantes: o primeiro é a troca de papéis quanto aos trejeitos das personagens e o outro é uma crise de Valentín sobre sua máscara social.
    O primeiro fato diz respeito ao momento em que Molina assume o papel paternalista da cela, quando cede a própria camisa para limpar as fezes de Valentín. Este deixa aflorar sua sensibilidade por mostrar-se envergonhado de ter a sua cueca retirada pelo parceiro e suas nádegas limpadas pelo mesmo. A maneira como Puig escreve o diálogo nos deixa transparecer um lapso de identidade entre as personagens. Quem seria mais homem nessa hora?
    “ – Não, ficou na cueca. Anda, vamos, tira.
    – Que vergonha me dá…
    – Isso mesmo, devagarzinho, com cuidado… Perfeito. Agora a parte mais grossa, limpa com a camisa.
    – Que vergonha…
    – Você não dizia que é preciso ser homem… que história é essa de sentir vergonha?

    – É a raiva, uma raiva que me dá vontade de chorar, raiva de mim mesmo.”

    O segundo fato importante do trecho é o conflito de Valentin com sua máscara social. Como já escreveu Machado de Assis em seu conto “O espelho”, algumas pessoas acabam transformando o seu EU EXTERIOR num resumo da própria essência pessoal, sendo que esta deveria ser formada pelo conjunto do EU EXTERIOR com o EU INTERIOR. Valentín acabou alimentando apenas sua parte externa e isso fez com que ele mesmo acreditasse que se resumia apenas naquele militante político, acabou por esquecer quem realmente era e de qual madeira era feita sua raiz. Ao ter de dividir a cela com um travesti e ter de depositar nele os cuidados de sua saúde, Valentín entra num conflito que o faz resgatar suas origens (“Não sei porque não falei nunca da minha mãe”) e o contrapõe com sua máscara social (“sim, tenho raiva de ter me deixado pegar”).

  2. 04/34191 Says:

    Chama a atenção a riqueza das relações humanas que Puig procura destacar. O livro se passa inteiro dentro de um ambiente hostil, mas nem por isso empobrecedor. A convivência entre os dois personagens, na medida em que se desenvolve, fortalece os laços entre os personagens, ainda que se mostrem à primeira vista, antagônicos. Partindo para o nível da especulação, posto que ainda não cheguei ao final do livro, Valentín e Molina parecem caminhar em direção a uma síntese de suas personalidades. Em outras palavras, aprendem um com o outro. Um aprendizado nem sempre voluntário – são várias as reticências em se abrir, sobretudo da parte de Valentín, ao outro. Situações limite, contudo, levam-nos à partilha de segredos mais íntimos. Os laços,dessa forma, são fortalecidos e viabilizam a vida na prisão. Os momentos de digressão individuais, como a tentativa de Molina de narrar para si mesmo um filme (pp.92-98), não são tão bem sucedidas no que tange à diminuição do sofrimento. Interessante também é notar a maneira que Puig relata a narrativa de Molina, não exatamente linear e com cortes bruscos, destacando assim a raiva sentida pelo personagem.

  3. Grégory Says:

    Na segunda parte lida do livro Lavoura Arcaica, até o capítulo 18, encotramos o período em que André encontra a sua principal queixa em relação aos sermõe do pai. Este sempre falava muito em paciência, em que o tempo de espera se fazia necessário. André em suas memórias recorda que aprendeu na infância que existe o tempo de aguardar e o tempo de ser ágil. A imapciência também tem sua hora. A partir dessas observações André decide não mais adiar a sua vida. Nessa discussão de pensamentos, como paciência, impaciência, esperar, agir é que se dá o conflito entre os sermões do pai e o fluxo de pensamentos de André. O que gera a revolta deste.

  4. Kaio Says:

    Dando continuidade ao post de semana passada, falemos sobre o capítulo 13.
    A história do faminto pode muito bem ser considerado como um exemplo das tramas paralelas que acometem obras do pós-boom como “Lavoura Arcaica”. É uma anedota bem peculiar, que remete o leitor a algo semelhante às histórias típicas do Oriente Médio, como Simbad e Mil e Uma Noites – não só pela atmosfera opulenta e autocrática, como também pelo forte apelo moral e de valorização do homem abnegado e emocionalmente equilibrado.
    Ela é bem representativa do estilo adotado pelo patriarca e suas lições; colocar a paciência (algo como “boas coisas vêm para aqueles que sabem esperar”) como uma virtude, algo em que se basear na conduta para a vida, é bem característico de personagens como ele. Em contraposição a isso, André aparece justamente como o indivíduo espontâneo, urgente e de vivência intensa. Os padrões que lhe são impostos pela organização de sua família e a autoridade do pai são alguns dos alicerces contra os quais ele, ao que parece, se opõe frontalmente.

    “compondo máscaras terríveis na minha cara, me atirando, às vezes mais doce, em preâmbulos afetivos de uma orgia religiosa (…) o tempo, o tempo, o tempo me pesquisava na sua calma, o tempo me castigava”

    O capítulo 17 contém uma digressão sobre o tempo, que equivale a descrição dos passos de Ana em mérito literário. O protagonista, sempre nutrindo tantos e tão contraditórios sentimentos, tem uma relação de submissão e profundo envolvimento com aquilo que denomina ‘tempo’. Há um certo caráter transcedental e contemplativo nessa reflexão, embora o próprio fato de implicitamente descrever o incesto com a irmã faça este capítulo também ter um caráter de contato denso e inescapável com o material, com a nudez da realidade.
    De qualquer maneira, fica claro que Raduan Nassar, em sua obra, está muito mais preocupado com os “estados alterados da mente” de seu personagem principal do que com mediação cultural e/ou outras questões mais ambiciosas e sociopolíticas. O interior da alma de André, assim como a maneira como ela encara a si mesmo e a seu mundo como “vontade e representação”, parece ser um dos objetivos imediatos da narrativa.

