Aula 02b – Lessing

Lessing: vale ler

Como disse em sala, Guzzo se inspira em um artigo escrito por Doris Lessing em 1992 – artigo que tem o título “Language and the lunatic fringe” – literalmente, “A linguagem e o extremo lunático”. Trata-se de um texto que fala de um momento histórico específico: o espaço público europeu que seguiu à queda do Muro de Berlin e o colapso do totalitarismo soviético.

Lessing oferece uma versão um pouco mais consistente do argumento de Guzzo. Acredita que certos termos são desprovidos de significado. Como Guzzo, associa esses jargões ao pensamento (palavra que ela provavelmente usaria entre aspas) de esquerda.

Mesmo assim, entretanto, Lessing esbarra no mesmo problema que compromete o texto de Guzzo: a autoridade. Pois evita responder a uma pergunta crucial: quais critérios universais podem ser usados para distinguir palavras que significam daquelas que não significam? Afinal, se dizemos que a palavra alheia é vazia SEM abordá-la, evitando perguntar o que ela significa para quem a usa, não estamos cometendo o mesmo pecado que criticamos? A nossa crítica não se torna, ela mesma, uma fala desprovida de sentido?

De qualquer forma, sugiro a todos que leiam o artigo de Lessing, cujo original pode ser encontrado aqui. A leitura é facultativa. Mas o texto é curto e interessante.

PS – Aliás… há uma história intelectual interessante operando aqui. Guzzo cita Lessing. Mas sua crítica remete em última instância a 1984, de George Orwell. O livro, de 1949, é interessante. Descreve uma sociedade totalitária na qual o Estado impõe um projeto de controle de pensamento baseado no controle lingüístico e na criação de um novo idioma, o newspeak.

O que interessante é que há alguns autores latino-americanos conservadores que teceram críticas à linguagem da esquerda ANTES de Orwell. Borges o faz implicitamente. Já Julio Ycaza Tigerino, um católico nicaragüense tão brilhante quanto conservador, o faz de forma explícita em um artigo que, publicado em 1947, pode ser encontrado aqui.

Uma resposta to “Aula 02b – Lessing”

  1. Andrea Says:

    O texto me lembrou muito o que lemos na disciplina do semestre passado… A falta de um elemento de validação, de autoridade, no discurso… Lessing apresenta o problema mas acho que ainda deixa muito a se pensar (claro, duas páginas, né…); na verdade, ela apresenta o problema da dependência de uma autoridade que valide o pensamento. Pelo que parece, não há nem poderá haver liberdade – ou a liberdade seria, então, a falta de sentido, considerado como um elemento necessariamente autoritário, e não questionável, passível de ser posto sob diversas perspectivas? A linguagem também é história, e pode, também, ser anacrônica, perdendo seu sentido no decurso do tempo, mas acho que nem por isso ela perde completamente seu sentido; ela pode ser resignificada em novos contextos – daí o politicamente correto, por exemplo, e aqui não acho que seja um elemento de puro autoritarismo, mas uma possibilidade de reflexão…

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