Aula 03 – Schwarz e Holanda

Nossas leituras obrigatórias para terça-feira são: As idéias fora do lugar, de Roberto Schwarz, e “Novos tempos”, que é o sexto capítulo de Raizes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. O texto de Holanda está na pasta 115 da xerox. Caso consiga uma versão eletrônica, também vou postá-la aqui. De qualquer forma, segue abaixo uma breve apresentação de cada autor.

Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) foi um historiador, critico literário e jornalista brasileiro. Nascido em São Paulo, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1925. Com fortes vínculos com o movimento modernista, viveu em Berlim até o início dos anos 30, quando retornou ao Brasil – tornando-se professor da antiga Universidade do Distrito Federal em 1936. Nesse mesmo ano, publicou a obra que o consagraria: Raízes do Brasil.

Nas duas décadas seguintes, migrou de emprego em emprego – exercendo funções na administração pública, na academia e até na curadoria do Museu Paulista. Além disso, viveu na Itália e teve um bando de filhos, entre eles o músico Chico Buarque de Holanda.

Já Roberto Schwartz nasceu em 1938, na capital da Áustria, Viena. Filho de judeus, migrou para o Brasil, onde formou-se em Ciências Sociais pela USP em 1960, de onde seguiu para Yale – uma ótima universidade situada na cidade (cinza e deprimente) de New Haven, Connecticut, onde completou um Mestrado em 1963. De volta ao Brasil, acabou exilado em 1969, quando seguiu para Paris. Em 1976, completou um Doutorado em Estudos Latino-Americanos.

Apesar de sua formação em Ciências Sociais, foi na crítica literária que Schwartz realmente destacou-se – especialmente depois Ao vencedor as Batatas, um forte estudo sobre Machado de Assis que publicou em 1977 e que foi seguido 13 anos depois por Um mestre na periferia do capitalismo. Hoje aposentado, foi professor da USP e da Unicamp.

De forte influência marxista, Schwarz teve em Antônio Cândido seu principal leitor e interlocutor intelectual. Não por acidente, seu pensamento sobre a literatura sempre reflete um interesse mais abrangente em política, sociedade e cultura brasileira.

Pessoalmente, vejo essa influência como uma dádiva e uma maldição. É uma dádiva porque permite que Schwarz aborde um problema fundamental: a disjunção entre as ideologias européias e a forma pelas quais essas mesmas são adaptadas à realidade brasileira – disjunção que, diga-se de passagem, obriga o próprio Schwarz a rever pelo menos um conceito marxista que informa seu trabalho, o de ideologia. Mas não deixa de ser uma maldição ao reduzir o papel da literatura ao de uma denúncia ou sintoma do subdesenvolvimento.

Schwarz provavelmente discordaria dessa crítica. Mas, enfim…

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5 Respostas to “Aula 03 – Schwarz e Holanda”

  1. Murilo Says:

    Schwartz e Sérgio expõem, em ambos os textos, a passividade e ignorância do povo brasileiro quanto a questões políticas, econômicas e sociais, evidenciando a grande influência internacional nestas nossas questões.
    Interessante também é que os dois textos chamam atenção à inábil elite letrada brasileira a qual desejava (e ainda deseja) ilustrar-se como diferenciada e valorosa ao invés de lutar pelo desenvolvimento do país. Para isso, Schwartz explicita a relação do favor dos “agregados” para com os latifundiários, enquanto Sérgio abusa do uso de metonímias para caracterizar a sociedade que valoriza partes, objetos, aparências em detrimento de sabedoria, integridade e caráter, além de utilizar o exemplo de Dom Pedro II e a satisfação sensorial deste pelos livros.
    Para finalizar, é importante notar a crítica de ambos os autores sobre a literatura alienante que criou um Brasil paralelo, através das letras, a tudo o que indicava a verdadeira realidade (Romantismo, Hino à República, …).