  5. Pedro Vinícius Says:

    Interessante a inversão que ocorre na segunda parte de “O Beijo da Mulher Aranha” e como é apresentado. Molina que com sua sexualidade dúbia é também um agente duplo e descobrimos que ele não é tão bobo quanto se supunha. E enquanto Valentín com toda sua pretensa sabedoria sobre política vive na inocência. Acaba, então, Molina se tornando o mártir que Valentín acreditava ser. Outro ponto que me chamou a atenção é a função das notas no final do livro e como elas me parecem servir de base para o enredo, mas como se o enredo fosse caricato e mostrasse como essas teorias podem ser furadas.

  6. Anônimo Says:

    Não sei até que ponto minha simpatia por Molina me impede de acreditar na sua capacidade de dissimulação. De qualquer forma, parece-me evidente uma tentativa de reparação de sua parte ao encher a cela de provisões depois do retorno da conversa com o diretor do presídio. Ainda que um agente duplo agindo em favor de um regime perverso, Molina não perde seu caráter humano, e parece de fato investir na relação com Valentín. Sua lista de compras evidencia a culpa que sentiu ao prejudicar o colega de cela. O fato de requisitar que todos os mantimentos sejam enviados em quantidades suficientes para duas pessoas demonstra, de certa forma, seu apreço pelo colega (ou a repulsa por seu ato). Essa perspectiva é reforçada ao observarmos um pequeno momento de hesitação no discurso de Molina ao entender que a comida comprada no mercado parece ter feito mal a Valentín (“- Mas essa comida não pode ter feito mal. / – Está louco, como eu vou botar a culpa na tua comida? / Como você está nervoso…” p. 143).

  7. 04/34191 Says:

    Não sei até que ponto minha simpatia por Molina me impede de acreditar na sua capacidade de dissimulação. De qualquer forma, parece-me evidente uma tentativa de reparação de sua parte ao encher a cela de provisões depois do retorno da conversa com o diretor do presídio. Ainda que um agente duplo agindo em favor de um regime perverso, Molina não perde seu caráter humano, e parece de fato investir na relação com Valentín. Sua lista de compras evidencia a culpa que sentiu ao prejudicar o colega de cela. O fato de requisitar que todos os mantimentos sejam enviados em quantidades suficientes para duas pessoas demonstra, de certa forma, seu apreço pelo colega (ou a repulsa por seu ato). Essa perspectiva é reforçada ao observarmos um pequeno momento de hesitação no discurso de Molina ao entender que a comida comprada no mercado parece ter feito mal a Valentín (“- Mas essa comida não pode ter feito mal. / – Está louco, como eu vou botar a culpa na tua comida? / Como você está nervoso…” p. 143).

  8. Lucas Says:

    Gostaria de chamar a atenção para a relação entre tempo, sujeito e espaço em Lavoura Arcaica e Grande Sertão: Veredas. Falo do tempo não somente no sentido de categoria à priori kantiana, mas mais no modo como é internalizado e exteriorizado pelo sujeito presente. Em GSV, tempo e espaço são indissociáveis, um e outro escrevem a trama de toda a rememoração de Riobaldo. O espaço é soberano. A relação que Riobaldo tem com a memória é sua busca dentro de sua dimensão temporal. Daí talvez o porquê da narrativa desconexa, no plano do sujeito. Rosa involucra a temporalidade do texto em uma espiral de fatos e memória. O presente quase não é lido, senão em termos de reinvenção do tempo passado. Está em aberto…

    Já em Nassar a narrativa em flashs constrói, sobretudo, um personagem presente. No entanto, este é um presente mais fechado, limitado a uma historicidade insustentavelmente pesada do protagonista. Ao que parece, tempo em Nassar tem um éthos existencialista, agonístico, que leva a angústia da escolha a seus mais elevados graus, dado que o fato supremo da narrativa é a partida de André de casa. Definir o tempo é muito importante aqui. Por outro lado, o espaço de mais relevância na obra está subordinado a um tempo, a juventude de André, de resto é indefinido.

  9. Grégory Says:

    Na obra de Nassar, na página 120, André finalmente utiliza da forma como bem entende os argumentos do pai para justificar os seus. O personagem André justifica o fato da felicidade só ser encontrada na família para justificar a sua paixão pela irmã. Se utiliza dos argumentos do pai para a defesa do seu desejo. Na seqüência é possivel observar um conflito entre Ana e André, ao mesmo passo de um conflito entre a religiosidade e a não religiosidade. André tenta se entregar refletindo, falando de seus sentimentos para Ana. Esta se esconde na religião para não aceitar o que seu fala, e daí gera-se um conflito em André, o que motiva sua fuga.

  10. Marisa Says:

    Professor Andrey
    Estava “surfando” pela internet e repentinamente topei com este blog: achei genial! Li alguns comentários de teus alunos e outros (irrelavantes) de detratores da iniciativa. Como se diz em espanhol “allá ellos”.
    O fato é que gostaria parabenizá-lo pelo resultado interativo com os alunos e leitores.
    Também sou professora de Literatura hispanoamericana e a seleção de autores (arbitrária e nada canônica) simplesmente me encantou.
    Espero que se cure da “hérnia”…! Mas, por favor, não deixe de alimentar este blog tão agradável.
    Um abraço
    Marisa

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