  2. Kaio Says:

    Ambos os textos demonstram o quanto os intelectuais do país são mais, digamos, platônicos e arrogantes do que seria desejável. Além de se apegarem a ideologias altamente normativas e sistemáticas (por exemplo, o positivismo) ou deturparem e distorcerem outras para promover a auto-indulgência quanto ao Brasil (liberalismo), valorizam mais a estética (no mau sentido) do que o conteúdo em si do que dizem e propagam.
    Sérgio Buarque ainda demonstra que, embora o culto ao bacharelismo não seja exclusivo da intelligentsia brasileira (haja vista que os americanos também o valorizavam), as características que este adquiriu em nossas terras levaram à sobrevalorização das carreiras (e cátedras) de Direito e Medicina; o desprezo pelo esforço levou a nós (e à mãe-pátria Portugal, também) a apreciar em demasia as profissões liberais, as quais eram perfeitas para ostentar erudição e evocar valores aristocráticos
    Schwartz, embora enviesado pelo seu marxismo (o que, certamente, o levaria a insistir em associar as idéias do liberalismo com o conservadorismo e o cinismo de nossa elite), ainda consegue reiterar o paradoxo entre os pensadores que pregavam nacionalismo, igualdade e liberdade, mas que continuavam praticando a dependência, a estagnação e a escravidão.

  3. Grégory Says:

    Os dois autores tentam decifrar caracterísiticas do Brasil e de sua população. Sobre Swharz, pode-se dizer que o autor atrela o “escravismo” e o “favor”, como elementos que demonstram o impedimento do país em acompanhar as mudanças das relações econômicas mundiais. Em resumo, os intelectuais e a burguesia reconheciam e participavam dos processos de mudança, mas sempre com o entrave de características que atrasavam o país, como o latifúndio, o escravismo, a má assimilação das idéias liberais… na assimilação das idéias européias o país é ambíguo, o que reflete na reprodução do pensamento social. Sobre Holanda, pode-se dizer que o brasileiro apega-se a fatores personalistas, não conseguindo assimilar noções de se viver em comunidade. O autor, atrela a chegada de “inovações”, como a independência, a república e outros, como motivadas pela aristocracia, pelos intelectuais, os queis nunca se preocuparam em enquadrar tais elementos de mudança a realidade do país tão marcado pelo personalismo e pela pessoalidade nas relações sociais. Esse último, comparável ao “favor”, descrito pelo Schwartz.

  4. Joyce Says:

    Roberto Schwartz e Sérgio Buarque de Holanda tratam nos textos da contradição entre as idéias dos intelectuais brasileiros a respeito da nossa sociedade e a realidade vivida. Importamos cultura, modo de viver, doutrinas, pensamentos. Até a maneira de se vestir e se comportar à mesa era reproduzido no sentido de imitar a vida européia. A nossa independência também veio das idéias francesas, americanas e inglesas. Idéias liberais que acabaram por se chocar com o país escravocrata. Para Schwartz, era inevitável o raciocínio burguês de que o lucro vem antes de tudo, já que a economia era voltada para o mercado externo. Os dois autores citam a literatura brasileira para confirmar a tese de que “somos uns desterrados em nossa terra”. Para Sérgio Buarque, os escritores transformavam nossa natureza tropical em “uma pobre e ridícula caricatura das paisagens arcádicas”. A maioria dos intelectuais brasileiros defende doutrinas e convicções de acordo com as palavras bonitas. Busca-se lá fora as teorias e preceitos sem saber se elas se adaptam a nossa realidade. A democracia no Brasil, por exemplo, não teve a participação do povo. A aristocracia rural importou-a e acomodou-a no país de acordo com o seu interesse. É interessante notar tanto no texto de Sérgio Buarque, quanto no de Schwartz que as conquistas vieram de cima para baixo. O povo passa quase sempre despercebido. Segundo Sérgio Buarque, os intelectuais se baseavam em livros, imaginações, sonhos e acabavam por transformar a realidade em algo artificial. Outro ponto interessante é quando Sérgio Buarque afirma que o grande problema é que o Brasil é formado de fora para dentro. Parece que temos de ter a aprovação dos outros em tudo.

  5. Lúcio Jr Says:

    Oi, Andrei. Concordo com sua leitura do Roberto Schwarz, só observo que o nome dele não tem esse “t”. Eu comentei o determinismo dele numa comunidade sobre ele do Orkut e o pessoal se horrorizou: um discípulo de Adorno, determinista? Mas é isso mesmo o que vc falou: para ele, a literatura acaba muito determinada pelo subdesenvolvimento mesmo.

    Abraços do Lúcio Jr.

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